Entrevista//Roberto Rodrigues: Ex-ministro da Agricultura comanda República Agro na TV

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, agora é uma das atrações do canal AgroMais

João Carlos Rodrigues e Tito Matos//Da redação do AGROemDIA

O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues está de volta à TV. Desta vez, no comando do República Agro, programa semanal de entrevistas exibido pelo AgroMais, novo canal fechado da Rede Bandeirantes focado no segmento do agronegócio.

“Procurarei conversar com gente séria e competente que tenha um recado importante a dar em qualquer assunto que leve à melhoria da competitividade do nosso agro”, disse Roberto Rodrigues ao AGROemDIA. Na estreia, ele entrevistou o também ex-ministro da Agricultura Alysson Paolinelli, presidente da Abramilho (clique aqui para assistir).

Confira, a seguir, a entrevista de Roberto Rodrigues, na qual ele aborda a comunicação no agro, as mudanças provocadas pela pandemia da covid-19 no mercado agrícola mundial e qual deve ser a postura do Brasil em relação ao meio ambiente:

AGROemDIA – Então, agora o senhor comanda a República Agro…na TV?

Roberto Rodrigues – Pois é, me aventurando mais uma vez nesse ambiente [televisivo], mas sempre na defesa da mesma causa: transformar o Brasil no campeão mundial da segurança alimentar e, por conseguinte, no campeão mundial da paz, visto que não haverá paz enquanto houver fome. E essa trágica pandemia da covid-19 trouxe esse tema de volta aos debates globais. As pessoas se deram conta que podem adiar a compra de roupas, eletroeletrônicos, casas e carros, mas não podem deixar de comprar alimentos.

AGROemDIA – Qual é o enfoque e a periodicidade do programa?

Roberto Rodrigues –   É um programa semanal. Procurarei conversar com gente séria e competente que tenha um recado importante a dar em qualquer assunto que leve à melhoria da competitividade do nosso agro, começando com a produção sustentável e passando por inovações tecnológicas, logística, diplomacia, comércio interno e internacional, defesa sanitária, cooperativismo e associativismo, crédito, seguro rural, renda no campo, migrações, irrigação, bem-estar animal, mudanças de legislação, desburocratização e temas correlatos.

Sempre tivemos facilidade em falar para dentro do setor e pouca habilidade em mostrar à população a urbana a importância da agropecuária”

AGROemDIA – Como o senhor encara esse retorno à TV, já que teve experiências anteriores nesse veículo e em plataformas digitais, como o Youtube?

Roberto Rodrigues – Não é bem a minha praia, embora no final do século passado (uau, como o tempo voa!) e no começo deste, eu tenha comandado por seis anos um talk show em um canal também voltado ao agro, o Canal Rural. Portanto, já tinha uma certa experiência. Mas tenho recebido inteiro apoio da equipe técnica do AgroMais e da Rede Bandeirantes, de modo que os programas vão saindo, com maior ou menor dificuldade. O que está mesmo complicado é fazer tudo no virtual, o que nem sempre permite a fluidez das conversas. Há ocasiões em que o papo cara a cara fica mais objetivo, mais interessante.

AGROemDIA – Volta e meia, representantes do agro dizem que o setor precisa se comunicar melhor com o público, especialmente o urbano. O que falta para o agro melhorar a sua comunicação?

Roberto Rodrigues – Falo isso há uns 30 anos pelo menos. Sempre tivemos facilidade em falar para dentro do setor, isto é, de nós para nós mesmos, e pouca habilidade em mostrar para a população majoritária do país, a urbana, a importância do setor agropecuário. Isso é ruim porque numa democracia (como felizmente temos no Brasil) as políticas públicas são, em geral, inspiradas pelo que pensa a população majoritária. E se a cidade achar que o agro é de segunda classe, teremos políticas de segunda classe.

Isso tem que mudar. Afinal, quando eu planto uma semente de algodão, ela foi desenvolvida num centro de pesquisa urbano, por cientistas formados em universidades urbanas. Todos os insumos (máquinas, equipamentos, defensivos, fertilizantes) são fabricados em empresas urbanas. Os serviços (crédito, seguro, assistência técnica, infraestrutura) são gerados nas cidades. Portanto, não se planta nada sem a contribuição dos trabalhadores urbanos. E, depois de colhida, a safra vai para fábricas de tecidos ou roupas, que também ficam nas cidades, bem como as empreiteiras que constroem estradas, ferrovias, portos e armazéns gerais. Ou vai para os escritórios que cuidam de contratos de exportação ou as bolsas. Em outras palavras, a relação urbano-rural é absolutamente essencial para a atividade do agronegócio. As cadeias produtivas estão sempre ligando as duas metades. O urbano e o rural são siameses, um não existe sem o outro. É preciso insistir nessa verdade…

AGROemDIA – O problema é mais de comunicação ou de postura do agro frente à sociedade urbana? Às vezes, alguns representantes do setor não se colocam em posição de superioridade em relação aos demais segmentos econômicos pelo fato de produzirem alimentos?

Roberto Rodrigues – Fica difícil saber o que veio antes, o ovo ou a galinha. É uma comédia de erros que começou com a grande mentira da história brasileira, perpetrada por Pêro Vaz de Caminha, escrivão da frota de Cabral, que em carta ao rei de Portugal disse que “nessa terra, em se plantando, tudo dá”. Como essa é uma história que a gente aprende nos primeiros bancos escolares, o subconsciente de todo mundo admite que é uma moleza plantar e colher, mas isso é um tremendo engano. Quem conhece as terras inférteis do cerrado sabe que sem muita tecnologia, que custa muito dinheiro, não se produz nada nele. A figura de Jeca Tatu, criada por Monteiro Lobato, também remete o agricultor a uma imagem caricata de um sujeito atrasado. E isso tudo também está muito errado.

Nosso produtor rural é hoje um empreendedor corajoso que partiu para a fronteira agrícola e a transformou em poderoso celeiro. Claro que isso orgulha e honra os autores dessa conquista extraordinária, que nem sempre é entendida e reconhecida. Mas não há arrogância, apenas orgulho da vitória sobre tantos obstáculos que na cidade não dá mesmo para imaginar.

AGROemDIA – Qual cenário o senhor espera para o agro brasileiro no pós-pandemia?

Roberto Rodrigues – Nos primeiros cinco meses deste ano, em plena pandemia, o Brasil foi o único país agrícola importante que aumentou as exportações do agro em relação ao ano passado e abasteceu todos os nossos cidadãos. Isso mostrou ao mundo e a nós mesmos que tivemos competência para seguir produzindo e organizando as cadeias de distribuição com agilidade e precisão.

Isso teve duas consequências de caráter global. Por um lado, em todos os países houve uma melhor avaliação da importância da segurança alimentar e, por consequência, da agropecuária. Melhor avaliação que contribuiu para que governos nacionais decidissem apoiar mais os agricultores como forma de garantir a alimentação de suas populações. Em alguns países já está sendo proibida a exportação de eventuais excedentes de alimentos sem prévia certeza de que não faltarão aos seus consumidores.  Por outro lado, outros países já estão pensando em recriar formas de proteção aos seus produtores para evitar a importação de alimentos de países mais competitivos, como é o nosso caso.

Nosso produtor rural é hoje um empreendedor corajoso que partiu para a fronteira agrícola e a transformou em poderoso celeiro”

AGROemDIA – Como o Brasil deve se movimentar neste cenário de mudanças globais causadas pela pandemia?

Roberto Rodrigues – Estes dois fatores vão interferir no mercado mundial de alimentos, gerando oportunidades e riscos para nós. Por isso, será necessário um grande esforço integrado entre governo e setor privado para avaliar as oportunidades (e aproveitá-las) e os riscos (e mitigá-los). A diplomacia terá papel central nisso, além do trabalho dos nossos adidos agrícolas, em boa hora criados. E aí deve estar na pauta acordos bi ou multilaterais que criem novos mercados e consolidem os já existentes, como o superimportante acordo entre UE e Mercosul.

Também deve subir a régua da defesa sanitária, porque ficou claro que o mundo não estava preparado para uma pandemia dessa magnitude. A sustentabilidade será mais valorizada como fator determinante da competitividade, e inovações tecnológicas virão aos montes, sobretudo na área de TI, com muita digitalização e conectividade na gestão e na mecanização do campo. Pode também haver algumas mudanças de hábitos alimentares, o que exige atenção dos produtores rurais: temos que produzir o que o mercado quiser consumir.

AGROemDIA – Como reverter a imagem do Brasil no exterior em relação ao meio ambiente?

Roberto Rodrigues – Mostrando a verdade. E esta tem diferentes facetas. Por um lado, cresceu o desmatamento ilegal no país todo, com ênfase para a Amazônia. Isso é inaceitável e todos os produtores rurais profissionais e suas instituições representativas precisam declarar peremptoriamente: não admitimos o desmatamento ilegal nem as invasões ilegais de terras indígenas ou públicas por quem quer que seja. Exigimos firme ação do governo no combate a tais ilegalidades e exemplar punição aos culpados. Simplesmente não dá para aceitar nada ilegal, nem na Amazônia nem em outra região qualquer do país.

Por outro lado, é preciso mostrar uma realidade fantástica que é a sustentabilidade da produção rural no Brasil, com inovações marcantes como os programas do Plano ABC, o etanol de cana, que emite 11% dos gases de efeito estufa emitidos pela gasolina, o gigantesco plantio de florestas (quase 8 milhões de hectares), o boi a pasto, o plantio direto na palha e outros programas maravilhosos em que já somos exemplo para o mundo.

Por fim, temos que separar o joio do trigo. Interesses comerciais menores (ou enormes) podem estar por trás de agentes que só criticam esses nossos lamentáveis erros e não mostram os acertos espetaculares, tendo em vista até mesmo o boicote a produtos agrícolas brasileiros, como já vem sendo ameaçado. Isso tem que ser provado e combatido também na forma da lei.

Simplesmente não dá para aceitar nada ilegal, nem na Amazônia nem em outra região qualquer do país”

 

AGROemDIA

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