Agro vê Plano Safra como positivo, mas queria mais recursos e juros menores

Foto: Cleverson Beje/AEN/Gov. PR/Divulgação

Embora tenha sido elogiado pela maioria das entidades representativas do agronegócio, o Plano Safra 2022/23 recebeu críticas pontuais. Até mesmo o volume recorde de recursos destinados ao apoio à produção agrícola, num total de R$ 340,88 bilhões, foi considerado insuficiente para a demanda do setor. Já as taxas de juros foram vistas como “salgadas”. No entanto, há quase que um consenso de que o plano é bom, ainda mais na atual conjuntura brasileira e mundial, com as economias tentando se recuperar das consequências da pandemia de covid-19 e da guerra entre a Rússia e a Ucrânia.  

O volume de recursos anunciados para o crédito rural é 36% superior aos R$ 251,2 bilhões da safra 2021/22. O maior incremento virá da oferta de crédito com taxas de juros de mercado, que deve chegar a R$ 145,18 bilhões, alta de 69% em comparação ao ofertado neste ciclo. Com juros controlados (com e sem equalização), serão R$ 195,7 bilhões, 18% a mais do que na safra 2021/22. Para o Pronaf, as taxas de juros serão de 5% ao ano (para produção de alimentos e produtos da sociobiodiversidade) e de 6% ao ano para os demais produtos, ante taxas de 3% e 4,5% ao ano no ciclo 2021/22. Para o Pronamp (linha para médios produtores), os juros ficaram em 8% ao ano – ante taxas de 5,5% e 6,5% ao ano no ciclo prévio. Para os demais produtores e cooperativas, as taxas são de 12% ao ano – ante taxas de 7,5% a 8,5% em 2021/22.

Para o programa ABC, as taxas de juros são de 7% ao ano para ações de recomposição de Reserva Legal e Áreas de Proteção Permanente e de 8,5% para as demais. Na safra atual, as taxas eram de 5,5% e 7% ao ano. Para o PCA, as taxas ficaram em 7% ao ano para projetos com capacidade de até 6 mil toneladas e de 8,5% ao ano para os demais investimentos.

O presidente em exercício da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), José Sismeiro, disse que o Plano Safra 2022/23 “surpreendeu positivamente”. “Tivemos um aumento de recursos. Estamos com as linhas Pronaf e Pronamp com juros condizentes, e ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) e PCA (Programa de Construção e Ampliação de Armazéns) também. Quanto ao seguro, R$ 2 bilhões, se tiver essa disponibilidade e vier na hora certa para o produtor rural, é muito positivo.”

No entanto, assinalou Sismeiro, a taxa de juros para cooperativas e grandes produtores ficou acima do esperado pelo setor. “A única coisa que achamos que veio um pouco salgado é o juro para as cooperativas e demais produtores, esses 12%. Esperávamos 9,5% a 10%, no máximo”, disse. “Sabemos que é um ano difícil, porque estamos vindo dessa pandemia que sangrou muito os cofres do governo. Mas o produtor brasileiro é muito dinâmico, e, apesar de o plano ter surpreendido em recursos, a agricultura do Brasil cresce todo ano e precisa de cada vez mais recursos.”

Sismeiro reforçou que o total de R$ 2 bilhões para subvenção ao prêmio do seguro rural vem em boa hora, após as perdas com a seca nas lavouras de soja do Sul do País em 2021/22. “Seguro fez falta. Se a gente tiver um recurso maior de seguro, mais produtores vão poder fazer. Esses R$ 2 bilhões são um avanço, mas precisam estar disponíveis na hora que o produtor precisar e acreditamos que vão estar”, disse.

Faesp: O ideal seria montante de cerca de R$ 400 bilhões

Já a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) avaliou que os recursos são insuficientes para atender a demanda total de plantio da próxima safra, que é de aproximadamente R$ 740 bilhões.

“Reconhecemos os esforços do governo federal para expandir o volume de recursos, mas o ideal seria um montante mais próximo a R$ 400 bilhões para atender pontualmente os produtores brasileiros no custeio, comercialização e investimentos”, afirmou o presidente Faesp, Fábio de Salles Meirelles.

Outra questão apontada pela Faesp é o volume de recursos com juros controlados, que chegam a R$ 195,7 bilhões (alta de 18%). O gerente do Departamento Econômico da entidade, Cláudio Brisolara, enfatizou que muitos produtores, sem recursos, vão ter que recorrer a um “mix” de financiamentos com taxas controladas e o restante com empréstimos no mercado financeiro.

“Entretanto, as taxas de juros livres cobradas pelos bancos, sobretudo com a alta da Selic, são bem maiores”, lembra o gerente. O problema é que quanto menos recursos com taxas de juros controlados o produtor acessar, mais ele terá que compensar com taxas de juros livres, a um custo muito maior.

Condições adequadas para a conjuntura, diz Abramilho

Na avaliação da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), as condições de oferta de recursos e de taxa de juros do Plano Safra 2022/23 foram adequadas, diante da conjuntura econômica de Selic elevada e desafios orçamentários recorrentes da União.

Em nota, o presidente da entidade, Cesario Ramalho, destacou que “foi um plano dentro do possível para o atual momento”. Ele também pontua que o novo plano “acertadamente prioriza pequenos e médios produtores, já que os grandes têm mais estrutura financeira para busca de recursos em fontes privadas”.

A Abramilho também avaliou como positiva a sinalização de R$ 2 bilhões para a subvenção do prêmio do seguro rural, mas “com a expectativa de que os recursos sejam obtidos e não contingenciados.”

Já era esperava que juros não fossem totalmente atrativo

O presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS), Paulo Pires, sublinhou que o aumento dos juros cobrados aos produtores rurais nas linhas do Plano Safra 2022/23 já era esperado pelo setor, dado o contexto global de juros elevados. “Entendemos o contexto de juros alto no mundo todo e, por isso, o produtor brasileiro já esperava que o custo dos juros do plano não seria totalmente atrativo. Além disso, neste ano, praticamente todas taxas de juros do plano ficaram abaixo da Selic (hoje de 13,25% ao ano), ou seja, são juros negativos, abaixo da taxa real de juros, o que é positivo. Entendemos a situação do governo e o contexto atual, diferentemente de 2021, quando a realidade de juros e custos era muito diferente.”

Segundo Pires, no Plano Safra 2021/22, as taxas de juros aplicadas aos pequenos produtores desagradaram ao setor, pois o cenário era de taxa Selic baixa, ao contrário deste ano, em que os juros cobrados dos pequenos foram bem recebidos pelo setor produtivo. “Hoje os juros para os pequenos e médios estão praticamente 50% abaixo da Selic”, apontou. Contudo, as taxas para investimentos vieram acima do desejado pelo setor. “Principalmente em investimentos, juros não são o que se esperava em relação à realidade de retorno. Se fizermos investimento com esta taxa de juros, o retorno não vem logo. Hoje, não são somente os juros que estão caros, o preço das máquinas, por exemplo, subiu quase 300%.”

De forma geral, Pires achou que o Plano Safra foi positivo, especialmente no aumento de 36% no montante total de recursos disponíveis para R$ 340,88 bilhões. “O aumento de 8% no volume de recursos com taxas controladas e 70% em livres foi positivo também. Sabíamos que o governo teria dificuldade em elevar recursos com taxas controladas, pelo cenário atual de juros”, pontuou. Ele acrescenta, porém, que o aumento não compõe a elevação do custo de produção, de quase 50% nas lavouras gaúchas. “O cenário de custo de produção é desafiador para o produtor, mas entendemos que não é por meio do Plano Safra que vamos corrigir isso”, pontuou.

Na avaliação do presidente da Fecoagro, os três principais destaques do plano foram o aumento dos recursos para o Programa de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), para o Inovagro, focado em inovação tecnológica, e o fortalecimento do financiamento aos pequenos e médios produtores. “São dois pontos que o cooperativismo gaúcho valoriza: premiar os agricultores que adotam práticas sustentáveis e o incentivo à inovação.”

 

AGROemDIA

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