UFV: Desmatamento na Amazônia e no Cerrado prejudica negócios de sojicultores

Foto: Agência Brasil

Um estudo publicado esta semana na prestigiada revista científica World Development afirma que o desmatamento na Amazônia e no Cerrado fez com que os produtores de soja deixassem de ganhar, em média, US$ 1,3 bilhão anuais entre 1985 e 2012. Esse valor deve subir para mais de US$ 4 bilhões anuais até 2050, se forem consideradas as previsões de mudanças climáticas globais. A expectativa representa ameaça à economia global e à segurança alimentar. A pesquisa foi divulgada no momento em que o Brasil enfrenta sua pior seca em quase um século e o desmatamento na Amazônia também bate recordes.

O Brasil possui atualmente 35,8 milhões de hectares cultivados com soja e é o maior produtor mundial, com 37% do mercado global. Mas o futuro lucrativo da maior commodity agrícola brasileira, responsável por sucessivos recordes de exportação, está ameaçado pelas mudanças no clima regional causadas pelo desmatamento.  Para Gabriel Abrahão, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Meteorologia Aplicada da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e um dos autores do artigo “Conserving the Cerrado and Amazon biomes of Brazil protects the soy economy from damaging warming, proteger a Amazônia e o Cerrado pode evitar as altas temperaturas que prejudicam a produtividade das lavouras”.

Mudanças regionais no clima

O trabalho enfatiza a influência das mudanças regionais ao mostrar que desmatar uma área afeta o clima de toda a região ao redor. “A remoção da vegetação natural em uma área na Amazônia ou no Cerrado aumenta muito a frequência de dias e horas muito quentes em um raio de 50km daquela área. Esse calor extremo pode ser muito prejudicial para a cultura da soja, cuja produtividade diminui com a perda de água e a fotossíntese mais lenta sob essas temperaturas muito altas”, diz Gabriel.

Os pesquisadores calcularam que um desmatamento de 30% da vegetação natural, num raio de 50km de uma área de cultivo de soja, faz com que a produtividade caia entre 8 e 14% devido ao calor extremo. Isso sem calcular os efeitos que o desmatamento também provoca na quantidade e na distribuição de chuvas na região, que são especialmente prejudiciais para os sistemas de safra-safrinha muito usados no Cerrado e que já foram demonstrados em outros estudos publicados pelo grupo de Estudos da Biosfera da UFV. Um deles, publicado recentemente na revista Nature Communications já demonstrou perdas agrícolas anuais de US$ 1 bilhão, associadas às reduções nas chuvas causadas pelo desmatamento. Juntas, as duas estimativas revelam os enormes impactos econômicos da destruição de ecossistemas no setor agrícola do Brasil. Segundo os autores, esses dois efeitos se amplificam gerando perdas anuais que podem ser maiores que US$ 4,55 bilhões anuais nas safras de soja.

Mesmo que considerados isoladamente, os impactos econômicos do desmatamento que provoca calor extremo e redução das chuvas são preocupantes. “As consequências econômicas são grandes – e cada vez maiores, com sérios impactos na economia global e local e na segurança alimentar. É um problema local com ramificações globais e está acontecendo em regiões tropicais em todo o mundo”, assinala Rafaela Flach, da Tufts University e principal autora do estudo. Ainda segundo Rafaela, “embora os impactos globais não devam ser subestimados, os danos que a perda de ecossistemas está causando para a economia brasileira são graves.”

O método

Na pesquisa, os cientistas analisaram o valor que a vegetação nativa gera ao regular o calor extremo para a produção de soja usando duas abordagens complementares: receita da soja perdida com a destruição de florestas e outros ecossistemas e a receita da soja obtida com a conservação desses ecossistemas.

Para a análise focada na perda do ecossistema, eles estimaram o aumento da exposição ao calor extremo para a quantidade de vegetação que foi removida. Para a análise de conservação, os autores modelaram o valor de florestas em pé e outros ecossistemas com base na regulação estimada de calor extremo.

Em 2019, a soja constituía 49% da área agrícola brasileira e 41% da receita agrícola. Os dois novos estudos que tiveram a participação da UFV revelam que os agricultores teriam aumentado a produção ainda mais se não tivessem desmatado, o que teria mantido o calor extremo sob controle e mantido as chuvas tão necessárias.

Conforme os autores, a ciência do clima já tem uma compreensão bem estabelecida de como o desmatamento tropical contribui para a mudança climática global por meio da emissão de carbono e da redução da capacidade das florestas do mundo de retirar mais carbono da atmosfera, mas pesquisas como estas mostram como o desmatamento tem impactos climáticos que vão além do carbono, provocando aumento imediato do calor extremo local e diminuindo as chuvas regionais e locais.

Redução no desmatamento

Os autores ressaltam que as propriedades produtoras de soja no Brasil já vêm deixando de desmatar. “O mercado nacional e internacional de soja criou mecanismos para dificultar a comercialização de soja que esteja ligada ao desmatamento. E temos percebido cada vez menos soja sendo plantada em áreas recentemente desmatadas”, observa Gabriel.  Ele explica que a maior parte do desmatamento no Brasil é feita por poucas pessoas interessadas em implementar atividades com pouco retorno econômico para o país, como o garimpo e a pecuária predatória. Por isso, para o pesquisador, “se os produtores já não vêm mais querendo desmatar para plantar soja e o desmatamento prejudica a produtividade, a soja brasileira só tem a ganhar com a conservação da nossa vegetação natural.”

Para Michael Obersteiner, coautor do estudo e diretor do Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade de Oxford. “A boa notícia é que é uma situação em que todos podem ganhar. O setor de soja tem uma oportunidade poderosa de reduzir esse risco, parando o desmatamento. Ao fazer isso, eles beneficiam sua própria indústria – para não falar da grande contribuição para desacelerar a mudança climática global.”

Link para o artigo World Development: https://doi.org/10.1016/j.worlddev.2021.105582

Link para o artigo Nature: https://www.nature.com/articles/s41467-021-22840-7

Autores do artigo

O artigo publicado no periódico World Development é assinado por Rafaela Flach e Avery S. Cohn da Tufts University, nos EUA, Gabriel Abrahão, da Universidade Federal de Viçosa, Benjamim Bryant, Oakland, EUA, Marluce Scarabello e Fernando M. Ramos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Aline C. Soterroni e Hugo Valin, do International Institute for Applied System Analysis, na Austria, Michael Obersteiner, do Environmental Change Institute da University of Oxford.

Da UFV

 

 

 

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