Brasil na pandemia: Inflação, desemprego, juros altos e investidor em fuga

Ivanir José Bortot*   

A inflação ganhou corpo em plena recessão e está castigando os brasileiros, especialmente os mais pobres. Nos últimos 12 meses, a inflação acumulada atingiu 5,2% e levou o Banco Central a adotar um clico de alta de juros, o que pode dificultar ainda mais a retomada da atividade produtiva do país em 2021.

Um fraco crescimento da economia prejudica ainda mais os assalariados e também o Tesouro Nacional, que terá uma arrecadação menor de tributos para fazer frente as suas despesas.

Apesar da queda do Produto Interno Bruto (PIB), de 4,1% em 2020, do aumento do desemprego com o fechamento de indústrias, comércio e vagas de trabalho, assim como a perda do poder de compra da população, os preços dos alimentos básicos, bebidas, material de construção, entre outros, tiveram um grande aumento.

Há três fatores que explicam este comportamento atípico: alta dos preços das commodities como petróleo, soja, e milho no mercado internacional, redução de oferta de alguns produtos, aumento da demanda de outros e desvalorização do real.

Segundo os dados do Banco Central, os brasileiros investiram no exterior entre janeiro e fevereiro de 2021 U$ 3,989 bilhões em busca de uma melhor remuneração e segurança para seus capitais”

O impacto do câmbio, que é um preço que afeta todos os demais preços da economia, foi de 22% entre fevereiro de 2020 e fevereiro de 2021. O aumento dos combustíveis trouxe impactos de preços em diversos segmentos econômicos. A soja, por exemplo, que tem seus preços acoplados à variação do dólar, passou a ser um indexador de preços no setor agrícola, como a compra de insumos agrícolas, a prestação de serviços e a aquisição de terra, uma forma de defesa diante da perda do poder de compra do real frente a outras moedas. A elevação dos preços do milho e farelo de soja teve impactos sobre a produção de carne de aves, suínos e leite que chegam às gôndolas dos supermercados.

O Banco Central vinha adotando até o ano passado uma política de redução das taxas de juros e adotando políticas expansionistas de liquidez no sistema financeiros para fazer frente às dificuldades pelo travamento da atividade produtiva devido à covid-19. Os juros chegaram a cair para 2% ao ano, o menor patamar da história, sem reações significativas sobre o crescimento.

O BC, comando por Roberto Campos Neto, reduziu de 3,8% para 3,6% a previsão de crescimento do PIB em 2021. Alguns economistas trabalham com projeção de 3%, que para todos os casos será um desempenho que não compensa o encolhimento da economia no ano passado. O PIB só não caiu mais em função da injeção de RS 310 bilhões para socorrer a população mais pobre. Houve um aumento de consumo de alguns alimentos, como ovos, leite, arroz e feijão, seguido de elevação de seus preços. O consumo de carne bovina, entre outras, teve queda em função dos aumentos de preços devido às fortes exportações para a China.

Inflação contaminada

O Comitê de Política Monetária do BC (COPOM) submeteu todos estes fatores a avaliação. Constatou que “a demora na normalização das cadeias produtivas, pressionando custos de produção e inflação em setores específicos, sugere que há também um choque positivo de demanda atuando”. Alguns dirigentes do BC ressaltaram que “as pressões inflacionárias observadas em 2021 podem contaminar as expectativas de inflação para 2022, gerando risco de uma desancoragem das expectativas no horizonte relevante de política monetária”. O choque de demanda a que se refere a ata do BC ocorreu em janeiro e fevereiro. Com o agravamento das contaminações pela covid, o aumento do número de mortes e o fechamento do comércio, haverá um impacto significativo sobre a produção, consumo e renda nos próximos meses.

A autoridade monetária deixou claro que, além da elevação de 2% para 2,75% das taxas básicas de juros, haverá necessidade de mais aumento nos próximos meses para que a inflação volte para baixo da meta de 4,5% ao ano.

Se os efeitos desses juros sobre os preços podem demorar cerca de seis meses para trazer os resultados esperados, os impactos sobre a rolagem da dívida do Tesouro Nacional serão imediatos. O lado fiscal do governo piora e agrava a disposição dos investidores internacionais em aplicar no Brasil.

A realidade é que, na expectativa de que países, como os Estados Unidos, que já estão bem avançados na vacinação e acreditam em uma retomada de crescimento da ordem de 6% em 2021, muitos brasileiros estão preferindo investir no exterior. Especialmente aqueles que tiveram perdas ao aplicar suas poupanças a juros de 2% para uma inflação de 5,2%.

Segundo os dados de Balanço de Transações Correntes, divulgados pelo Banco Central, os brasileiros investiram no exterior entre janeiro e fevereiro de 2021 U$ 3,989 bilhões em busca de uma melhor remuneração e segurança para seus capitais. E o ministro da Economia, Paulo Guedes, acreditava que a retomada da economia seria feita com recursos das privatizações e ingresso de recursos estrangeiros no Brasil. Como dizem os especialistas, o Brasil não é para amadores.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

 

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