A guerra, as commodities e os Fiagros

Foto: Sistema Faep/Divulgação

André Ito*

Quando uma guerra é anunciada, há sempre um certo pânico imediatista que impacta fortemente o preço das commodities e outros ativos do mercado financeiro, como ações, títulos e moedas. Parte do movimento está relacionado a fundamentos e outra à dificuldade em prever os problemas na produção dos países envolvidos e sobre como a oferta de outras nações poderá fazer frente à demanda. Este foi o cenário que vivenciamos ao final de fevereiro, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e, por conta da decisão, passou a sofrer fortes sanções internacionais.

No dia 24 de fevereiro, trigo, soja, milho, dentre outras commodities, registraram forte alta na Bolsa de Chicago. Tida como celeiro da Europa, a Ucrânia é uma importante produtora de grãos, especialmente de milho e trigo, sendo que este último representa 25% da demanda global. Como a formação dos preços é questão de oferta e demanda, a retração da primeira provoca uma alta forte nas cotações.

Em uma primeira análise menos apurada, pode-se afirmar que o cenário favorece o agronegócio brasileiro, mas deve-se ponderar outros fatores, dentre eles o fato de que as condições climáticas não são as melhores para que haja um aumento de produção. As secas prejudicaram a produção no Sul do país. Além do mais, o Brasil é um grande importador de fertilizantes da Rússia, principal fornecedor. Para se ter uma ideia, somente no ano passado, o volume somou 9,3 milhões de toneladas. Há, portanto, um novo fator de pressão de custos no médio prazo.

Relatório recente do UDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), publicado antes do conflito Rússia-Ucrânia, já demonstrava o aumento do protagonismo brasileiro no agronegócio internacional, registrando crescimento em todos os produtos que têm participação no mercado externo. O documento demonstra que a soja permanece como carro-chefe. A projeção é de que as exportações brasileiras somem 136 milhões de toneladas no período 2031/32, o que corresponde a 62% do mercado mundial. Em relação ao milho, o volume de vendas externas brasileiras deve passar dos atuais 43 milhões de toneladas, para 65 milhões em 2031, o que corresponde a 26% do comércio mundial.

O Brasil reafirma seu protagonismo como celeiro do mundo em meio às tensões internacionais, o que deve atrair capital estrangeiro e gerar oportunidades aos investidores. Deve-se ponderar, entretanto, que a pressão nos custos das commodities terá impacto direto na inflação, afetando também a taxa de juros. Este cenário é negativo para diversos setores, como varejo e indústria. Já o agronegócio, que tem como repassar a alta dos custos diante da oferta internacional reduzida, tende a sofrer menos e manter uma performance positiva.

Investir neste segmento, que vem demonstrando pujança nos últimos anos é uma forma de proteger o capital em meio à alta dos preços e juros elevados. Os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros) devem crescer bastante nos próximos meses. São ativos isentos de imposto de renda e que oferecem bons retornos no longo prazo.

*Sócio da MAV Capital. Formado em Administração de Empresas pela USP, tem mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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