Goiás busca liderança nacional no uso e produção de bioinsumos

Paulo Boffon investe na produção de bioinsumos Foto: Enio Tavares/Seapa/Gov. GO/Divulgação

Primeiro estado brasileiro a ter um programa de incentivo ao uso de bioinsumos na agricultura, Goiás vai ganhar, a partir deste ano, o reforço de 13 biofábricas. O projeto de instalação das unidades é resultado de parceria entre o governo goiano, o Ministério da Agricultura, a Universidade Federal de GO, a Embrapa e outras instituições públicas e do setor rural, como a Faeg, Aprosoja GO e Agopa. Entre os 27 objetivos da iniciativa, o principal é transformar Goiás no maior ecossistema de inovação e disseminação de bioinsumos do Brasil.

“Com tecnologia, ciência, informação e desenvolvimento de bioinsumos, vamos reduzir o custo e melhorar o sistema de produção no estado. É Goiás no caminho para se tornar um dos melhores do mundo na agropecuária sustentável”, afirma o governador Ronaldo Caiado.

Os números já indicam essa tendência. Em GO e no Distrito Federal, 16% da área cultivada de soja, 42% de feijão e 96% de algodão recebem algum tipo de biodefensivo, segundo levantamento da consultoria Spark Inteligência de Mercado. Na safra 2020/2021, o mercado de bioinsumos movimentou R$ 1,7 bilhão em negócios no Brasil, alta de 37% em relação à temporada 2019/2020.

O Programa Estadual de Bioinsumos, criado pela Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) e instituído em maio de 2021, visa a ampliar e fortalecer a adoção de práticas para a evolução do setor agropecuário, com a expansão da produção, desenvolvimento e uso de bioinsumos e sistemas sustentáveis.

Modelo e desafios

O secretário de Agricultura, Tiago Mendonça, avalia que o programa põe Goiás na vanguarda das ações de fortalecimento da agropecuária. “Nossa legislação favorece a produção de baixo impacto ambiental. Com a diminuição do uso de químicos, temos alimentos de melhor qualidade para fornecer não só aos brasileiros, mas ao mundo.”

O coordenador-geral do Programa Nacional de Bioinsumos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Alessandro Fidelis, ressalta que a iniciativa da Secretaria de Agricultura de GO é um exemplo para outros estados. “Minas Gerais está praticamente copiando o modelo de Goiás, o Distrito Federal e outros estados também.”

Entre os desafios da expansão do uso de bioinsumos no país, observa Fidelis, estão o avanço nas questões regulatórias de processos e produtos, para dar mais segurança jurídica aos produtores e às indústrias; o desenvolvimento de modelos para agricultores familiares e pequenos empreendedores rurais; e a maior divulgação dos benefícios desses produtos à agricultura.

Superintendente de Produção Rural Sustentável da Seapa, Donalvam Maia sublinha que, durante muito tempo, a sustentabilidade foi uma pauta exclusivamente ambiental. “Hoje, o mundo inteiro percebe que sustentabilidade é uma pauta ambiental e econômica. Aliadas, essas duas pautas produzem alimentos cada dia mais saudáveis, podendo ter um custo menor e preservar o meio ambiente para as próximas gerações.”

Instalação das biofábricas

Os equipamentos para as biofábricas começarão a ser adquiridos neste primeiro semestre do ano, com recursos do Tesouro Estadual. Nove biofábricas serão instaladas em unidades do Instituto Federal Goiano, no interior do estado; duas na Universidade Estadual de Goiás (UEG), em Anápolis; e mais duas na Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia. A UEG prevê ainda o aporte de recursos em uma linha de pesquisa específica sobre bioinsumos.

Além de investimentos, equipes da Seapa e de outras entidades envolvidas no programa visitarão fábricas e fazendas modelo no estado que já utilizam bioinsumos nos processos de produção.

O programa envolve o governo de GO, por meio da Seapa, Emater, Secretaria da Retomada, Secretaria de Desenvolvimento e Inovação (Sedi), Fundação de Amparo à Pesquisa de Goiás (Fapeg) e Universidade Estadual de Goiás (UEG), e as seguintes instituições: Embrapa, Universidade Federal de Goiás (UFG), Instituto Federal Goiano (IF Goiano), Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg),  Senar Goiás, Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), Mapa, Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), Associação Goiana de Produtores de Algodão (Agopa) e Associação dos Produtores de Soja de Goiás (Aprosoja), entre outras.

Foto: Divulgação/Gov. GO

Exemplo de Rio Verde

Produtor rural em Rio Verde, na região sudoeste de GO, Paulo Roberto Buffon começou a usar bioinsumos em 2005. Após plantios sucessivos de soja e milho, a crescente presença de dois fungos de solo (Rhizoctonia e Fusarium) se transformou em uma dor de cabeça para o empreendedor.

Como os tratamentos químicos não surtiam efeito, ele precisou buscar alternativas. Com o apoio do pesquisador Murillo Lobo, da Embrapa Arroz e Feijão, Buffon experimentou o uso de um terceiro fungo (Trichoderma) para impedir o avanço do Rhizoctonia e do Fusarium. “Os resultados foram impressionantes. Nos anos seguintes ampliamos a utilização para o controle do mofo branco da soja (Sclerotinia), com excelentes respostas”, conta.

Em 2013, Buffon inaugurou uma fábrica de bioinsumos em sua propriedade. O espaço foi equipado com dois conjuntos de tanques, cada um com três reservatórios. Ele reforça que esta é a primeira safra em que trabalha com 100% de produto biológico no sulco.

“Já suprimimos o uso de fungicidas no tratamento de sementes da soja. No milho faremos este mesmo processo. Estamos trabalhando com aplicação em cobertura nestas áreas, e temos uma área de teste de 80 hectares, onde queremos chegar a 100% de uso de produtos biológicos.”

Manejo integrado

O produtor pondera que tentar substituir completamente o controle químico pelo biológico pode acabar em frustração e estigmatizar as tecnologias de bioinsumos. Em vez disso, ele sugere o manejo diferente e integrada:

“A agricultura convencional trouxe desenvolvimento para todas as regiões e manteve o Brasil em posição de destaque como fornecedor mundial de alimentos. Esse modelo adota atributos de produção em massa e desconsidera por completo o contexto local, as circunstâncias da lavoura e a integração da paisagem. O cultivo se torna mais fácil, pois existe um protocolo de aplicações químicas pronto antes mesmo do início da cultura. Mas a ineficiência do sistema pode ser muito elevada e diminuir a rentabilidade do produtor. A lavoura é um sistema vivo e deve ser tratada em suas especificidades.”

De acordo com ele, a utilização frequente de insumos biológicos propicia maior equilíbrio entre os microorganismos presentes no sistema. “Como benefícios para o sistema produtivo, temos a redução do uso de defensivos químicos, presença mais frequente de inimigos naturais, maior proteção do meio ambiente, menor risco aos colaboradores no manuseio dos produtos e a produção de alimentos mais saudáveis.”

Além de empresário rural, Buffon, que é engenheiro agrônomo por formação, ocupa o cargo de diretor do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), entidade que compartilha conhecimento e experiência com outros produtores, instituições e governos.

 

AGROemDIA

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