O agro gaúcho e as “façanhas” do passado

Guilherme das Neves Medeiros, professor de Direito Agrário e vice-presidente da Ubau – Foto: Divulgação

Guilherme das Neves Medeiros* 

No filme “Adeus Lênin”, de 2003, do genial diretor alemão Wolfgang Becker, uma velha senhora residente na Alemanha Oriental cai em coma profundo exatamente no dia da queda do Muro de Berlim, em 1989, e acorda tempos depois, com a fatia oriental da Alemanha em franco processo de reintegração capitalista. Sabendo da tristeza que a nova situação causaria na sua mãe, comunista dos quatro costados, o filho recria para a idosa um ambiente como se a Alemanha Oriental ainda existisse. Dentro de casa, está tudo como antes: as latas em conserva, os noticiários do Partido Comunista gravados em fita cassete – mas, do lado de fora, a realidade é totalmente outra.

O Rio Grande do Sul atualmente é um pouco como a velha comunista desse filme alemão. Não é incomum vermos autoridades do nosso Estado que ainda se referem com orgulho ao nosso torrão gaúcho como “Celeiro do Brasil”. Como se fizéssemos um esforço consciente de negação para reafirmar algo que não existe mais. O Rio Grande do Sul não é mais o celeiro do Brasil. Na verdade, já não é mais nem mesmo a quinta economia do agronegócio brasileiro. Mais dramático que isso: o último levantamento, de 2020, mostra que no ranking das 100 cidades mais prósperas do agronegócio brasileiro somente duas cidades são gaúchas: Vacaria, na 96ª posição, e Muitos Capões, na 98ª.  Há cidades como Sorriso (MT), Gaúcha do Norte e Porto dos Gaúchos e outras tantas colonizadas por gaúchos em todo esse vasto Brasil, mas nossos valorosos rincões – e é preciso dizer isso, infelizmente – não são nem a sombra do que um dia foram.

Por que isso aconteceu? Sem dúvida, não é pela falta de talento, inteligência ou dinamismo do produtor gaúcho, que atravessou o Mampituba e transformou desertos e florestas em cidades prósperas no Cerrado, na Caatinga e até no antes improvável Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), com a força de sua capacidade de trabalho. Não somente no Brasil, mas também no Uruguai e Paraguai produtores gaúchos são indutores de uma transformação profunda na realidade agrária desses países.  Cabe, neste caso, uma outra pergunta: que fatores levaram tantos gaúchos a semearem sua expertise e competência em outras terras?

Obviamente, o peso brutal do Estado no bolso do produtor é uma das respostas. O custo final para os gaúchos que produzem arroz no Paraguai e Uruguai é metade do custo do gaúcho que produz arroz no seu próprio Estado e ainda vê o produto de seus colegas do exterior disputando espaço na gôndola do supermercado por um valor mais competitivo.  Além de fazer muito pouco pela conquista de novos mercados, o Estado onera pesadamente o empreendedor do campo.

Há também – e é doloroso, mas necessário reconhecer – problemas de gestão. Sim, estamos vivenciando uma das estiagens mais severas da história, e foi assim em 2015, em 2007, e o produtor não se convence que precisa tomar medidas perenes para secas cíclicas. Muitos, simplesmente, ainda não se deram conta que o ambiente mudou e que temos de nos prevenir. Investimentos em irrigação são caros e o Estado está completamente ausente da discussão. E para piorar as opções de seguro agrícola permitem recuperar, se tanto, 40% dos prejuízos a cada safra perdida, quando não criam todo tipo de embaraço e burocracia para negar a indenização.

Afora isso, as lideranças do setor, muitas vezes divididas em querelas paroquiais ou eleitorais, não trabalham em unidade.  Reclamam dos benefícios ao Nordeste, e não são capazes de imitar a eficiência da bancada nordestina no Congresso, que atua em bloco, passando por cima das terríveis divergências partidárias da atualidade para aumentar seu quinhão no orçamento da União.

É possível recuperar a liderança perdida? Que o digam os gaúchos que semeiam prosperidade Brasil afora! Mas para isso, é preciso primeiramente reconhecer que o problema existe e agir com unidade, agilidade na mudança da legislação tributária, investindo pesado em irrigação, competitividade e recursos hídricos.  Ou isso, ou ficaremos apenas vivendo das “façanhas” do passado, repetindo para nós mesmos que ainda somos o Celeiro do Brasil… como a velhinha comunista do filme.

*Professor de Direito Agrário e vice-presidente da Comissão de Crédito Rural da União Brasileira de Agraristas Universitários (Ubau)

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