O leite no Cepea e o Cepea no leite

Natália Grigol, pesquisadora do Cepea – Foto: Cepea/Divulgação

Natália Grigol*

Há pouco mais de dois anos, o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) anunciava a mudança da metodologia de cálculo da média do preço do leite ao produtor. Aprendemos muito sobre transparência e trabalho em equipe com esta decisão, tão necessária para aumentar a coesão dos dados – que, em média, somam 35 mil ao mês.

De lá para cá, houve muito trabalho, em diferentes frentes e equipes, para consolidar o denominado “Projeto-Piloto”, parceria entre o Cepea, OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) e Viva Lácteos. Se, por um lado, avançamos muito, por outro, os futuros desafios para manter uma amostra representativa para nossa pesquisa ficaram mais claros. Sobretudo, ficou evidente o papel do Cepea como um ponto focal para o setor, no intuito de ajudar a construir uma efetiva coordenação entre os segmentos.

A pesquisa de preços do leite no Cepea se inicia junto com a própria história da instituição, em 1986. Naquela época, coletar e sistematizar esses dados eram tarefas muito diferentes (e mais difíceis) do que hoje em dia. O Cepea foi pioneiro em formar redes de colaboradores, manter infraestrutura necessária para viabilizar esse trabalho e desenvolver metodologias robustas para a pesquisa. Muitas pessoas passaram pela Equipe do Leite e cada uma delas deixou um pouco de si no Cepea, ao mesmo tempo em que também levaram o Cepea consigo para seus novos desafios. Ressalta-se que essa também é uma importante missão do centro de pesquisas: formar profissionais capacitados para o mercado de trabalho.

Não foram raras as ocasiões em que fomos questionados: o que o Cepea ganha em estar no leite? A resposta é simples: experiência. Reunimos o maior banco de dados sobre preços comercializados de leite, derivados e insumos para produção do Brasil, assim como a maior base de dados de custos de produção. Mantemos uma ampla rede de contatos que nos permite questionar, investigar e validar conhecimentos. Reunimos professores e pesquisadores que dedicam suas carreiras acadêmicas para gerar informações que possam ajudar o desenvolvimento deste setor tão importante para o Brasil, em consonância com a missão da universidade pública na qual o Cepea se insere: ensino, pesquisa e extensão.

A cadeia do leite tem muitos desafios pela frente, como aumentar a eficiência produtiva, elevar a qualidade da matéria-prima e dos lácteos, melhorar a gestão das empresas rurais e industriais e criar estratégias mais robustas para gerenciar os riscos econômicos da atividade. São desafios multifacetados e que exigem um esforço coordenado dos agentes para viabilizar estratégias competitivas num ambiente em constante mudança.

Nesse sentido, a geração e o compartilhamento de informações são cruciais para a compreensão da dinâmica do mercado e dos padrões de concorrência neste setor. Mas a atuação do Cepea tem ido além.

É preciso compreender a influência da separação temporal e espacial entre os agentes que transacionam, a assimetria de informações entre eles e a dificuldade de ambos em tomarem decisões consonantes, diante de mecanismos diferentes de decifração do ambiente em que ocorrem as negociações. No caso do leite, como as relações de oferta e demanda são complexas, muitos movimentos de mercado atingem com delay ou com especulação as negociações entre produtores e indústria. A fotografia de mercado não é a mesma entre os agentes da cadeia do leite e isso gera muitas dúvidas, incertezas, oportunismo e discussões, muitas vezes basais, inclusive, sobre os fatores que influenciam o mercado na alta e na baixa.

Com isso, é importante evidenciar que a informação sobre o mercado é mais do que uma ferramenta que orienta, individualmente, decisões em diferentes horizontes de tempo. Instituições como o Cepea têm contribuído, em diversas cadeias agropecuárias – e não seria diferente no leite –, como um ponto focal para o aumento da coordenação entre os agentes e para um melhor entendimento sobre os entraves ao desenvolvimento setorial.

Essa posição a que o Cepea foi alçado no caso das pesquisas da cadeia do leite decorreu da confiança expressa em parcerias de longa data com a CNA, com a OCB e Viva Lácteos – as quais foram e são fundamentais para apoiar pesquisas de custos de produção, negociações entre indústria e produtor e monitoramento do mercado de derivados lácteos. Este último merece destaque, pois é fundamental para antecipar tendências no campo, uma vez que a formação do preço ao produtor depende da comercialização do produto acabado. Além disso, também monitoramos o mercado do leite spot (negociado entre indústrias) quinzenalmente.

Da mesma forma, nenhum dado poderia ser gerado sem a participação voluntária de cooperativas, indústrias de laticínios e produtores, que compartilham seus dados com o Cepea, assegurados de seu sigilo e confidencialidade. Ainda assim, é um desafio latente ampliar a rede de colaboradores para nossas divulgações.

Assim como o próprio leite, sabemos que informações também são perecíveis. Por esse motivo, é crucial o trabalho conjunto de todo o setor para gerar informações úteis, de forma neutra e transparente. Esse esforço coletivo tem se amadurecido ao longo dos anos, e o reconhecimento por parte das organizações de que o monitoramento dos negócios efetivados é importante se coloca como base para um estreitamento da coordenação entre os agentes. Afinal, é difícil projetar um futuro sem um entendimento do passado.

Certos de que, como bons cepeanos, cumprimos missão vitoriosa, caminhamos juntos, portanto, o leite no Cepea e o Cepea no leite.

* Pesquisadora da Equipe Leite do Cepea (cepea@usp.br)

** Publicado originalmente no site do Cepea no dia 22/2/2021

 

 

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