Há sinais claros de que a atual inflação pode não ser sazonal

Ivanir José Bortot, jornalista especializado em finanças públicas e macroeconomia

Ivanir José Bortot*

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) manteve as taxas básicas de juros em 2% ao ano, apesar dos sinais claros de que a atual inflação pode não ser sazonal. A lógica da autoridade monetária é esperar mais alguns meses para se certificar que os atuais aumentos de preços vieram para ficar.

Os consumidores já há meses sentiram na carne uma onda de aumentos dos preços dos alimentos que teriam ocorrido pela desvalorização do real diante do dólar, o que contribuiu para aumentar as exportações e, ao mesmo tempo, pelo aumento do consumo interno. Com menos oferta de carne, arroz, milho, frutas e verduras, de um lado, e consumidores comprando mais devido à liberação de ajuda financeira do governo, os preços subiram e viraram inflação.

Nem o câmbio salva

O cenário poderá mudar com alguma acomodação cambial, mas ninguém mais espera dólar a R$ 4,00. O poder de compra da maioria da população pode cair com o fim do repasse dos recursos de auxílio à população mais pobre. Isto, no entanto, pouco muda a atual realidade de preços em alta – como é o caso do segmento da construção civil.

Um pouco de inflação, no atual caso, em que estamos com juros negativos, contribuiu com o esforço do governo de ajuste fiscal. Como todos os gastos do Orçamento Geral da União são em moeda corrente, o real, uma inflação na casa dos 4,17% nos últimos 12 meses significa uma economia da mesma magnitude. Da mesma forma, uma inflação maior do que a prevista indica uma arrecadação de impostos na mesma proporção. Ou seja: o governo gasta menos e arrecada mais do que estava previsto em seu orçamento. Pode usar este dinheiro para melhorar o seu déficit fiscal ou simplesmente gastar mais.

Voo de galinha

Os juros baixos, por outro lado, contribuem para redução do custo médio da rolagem da dívida, o que é bom para o Tesouro Nacional, não fosse o fato de que o atual nível da dívida pública federal estar perto do equivalente a 100% do Produto Interno Bruto (PIB), um fato nunca visto antes na história recente do Brasil.

É verdade que a injeção de recursos públicos por todos os países do mundo, consequência da pandemia do coronavírus, no atual nível de endividamento do Brasil não tem assustado muito os investidores. No último mês de novembro, o país recebeu perto de US$ 30 bilhões de recursos externos, só que aplicados em ações de empresas brasileiras que estavam na bacia das almas.

O ingresso destes recursos contribuiu para evitar maior desvalorização do real. De fato, o real só voltará aos patamares anteriores à atual crise com a volta do aumento das taxas de juros, que dependem do comportamento da inflação e da aprovação das reformas no Congresso Nacional.

Por outro lado, juros nas atuais magnitudes deveriam estar contribuindo para estimular a atividade da economia, coisa que não vem ocorrendo. Ninguém ainda está seguro sobre a recuperação da economia de forma sustentável, ao contrário do que acredita o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O que vem pela frente seria um “voo de galinha”: um crescimento curto, reflexo na recuperação da queda brutal da economia. Um dos fundamentos macroeconômicos para sustentar este último argumento é o atual nível de 14 milhões de desempregados. Sem emprego de qualidade e renda, o consumo das famílias não tem fôlego para alimentar um crescimento econômico de longo prazo.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

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