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Pecuária espanhola, a semelhança é coincidência

Gil Reis, consultor em agronegócio – Foto: Divulgação

*Gil Reis

Fico impressionado com a abordagem diferenciada de alguns veículos da grande mídia internacional quando tratam da criação de bovinos em países da Europa e no Brasil. A pecuária brasileira, notadamente a da Amazônia, quase sempre é tratada com absoluto desprezo e desrespeito, como se todos os pecuaristas fossem criminosos, embora não rejeitem um bom bife made in Brazil. Entre uma mordida e outra da carne bem ou mal-passada, alguns jornalistas, articulistas, blogueiros e influencers com espaços em portais, sites, rádios, TVs e mídias sociais não param para pensar como aquela carne chegou ao seu prato. 

Para reforçar os argumentos, transcrevo reportagem assinada pela jornalista Cristina Giner, sob o título “O trabalho dos agricultores e o segredo do requinte da carne asturiana e galega”, publicada no site Euronews em 31 de outubro deste ano:

“As regiões da Galiza e Astúrias, no norte de Espanha, são conhecidas pela sua excelente vitela, reconhecida pelos selos de qualidade IGP. As montanhas verdes representam um dos habitats privilegiados em que o asturiano pasta, em total liberdade. A chuva abundante mantém as pastagens verdes durante todo o ano. As raças nativas ‘Roxa’ e ‘Casina’ são adaptadas ao terreno e temperaturas extremas. As Astúrias são uma região de microclimas e grande riqueza de pastagens. Em poucos quilômetros, podemos ir das pastagens de alta montanha para as pastagens mais salinas à beira do Mar Cantábrico.

Uma paisagem impressionante, onde José Ramón e sua família criam gado, um legado de geração em geração. Ângela é sua primeira filha. ‘Ela será a quarta geração de pecuaristas. Meu avô começou, depois meu pai seguiu, eu… e agora esperamos que ela continue também’, diz o pecuarista José Ramón Viña. Os pecuaristas trabalham em harmonia com o meio ambiente, como é tradição. ‘As vacas passam praticamente o ano inteiro nesses pastos e só entram durante os dois ou três meses de inverno, quando estão comendo forragem. O resto do ano estão aqui pastando livremente’, acrescenta José Ramón Viña.

Pelo menos até cinco meses, os bezerros são alimentados com leite materno. Como alguém que não conhece o gado reconhece uma vaca asturiana? ‘Bem… a vaca asturiana caracteriza-se pela sua cor castanha, o preto à volta dos olhos, o focinho, as orelhas e a ponta da cauda, ​​pretos, e também os chifres, desta cor’, conclui José Ramon Vine. Criado ao ar livre e sem estresse, o gado garante um sabor único e natural, excelente para cozinhar o ‘Cachopo’, o prato típico das Astúrias.

‘É uma carne tenra, suculenta e saborosa, porque o feixe de fibras é muito curto, o que a torna muito macia na hora de comer’, explica Sergio Rama, chef embaixador da organização IGP ‘Ternera Asturiana’. O ‘Cachopo’ é semelhante ao ‘Cordon Bleu’, mas com presunto e queijo locais. ‘Estamos ingerindo uma proteína de alta qualidade. São animais que ficam felizes o dia todo ao ar livre, o que se traduz em felicidade no prato’, completa Sergio Rama. No quadro da reportagem, a equipa da Euronews chega a Lugo, na Galiza, para conhecer melhor a sua cultura pecuária.

A Europa valoriza sua produção bovina, mas critica a do Brasil, visando garantir mercados

Este é o sustento de 8.000 famílias, pecuaristas como Ángel, que herdaram esse gado e sua forma ancestral de manejá-lo. O aleitamento materno é essencial para o bem-estar dos bezerros. ‘A primeira coisa que a gente faz é amamentar os bezerros. Por regulamento eles mamam até os sete meses, mas no meu caso, eles mamam até o que se chama ‘acabado’, ou seja, até os dez meses. Depois, damos-lhes cereais às vacas e bezerros e logo depois vão pastar no prado’, declara Ángel Santos Pereira, pecuarista.

A ‘Rubia Gallega’ é a raça principal. A tradição pecuária evita o despovoamento de áreas rurais como esta. Jovens criadores, como Ángel, garantem o bem-estar do gado. Seu pai está muito animado que ele continua com o gado. Um ofício que exige conhecer a ‘gestão’ tradicional na Galiza. ‘O bom manejo consiste em o gado sair todos os dias para o campo para que fique em um habitat livre. Quanto melhor a grama e mais natural ela for, mais isso se refletirá na carne, na hora de comê-la’, diz Ángel Santos Pereira.

Estas condições colocaram a carne galega entre as mais premiadas internacionalmente. Descobrimos no restaurante do chef Héctor López. Os melhores pedaços de carne chegam à sua cozinha. “Temos diferentes peças de vitela. Destas diferentes peças que temos hoje no restaurante, vamos escolher uma peça de costas, um entrecosto, que é uma parte muito tenra e muito suculenta”, diz o chef Héctor López. Um bife com ervas e dentes de alho, cozinhado na perfeição; bem selado por fora, e feito ao ponto…

‘Você vê que é uma carne muito tenra, muito suculenta, e que tem um sabor excepcional’, explica o chef Héctor López à jornalista Cristina Giner, autora da reportagem. Depois de provar a carne, a repórter considera que está muito boa, e que, com efeito, se pode ‘saborear a natureza’, em cada dentada”.

Caso a jornalista viesse fazer uma matéria sobre a nossa pecuária, provavelmente, a descreveria da mesma forma poética e romântica como o fez com a criação de bovinos na Galiza e Astúrias. Os bovídeos brasileiros também são criados majoritariamente a pasto. A grande diferença é que na Europa tal procedimento é elogiado e louvado, já aqui é tratado como ‘crime ambiental’.

A sensação que fica é que o ‘Bom Deus’, ao criar as terras europeias, sacrificou as florestas e presenteou os europeus com enormes e verdes ‘pastos’ naturais. Quanto ao Brasil, o Criador cometeu a ‘injustiça’ de nos conceder um país ‘verde’ com enormes florestas tropicais e, para completar, o povoou com uma raça cruel de desmatadores.

Desculpem, mas esta é a versão divulgada em todo o planeta pelas ONGs internacionais infiltradas em nossas terras e por países colonialistas, que chegam a ‘babar’ quando olham a Amazônia. Tal versão têm espaços garantidos na mídia internacional, o que leva a crer que por trás das alegadas questões ambientais também há fortes interesses comerciais de europeus. Ou seja, a Europa valoriza sua produção bovina, mas critica a do Brasil, visando garantir mercados.

“Tua tumba humilde por mãos estrangeiras adornada; reverenciada por estranhos e por estranhos pranteada” – Alexander Pope, 1688 a 1744, um dos maiores poetas britânicos do século XVIII.

*Consultor em Agronegócio

 

 

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