Sempre aos domingos: Waldick Soariano deixa saudades em Santa Rita, no oeste baiano

 

Tito Matos//Da redação AGROemDIA

Os anos passam, é verdade, mas as lembranças ficam. Relembrar é viver um pouco mais, como já dizia o poeta. Faz tanto tempo, mas as “pegadas” ficaram impressas em nossos corações e mentes. Refiro-me ao show de Waldick Soriano em 1966. A notícia de sua apresentação começou a circular pelas praças, ruas e bares da cidade de Santa Rita de Cássia, (no oeste baiano), mas poucos acreditavam nela.

– Quem? Waldick em Santa Rita?   Conta outra. Esta reação era comum a todos, que duvidavam de visita tão ilustre. Nossa cidade era tão distante. Difícil, muito difícil chegar até lá naquela época. Na seca, muita poeira. No inverno, muita lama. Poucos atreviam. Seria a primeira vez na história do centenário município um show de um cantor tão famoso.

Aconteceu. Foi num final de tarde que um jeep Willys parou na porta do Brasília Hotel, trazendo a bordo ele mesmo em carne e osso: Waldick Soriano, o cantor mais consagrado do Norte e Nordeste, cujos LPs eram vendidos até em feira.   Empoeirado, com um tatu “bola” na mão, “caçado” na estrada, ele logo entrou no “Cantinho do Céu” para “tirar a poeira da garganta”. Poucos minutos depois, o barzinho estava lotado de admiradores e fãs curiosos e desejosos em ver de perto o seu ídolo.

Dirigindo-se ao balcão, pediu uma garrafa de uma cachaça muito popular na ocasião – a Tatuzinho. Mas, logo chegaram alguns fãs mais endinheirados lhe oferecendo wisky importado. Era Cavalo Branco (White Horse). Ele agradeceu a todos e pediu-me que lhe abrisse a garrafa de pinga. Isso mesmo, pediu-me, porque eu estava do outro lado do balcão. O Cantinho do Céu era uma sociedade de minha saudosa mãe dona Nina e eu.

Quando recebeu a garrafa de Tatuzinho, Waldick, com o seu inseparável chapéu de feltro preto, despediu-se dos admiradores e entrou no hotel.  Já era noite. E enquanto se barbeava, iluminado por um aladim “movido” a querosene, bebeu quase toda a garrafa de cachaça e nem inebriado ficou. Estava muito lúcido. Parecia ter tomado chá de boldo, como ele costuma dizer ao se referir a um bom uísque ou a uma boa aguardente

O cardápio do jantar – ainda me lembro  –  era composto de   arroz, pernil, farofa, galinha ao molho pardo, com “pirão de mulher parida”, mal-assado (que nos restaurantes grã-finos chamam de rosbife), ensopado de carneiro (a pedido do cantor), salada e uma galinha ao forno com recheio. De sobremesa, doce de maracujá, doce de buriti e de caju. Um banquete.

O show aconteceu no salão da prefeitura, onde funcionava a Câmara de Vereadores, na Praça da Bandeira. Todos levaram suas cadeiras. Duas grandes mesas serviram de palco. Som? Nenhuma aparelhagem. Ele cantou com a força do seu “gogó”. Ninguém reclamou. Pelo contrário, cada final de música muitos aplausos, assovios e mais aplausos. Teve fã que chorou, chorou copiosamente, quando Waldick cantou “Paixão de um homem”. O fã chorão justificou o seu sentimento: “É verdade, o homem quando chora tem no peito uma paixão”.

No meio do show, lembro-me que meu saudoso pai, seu Paulo, fã número um de Waldick, pediu-lhe para cantar “Justiça de Deus”. Atencioso, respondeu que “Justiça de Deus” não era uma canção, mas uma oração. Ele cantou seus grandes sucessos com muito entusiasmo e empolgação, despertando em todos mais simpatia e admiração pelo cantor romântico, brega jamais. Estava no auge, nas paradas de sucesso, “Flores perfumadas para alguém”, ano de seu lançamento.

Como era de se esperar, o show foi um espetáculo impressionante, um sucesso, que ficou marcado na história de nossa terra natal. Nunca esqueceremos daqueles tempos idos e vividos que os anos não trazem mais. Por aí se vê que o passado não é o que passou, mas o que ficou do que passou.  Tem razão Roberto Carlos quando diz numa de suas belas canções: é no coração que a gente guarda tudo o que é para sempre”. E o show de Waldick Soriano, em Santa Rita, ficou marcado para sempre em nossos corações e mentes.

 

AGROemDIA

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