Exclusivo: Índios de Roraima iniciam 1ª safra de milho em escala comercial

Fotos: Divulgação

João Carlos Rodrigues//Da redação AGROemDIA

Indígenas de seis etnias começaram um projeto inédito em Roraima: o cultivo de milho em escala comercial em suas aldeias. Nestes últimos dias, eles têm preparado o solo para semear a safra 2021. Cerca de 700 hectares devem ser cultivados predominantemente com milho e uma parte com feijão. A expectativa é colher cem sacas de 60 quilos por ha.  A produção será destinada à alimentação dos índios e às criações de suínos e aves das comunidades. O excedente será vendido à agroindústria para arrecadar recursos para a compra de insumos do próximo ciclo agrícola.

O projeto é resultado de articulação entre indígenas, governo de Roraima e prefeituras. Para participar as comunidades precisam manifestar à Secretaria de Estado do Índio (SEI), por meio de suas lideranças, interesse em iniciar o plantio de grãos. Depois que o pedido é aceito, elas emitem uma carta de anuência autorizando a implantação dos polos de produção agrícola. Antes de começar o cultivo, os índios envolvidos na iniciativa devem limpar e cercar as áreas para evitar que animais destruam as lavouras.

A implantação das áreas indígenas de produção em escala comercial em Roraima tem o apoio do governo do estado, através da SEI, que fornecesse os insumos – sementes híbridas de milho, calcário etc – e as máquinas agrícolas. Além disso, a secretaria também é responsável pela capacitação e treinamento dos índios para que eles possam participar de todo o processo – preparo do solo, semeadura, acompanhamento das lavouras e colheita.

Preparo do solo

“Temos em torno de 52 polos de produção, totalizando quase 800 hectares”, diz o secretário do Índio, o técnico agropecuário Marcelo Pereira. “O governo do estado os apoia com o preparo do solo, calcário, plantio e colheita.” Segundo ele, a SEI atende mil famílias em 120 comunidades indígenas, espalhadas por nove municípios. Ao todo, Roraima tem 14 mil famílias indígenas, com 81 mil habitantes. Eles vivem em 718 comunidades de 33 territórios, que ocupam 46% da área do estado.

No momento, seis etnias têm polos agrícolas: Ingarikó, Macuxi, Taurepang, Wapichana, Uaiuais e Sapará. “Acompanhamos os indígenas em todas as atividades, como correção do solo e semeadura, e estamos treinando-os para o uso das máquinas”, acrescenta o diretor do Departamento de Apoio à Produção Indígena da SEI, o técnico agrícola Claudionei Simon. “Nosso objetivo é capacitá-los, por meio da assistência técnica, para que possam ser independentes futuramente.”

Claudionei acredita que a produtividade das lavouras de grãos das comunidades indígenas deve crescer nas futuras safras. “A projeção de produção média de cem sacas por hectare tende a aumentar nas próximas temporadas. Agora todas as áreas são de primeiro plantio. Então, a estruturação do solo ainda não é a ideal. Por isso, acreditamos que a produtividade vai aumentar naturalmente a partir do segundo plantio.”

Técnico agrícola Claudionei Simon (de chapéu e máscara), diretor do Departamento de Apoio à Produção Indígena da SEI

Tuxauas otimistas

Os indígenas estão otimistas com a iniciativa. “Aqui estamos com 20 hectares [para milho e feijão]. Este é um projeto muito bom, porque nunca havíamos plantado com máquinas agrícolas. A vida toda a gente trabalhou com roça, derrubando e fazendo a queimada da mata”, comenta Reno Alexandre da Silva Benício, segundo tuxaua (líder) da Comunidade da Mangueira e superintendente da Secretaria de Agricultura do município de Amaraji.

“Sempre sonhei que a gente pudesse chegar a trabalhar com máquinas agrícolas, fazendo correção do solo e usando adubo. Isso é um grande passo para todas as nossas comunidades indígenas e para o meu povo. Com fé em Deus e com o nosso trabalho, a gente vai ter uma boa colheita, com 100% de aproveitamento”, ressalta Reno. Na Comunidade da Mangueira, 25 índios estão diretamente envolvidos com o plantio de milho e feijão em escala.

O tuxaua Marcos Sucuba, da Comunidade de Sucuba, no município de Alto Alegre, também está empolgado com a iniciativa. “Estamos trabalhando no projeto do milho em parceria com o governo de Roraima, que está nos fornecendo todos os insumos e o maquinário para plantarmos em 20 hectares neste ano. A nossa área já está todo gradeada, falta apenas iniciar o plantio.” A iniciativa envolve, por enquanto, 13 das 150 famílias da localidade.

“Desafio novo”

“Estamos tendo todo o apoio do governo do estado.  Não só para plantar, mas também colher e ensacar”, enfatiza Marcos Sucuba. Conforme o tuxaua, 20% da safra será destinada a toda comunidade e 80% ao grupo de índios que está trabalhando diretamente no projeto. “A ideia é vender a produção para alguma cooperativa ou comércio para a gente ter condições de aumentar a área plantada, que pode chegar a 30 ou 40 hectares no próximo ano.”

Na avaliação de Marcos Sucuba, o projeto deve melhorar as condições de vida da comunidade. “Hoje, a gente só vive da caça e do plantio da mandioca, milho e feijão [para subsistência]. Agora temos este projeto do milho que o governo está incentivando.”

“Este é um desafio novo para a gente”, pontua o tuxaua Pedro, da Comunidade de Ponta da Serra. “Estamos tendo a oportunidade de desenvolver o milho com técnica. Estávamos acostumados a plantar no mato, mas, como a mata está escassa e estamos preservando, vamos plantar no campo.”

Área plantada

A comunidade de Pedro destinou 28 hectares para o plantio de milho. “Nunca tínhamos tocado um projeto desses.  Parte do milho será usada para nossa alimentação, outra para a criação dos bichos e o restante queremos comercializar, para que possamos aumentar a área plantada para pelo menos 200 hectares no próximo ano.”

“O desenvolvimento é muito importante para a nossa comunidade”, destaca Pedro, revelando que 20 famílias participam do projeto em Ponta da Serra. “Também estamos servindo de espelho para outros comunidades”, sublinha, revelando que a iniciativa conta ainda com a parceria do Instituto Federal de Educação.

Os indígenas de Roraima também estão se dedicando a outras atividades agrícolas. “O governo estadual apoia outros projetos, como o avícola, cuja meta é criar cem unidades com capacidade de 200 frangos cada uma. Além disso, licitamos a compra de 150 mil alevinos para garantir às comunidades alternativas de alimentação”, cita o secretário Marcelo Pereira.

Conforme o titular da SEI, os investimentos do governo de Roraima no apoio às comunidades indígenas somam cerca de R$ 30 milhões. “Também estamos trabalhando na melhoria genética do rebanho bovino dos índios, para que possam ter competividade, e temos ações voltadas a hortas comunitárias, medicina alternativa, artesanato e culinária.”

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