BC sinaliza alta de juros para conter inflação e risco de desequilíbrio fiscal

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central – Foto: José Cruz/Agência Brasil

Ivanir José Bortot*

A retomada do crescimento da economia em 2021 dependerá do sucesso na aprovação de medidas amargas de reequilíbrio fiscal da União e da reforma tributária no Congresso Nacional, batalhas travadas por muitos ex-presidentes e, até aqui, sem resultados, por Jair Bolsonaro.

Sem falar sobre a resistência de aprovar essas medidas no Parlamento, a ameaça da ampliação da contaminação da covid-19 pode travar novamente muitos setores da economia e levar o Tesouro Nacional a socorrer a população pobre e desempregada.

Caminhamos novamente para um ano sem muitos sinais de retorno da atividade econômica com força para gerar empregos e impostos.

As estimativas de muitos economistas são de um crescimento de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021, que, na verdade, deixa a economia em um patamar ainda inferior aos 4,5%, que encolheu em 2020.

O desequilíbrio fiscal do governo federal, agravado no ano passado pelo enfretamento do vírus, que gerou déficit primário de R$ 751 bilhões, inibe muitas iniciativas de investimentos e a retomada dos negócios pelo setor privado.

Antes mesmo de qualquer iniciativa do Poder Executivo visando a redução de despesas, os novos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira, colocaram como prioridade número um a liberação de novas parcelas de recursos públicos para beneficiar as famílias mais pobres do país.

Diante das contaminações pelo vírus e as restrições de trabalho não havia outra coisa a fazer do que socorrer a população. Tivessem as autoridades da saúde agido com maior eficiência e rapidez para vacinar as pessoas, pelo menor parte destes problemas poderiam ter sido evitados. Perdemos um tempo precioso questionando a eficácia das vacinas produzidas e testadas em países avançados – sem falar na descontinuidade do trabalho no Ministério da Saúde com as trocas de ministros.

Correndo atrás do prejuízo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, que depende da boa vontade de Pacheco e Lira para ver aprovadas no Congresso algumas de suas 26 medidas de ajustes fiscal, deu a entender que concorda com a ampliação dos gastos de ajuda à população. A viabilidade orçamentária ainda é incerta, tendo em vista que ainda não foi aprovado o Orçamento da União de 2021, entre outras coisas, por despesas que estariam ultrapassando a lei de teto de gastos.

As instituições financeiras e demais agentes econômicos já incluíram nas suas projeções este tipo de despesa e os eventuais impactos que terão sobre as contas do governo. Aposta é de que Guedes consiga aprovar algumas das medidas de controle de gastos obrigatórios, cujo efeitos fiscais podem começar a aparecer nos próximos anos. A grande luta para este ano é evitar que as despesas da União ultrapassem o teto de gastos e que se consiga reduzir parte do déficit primário de R$ 250 bilhões projetado para este ano.

Ainda não há dados sobre o impacto da nova ajuda. Guedes falou de R$ 200,00 para um universo de 32 milhões de pessoas, sem falar em parcelas. A liberação destes recursos poderá ter impacto sobre preços de alimentos e a base monetária do Banco Central, uma vez que haverá mais dinheiro em circulação em um momento que a autoridade monetária dá sinais de que terá que elevar as taxas de juros para conter a inflação e amenizar os efeitos dos riscos de desequilíbrios fiscais do Tesouro Nacional.

O temor dos credores pode ser visto com os dados divulgados pela Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, de que cerca R$ 1,2 trilhão de títulos públicos vencem em 2021 e precisam ser resgatados e refinanciados. O que está ocorrendo é um encurtamento dos prazos de vencimento dos papéis do Tesouro Nacional. Diante de uma dívida de cerca de R$ 4 trilhões e taxas de juros na casa de 2% ao ano, com muitas operações abaixo da inflação, os investidores preferem prazos menores para evitar riscos maiores com um futuro fiscal ainda incerto. É verdade que o Tesouro Nacional tem capacidade de emitir dívida, e o Brasil tem condições de honrar seus compromissos.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na última semana, alertou sobre as preocupações com o atual cenário fiscal de o fraco desempenho da atividade econômica neste primeiro trimestre de 2021. Embora o desempenho fiscal do Tesouro Nacional seja um assunto de responsabilidade de Paulo Guedes, quanto maior for o déficit público, menor é a eficácia da política monetária que está sob comando de Campos Neto.

A deterioração do lado fiscal da mesma forma é um dos fatores que tem impactos sobre a política cambial conduzida pelo Banco Central. Para muitos especialistas, o real deveria estar hoje em R$ 5,00 ou um pouco abaixo, não fosse o elevado endividamento público. A realidade é que a atual taxa de juros e as relações de comércio do Brasil com o exterior têm também importância na formação da taxa de câmbio.

O BC, apesar das elevadas reservas internacionais, acabou sancionando o atual patamar do câmbio. Isso não ocorrerá impunemente. Muitos preços de alimentos cotados no mercado internacional, e mesmo as commodities, entre elas o petróleo, começam a provocar inflação. O reequilíbrio desta relação deverá ocorrer com a inevitável elevação da taxa Selic para conter a alta dos preços em 2021, que, apesar do fraco crescimento econômico, vem ocorrendo por escassez de oferta de muitos insumos industriais. A autoridade monetária já sinalizou ao mercado que os juros vão aumentar. Só não disse quando isso vai ocorrer ao longo deste semestre.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

 

 

 

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: