“A hora e a vez do carbono: Vem chumbo grosso aí”

Gil Reis, consultor em agronegócios – Foto: Arquivo pessoal

*Gil Reis

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, confirmou que a União Europeia (UE) criou a taxa de carbono sobre produtos importados para proteger a indústria europeia de concorrentes estrangeiros que não estejam submetidos aos mesmos padrões ambientais. Ao justificar a taxa de carbono, ou “mecanismo de ajuste de carbono na fronteira” (CBAM, na versão em inglês), Leyen informou a um grupo de cinco grandes jornais europeus que “é preciso reduzir as emissões de CO2 no mundo, não apenas na Europa”. A visão da presidente é de que o carbono deve ter um preço em todos os países. “As indústrias europeias vão investir pesadamente na descarbonização. Não seria justo que os produtos importados, baratos, mas com uma pegada carbono elevada, venham a arruinar [nossos] esforços.”

Para a maioria dos ditos “ambientalistas”, a atitude da União Europeia é louvável para ajudar a descarbonização da atmosfera. Será mesmo?

A reportagem sobre a criação da taxa europeia, publicado no jornal Valor Econômico, ainda destaca: “Os exportadores da Rússia, China, Turquia e Ucrânia estão entre os mais vulneráveis a custos adicionais quando a taxa de carbono europeia for implementada, sobretudo nas vendas de alumínio, aço, fertilizantes, segundo estudo da Deloitte. Reino Unido, Suíça e Noruega estão entre os dez países que mais exportam para a UE, mas o impacto é inexistente, em razão de terem preço elevado de carbono. Os EUA poderão ser atingidos de alguma forma. Mas tem também o outro lado: de os americanos e outros mercados aumentarem compras dos europeus, com produtos menos poluidores”.

A medida da UE é a mais descarada demonstração de que as mudanças climáticas estão sendo usadas como políticas comerciais. É preciso reconhecer que se trata de uma providência inteligente (para eles), destinada a salvar os “caixas” dos países-membros fragilizados pelas políticas errôneas adotadas durante a pandemia. Alguns brasileiros festejam o fato de que o Brasil não estar na lista dos 10 países afetados. Ledo engano, tal medida afetará todas as “cadeias alimentares” do planeta, inclusive a nossa, que, pelo “andar da carruagem”, sofrerá um acirramento de campanha ambientalista. Contra a nossa cadeia alimentar todos os argumentos são válidos, por mais “esdrúxulos” que possam parecer.

Vejamos, por exemplo, trechos de texto publicado por Marcia Yamasoe e Fabio Luiz Teixeira Gonçalves, ambos professores associados do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), sob o título “Nem tanto nem tão pouco: o que seria de nós se gás carbônico sumisse de vez”:

“É comum ouvirmos que a emissão de gases de efeito estufa é uma das principais causas das mudanças climáticas. Dentro desse contexto, o excesso de gás carbônico no ar leva a um clima cada vez mais quente e extremo no planeta. Sendo assim, a meta é eliminar o carbono da atmosfera, certo? E como seria se isso acontecesse? Bem, a resposta é um típico caso de emenda que sai muito pior do que o soneto.

A vida na Terra é baseada em carbono. Ele é capaz de estruturar moléculas orgânicas ao se ligar a elementos como oxigênio, nitrogênio e hidrogênio. Além disso, é abundante na Terra e versátil: capaz de se ligar com até quatro átomos distintos, ele pode formar uma enorme variedade de moléculas.

Isso tudo, claro, se ele estiver no lugar certo. Na atmosfera, está na forma de dióxido de carbono (CO2, também conhecido por gás carbônico), agindo como uma esponja da radiação infravermelha irradiada pela superfície da Terra. Como assim? É a energia que o planeta manda para o espaço em resposta à recebida pelo Sol. Os gases que absorvem essa radiação reemitem parte dela para a superfície do planeta e o restante para o espaço. É o chamado efeito estufa, que de forma geral pode ser considerado como um dos principais fenômenos que permitem a vida no planeta.

Sem carbono na atmosfera, a primeira consequência seria um esfriamento considerável do planeta. De cara, não teríamos algo no nível de Marte; afinal, já vimos que o dióxido de carbono não é o único responsável pelo efeito estufa. O problema seria a sequência de eventos que isso provocaria. A queda na temperatura decorrente desse cenário implicaria em mais água congelada na superfície e menos vapor e gotículas na atmosfera —o que já desestabilizaria aqueles 75% de água no efeito estufa. Como cerca de 71% da superfície da Terra é coberta por água em estado líquido, se ela congelasse teríamos outro efeito: o albedo terrestre, que indica o quanto sua superfície é capaz de refletir cada vez menos radiação solar, esfriando cada vez mais. A Terra, portanto, estaria em um caminho sem volta rumo a se tornar uma esfera de gelo”.

Entenderam agora por que afirmei que a atitude da UE é irresponsável e perigosa? Pois é, não existe nenhum estudo científico sobre a quantidade equilibrada de carbono que deveria ser mantida na atmosfera. Os europeus simplesmente, por motivos comerciais, pretendem encorajar a redução drástica de carbono com consequências trágicas para a vida de forma geral. Apenas um lembrete: o carbono é responsável por 19% da massa corporal dos seres humanos. Resumindo, a UE está cometendo um crime contra a humanidade com consequências inimagináveis.

Apesar do que foi dito na matéria sobre o chamado pacote “Fit for 55” e o que alguns pensam, a nossa cadeia alimentar e as nossas exportações serão atingidas fortemente. Por isso, temos que nos acautelar e nos prepararmos para o pior. Vem aí “chumbo grosso”.

*Consultor em Agronegócio

AGROemDIA

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