FMI alerta para possibilidade de tempestade financeira no pós-pandemia

Ivanir José Bortot*

O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta para riscos de alguns movimentos na economia mundial virarem uma tempestade financeira no pós-pandemia em função de uma recuperação desigual entre países ricos e emergentes. É o caso de um crescimento esperado de mais 6% do Produto Interno Bruto (PIB) nos Estados Unidos da América (EUA), que pode trazer grandes impactos em outras economias, com a do Brasil.

Diante deste cenário, o FED (Banco Central Americano) seria obrigado a elevar suas taxas de juros para evitar descontrole inflacionário e excesso de liquidez, o que implicaria em perdas de investimentos estrangeiros nos países emergentes, especialmente no Brasil. O FED indicou esta semana sua disposição de manter os atuais juros até 2023, mas, se estiver sob ameaça de descontrole da inflação, pode alterar sua estratégia a qualquer tempo.

Juros em alta nos EUA significam um fluxo ainda menor de dinheiro estrangeiro e provocaria uma escassez maior de dólares no mercado interno e agravamento na desvalorização do real, além de fuga de capitais nacionais, como vem já ocorrendo.

A desvalorização do real diante do dólar nos últimos anos vem reduzindo o poder de compra dos brasileiros no exterior. Mais grave é que contribuiu para sancionar os reajustes de preços no mercado interno de produtos, cujas cotações são formadas no mercado externo, como combustíveis, remédios, produtos químicos, adubos, defensivos, soja, carnes etc.

Mais juros, menos PIB?

Devido a um aumento praticamente generalizado de preços em um ambiente de baixo crescimento, uma inflação de 6,1% nos últimos 12 meses, o Banco Central elevou as taxas de juros para 2,75%, sinalizando que não vai tolerar inflação acima da meta, mesmo dizendo estar seguro de que os atuais aumentos de preços são fruto de efeitos sazonais da economia.

Tentando amenizar as preocupações do mercado sobre efeitos desta política monetária restritiva, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que taxas de juros até em torno de 6% não desestimulam as atuais condições de crescimento da economia do Brasil. Na verdade, há muita dúvida sobre o potencial de crescimento em 2021 em função do agravamento da crise do coronavírus e o desequilíbrio fiscal nas contas públicas.

Não ficou claro, nas palavras de Campos Neto, a razão do atual movimento de aumento de juros. Se não terá impacto sobre o crescimento, qual a razão do aumento, já que terá um custo muito elevado na rolagem dos títulos do Tesouro Nacional.

A autoridade monetária tem em suas mãos outros instrumentos, como o câmbio, para alinhar e controlar preços. O câmbio é um dos preços que mais têm contribuído para gerar inflação junto com os preços das commodities. O BC poderia ter evitado uma desvalorização de 22% do real só nos últimos 12 meses. As reservas do Brasil, de US$ 356 bilhões, foram constituídas para enfrentamento de crises e ataques especulativos como temos vistos com frequência no mercado.

Sem um crescimento sustentável não haverá arrecadação de impostos suficientes para garantir equilíbrio das contas públicas, sem falar na importância de geração de empregos e renda”

Uma recuperação nas perdas do real diante do dólar teria impacto sobre os preços, uma vez que os produtos importados poderiam chegar às prateleiras dos supermercados contribuindo para o abastecimento em condições competitivas.

Os prejuízos que poderiam causar as exportações seriam remediados, tendo em vista que os itens de maior peso vendido pelo Brasil são as commodities (soja, milho, ferro etc.), cujos preços tiveram aumentos em dólar.

Modelo Biden-Keynes

O momento exige medidas criativas que consigam solucionar situações de um quadro econômico imprevisto como o criado pela covid-19.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, por exemplo, quer impulsionar sua economia com gastos públicos de US$ 2,3 trilhões em investimentos em infraestrutura e tecnologia, gerando uma nova dinâmica em riqueza e emprego para os norte-americanos. Joe Biden adota o modelo econômico de John Maynard Keynes de obras públicas e emissão de títulos para recuperar empregos e produção, coisa que não passa pela cabeça do ministro da Economia, Paulo Guedes, e de Roberto Campos Neto.

O comando da economia no Brasil segue os fundamentos liberais ao pé da letra da escola de Chicago. O sistema de câmbio atual do Brasil é flutuante. O que significa que o BC não deve interferir no mercado de moeda em dólar para definir a taxa de câmbio, mas para garantir a funcionalidade deste mercado diante de situações graves. As operações de compra e venda de moeda estrangeira são realizadas entre o público, empresas e instituições financeiras autorizadas a operar pela lei da oferta e procura.

A autoridade monetária não está impedida de vender parte de suas reservas, sem colocar em risco a soberania do país, para fazer frente aos movimentos especulativos do mercado de câmbio. A operação contribuiria para segurar a inflação, redução da dívida bruta do Tesouro Nacional e até mesmo potencializar a contração da política monetária. Ao vender dólares, o BC estará retirando reais da economia. Com uma maior oferta de dólar, seu preço cai. Ficam mais baratas as importações e mais caras as exportações.

O recado do pessoal do FMI sobre os reflexos da recuperação da economia dos Estados Unidos é muito sério. Se, de fato, o FED tiver quer subir as taxas de juros em busca de um equilíbrio diante dos fortes estímulos fiscais que Joe Biden pretende dar a economia, pode sobrar o Brasil. Estamos com dificuldade de retomar o crescimento, mesmo com juros baixos e depreciação do real. es e RoPaulo Guedberto Campos Neto terão que recorrer a outros instrumentos, além da política de juros, para estimular a economia a crescer. Sem um crescimento sustentável não haverá arrecadação de impostos suficientes para garantir equilíbrio das contas públicas, sem falar na importância de geração de empregos e renda.

Apenas para lembrar ao leitor que durante o governo de Ronald Reagan, o dólar apreciou-se até 1985, por conta de um mix de uma política monetária altamente contracionista com uma política fiscal expansionista, associada ao aumento dos gastos militares e cortes nos impostos. Neste período, o déficit em conta corrente dos EUA aumentou muito, transformando a maior economia do mundo de credora a devedora líquida.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

 

 

 

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