Valorização do real pode segurar reajustes de preços no mercado interno

Ivanir José Bortot*

A valorização do real diante do dólar, nos últimos dias, deve aumentar o poder de compra dos brasileiros no exterior e ajudar a segurar os reajustes de preços no mercado interno de produtos cujas cotações são formadas no mercado externo.

O câmbio é um dos preços que influi na formação dos custos dos produtos da economia e na relação de troca na economia internacional. A valorização do real é uma ajuda de grande magnitude no momento em que o Banco Central elevou as taxas de juros a 11,75% ao ano, na tentativa de controlar a inflação que vem ganhando força desde 2021. O fato é que em 2020 e 2021 o Banco Central acabou sancionando um movimento de desvalorização do real, mesmo com reservas internacionais da ordem de US$ 370 bilhões. Em muitos momentos chegou mesmo a comprar moeda estrangeira, contribuindo para valorizar ainda mais o dólar.

O efeito desta política foi um aumento de muitos preços da economia, como combustíveis. Na mesma lógica de estímulo ao consumo e ao crescimento do Produto Interno Bruto, o BC reduziu as taxas de juros para 2% ao ano, a mais baixa na história do Brasil, mesmo diante de uma inflação que dava sinais de aumento. O crescimento econômico não ocorreu, o desemprego continuou alto, os preços ficaram fora de controle e os poupadores tiveram rentabilidade negativa, com remuneração abaixo da inflação.

É verdade, no entanto, que no sistema de livre flutuação de câmbio outros fatores têm peso na formação da cotação da moeda: risco fiscal, crise política e fuga de capital taxa de juros. O enfrentamento desta herança inflacionária exigiu hoje uma política monetária restritiva com aumento ainda maior de juros.

Com juros desta magnitude pode haver um fluxo maior de ingresso de dólar no país, com reflexo positivo sobre o câmbio, dependendo do nível de taxas de juros que serão adotadas pelo FED, o Banco Central dos Estados Unidos. Uma recuperação nas perdas do real diante do dólar terá impacto sobre a inflação, uma vez que os produtos importados podem chegar às prateleiras dos supermercados a preços mais baixos, contribuindo para o abastecimento em condições competitivas. Os prejuízos que poderiam causar às exportações seriam remediados, tendo em vista que os itens de maior peso vendido pelo Brasil são as commodities (soja, milho, ferro etc), cujas cotações aumentaram em dólar.

O movimento de ingresso de dólar no Brasil, que em março de 2022 chegou a US$ 21,6 bilhões na Bolsa de Valores, é de curto prazo. Os economistas acreditam que ingresso destes recursos em busca de ganhos com as elevadas taxas de juros devem se intensificar daqui para frente, o que tem levado a alguns estrategistas acreditar que o dólar deve cair abaixo de R$ 4,50.

Quem ingressa com dólar no Brasil terá que trocar por reais para fazer aplicação em bolsa, papeis do Tesouro Nacional ou privado. A operação acaba ajudando, também, no esforço da política monetária do BC de retirar papel moeda de circulação no mercado.

O câmbio é um preço que tem muitas variáveis e define a relação de troca do País com o resto do mundo. Os economistas não gostam de fazer previsões, mesmo assim muitas instituições financeiras recomendavam a seus clientes a compra de papéis em dólar diante da possibilidade de desvalorização ainda maior do real em função das incertezas de ano eleitoral. É uma coisa que pode acontecer. O fluxo de ingresso de recursos estrangeiro pode cair e o real se desvalorizar novamente. Tudo pode acontecer.

Em 1994, quando foi criado o Plano Real, uma medida provisória estabeleceu uma paridade do dólar com o real de US$1,00 para R$ 1,00, uma extravagância que nos colocava no mesmo padrão de uma moeda forte, coisa pouco crível para muitos economistas. Nos primeiros meses, ao contrário do que se imaginava, o dólar passou a ser contado no mercado a U$ 0,84. É verdade que o câmbio não flutuava livremente. O Banco Central tinha adotado um sistema de bandas cambiais, cuja correção era feita pelo diretor da área Externa do Banco Central, Gustavo Franco, em torno de critérios internos da instituição.

Foi uma época de muita importação de bens de capital, de brasileiros que transferiram fortunas ao exterior e intensas viagens de turismo e compras em Miami, coisa que nunca mais veremos com o atual câmbio flutuante.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

 

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