Trigo: Deixem o Brasil produzir (I)

Tito Matos: Brasil tem potencial para se tornar autossuficiente na produção de trigo – Fotomontagem: Arquivo AGROemDIA/Julio Albrecht//Embrapa

Tito Matos*

Os índices de produtividade conferidos pela Conab e pela Embrapa – duas instituições confiáveis – mostram que o Brasil apresenta condições favoráveis para se tornar em pouco tempo autossuficiente na produção de trigo. São recordes, a cada safra, o rendimento da triticultura em todas as regiões produtoras, com destaque para as áreas do Cerrado, em lavouras irrigadas, e em outras também. A produtividade média das lavouras está acima de sete mil quilos por hectare. Excelente.

A Bahia é um exemplo. Os plantios se concentram na região extremo oeste do estado, em manejo irrigado com pivô central, realizado em sistema de plantio direto e convencional. Nos últimos anos, foram testadas diversas variedades e as lavouras têm atingido produtividades de até 7.500 kg/ha (125 sc/ha).  Por aí se vê que a nossa Bahia e mais a região do Cerrado têm muito o que contribuir para a autossuficiência brasileira em trigo.

Porém, no caminho da tão sonhada independência desse alimento existe uma pedra, existe uma pedra no meio do caminho. Até hoje não se desvendou o misterioso desinteresse dos agentes públicos em estimular a produção brasileira de trigo. Para eles, monetaristas de carteirinha, o Brasil não apresenta vocação para essa lavoura. Não é preciso ser perspicaz para notar o quanto desdenham tal tema. Os gastos com as importações do cereal não os assustam. Nos últimos 10 anos, essas despesas alcançaram cerca de US$ 15 bilhões. Um horror!

Desde já, apresento-me aqui como um não comunista pelo exemplo que vou trazer ao conhecimento dos leitores do AGROemDIA.  Com dados fornecidos pela área técnica da Embrapa, sou informado que em duas décadas a Rússia se tornou de importador para o maior exportador de trigo no mercado mundial e trabalha para aumentar gradualmente a área de cultivo, com meta de chegar a produção de 100 milhões de toneladas nos próximos anos, “um modelo que pode inspirar o Brasil.”

Embrapa indica 230 cultivares do cereal para as diferentes regiões produtoras

Vai citar isso para os agentes públicos brasileiros. Eles se apressam em dizer que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, embora não seja. Ouço-os argumentar: “As condições edafoclimáticas (clima e solo)”, desculpem o palavrão, “da Rússia são diferentes das brasileiras. Aqui, a nossa agricultura é tropical, nada a ver com agricultura praticada na Cortina de Ferro”. Para rebatê-los, recorro aos conhecimentos enciclopédicos do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues: “Há uma mentira na carta de Pero Vaz de Caminha, qual seja, “nesta terra, em se plantando tudo dá”; “se não aplicar tecnologia não dá”.

E tecnologia é o que não falta. A Embrapa indica 230 cultivares de trigo para as diferentes regiões produtoras no Brasil. Como escolher? O pesquisador da Embrapa Trigo, Pedro Scheeren, recomenda que o produtor avalie as cultivares direto na propriedade, reservando uma área para experimentar algumas opções disponíveis no mercado, já que o desempenho delas pode variar nas diferentes regiões produtoras. “Na escolha da cultivar é preciso observar primeiro suas características agronômicas e a resistência às doenças. Mas devemos considerar sempre onde e como será cultivada a variedade escolhida, desde o ambiente, clima e solo, até a capacidade de investimento na lavoura”.

As altas produtividades de trigo no Cerrado podem levar, em pouco tempo, o Brasil a ser autossuficiente na produção do grão. E isso se deve, em grande parte, ao cultivo em dois sistemas de produção: trigo irrigado e trigo de safrinha na região. A cultivar de trigo irrigado BRS 264, desenvolvida pela Embrapa e que ocupa 70% da área cultivada com trigo na região, bateu novamente o recorde mundial de produtividade diária: 9.630 kg/ha, isto 80,9 kg/ha/dia, ou 160,5 sc/ha, colhidos pelo produtor Paulo Bonato, de Cristalina (GO).

Por que os técnicos não defendem a autossuficiência brasileira no trigo?

Tempos atrás, fomos entrevistar um técnico sobre o trigo, desde a produção, comercialização e consumo.  Eis a entrevista:

Repórter: Por que vocês, técnicos, não defendem a autossufiência brasileira na produção do trigo?

Técnico: Você quer mesmo saber a verdade?

Repórter: Não sou eu não. São os consumidores do pão nosso de cada dia e a sociedade brasileira que querem saber.

Técnico: Porque é melhor o Brasil importar um trigo barato do que produzir um trigo caro. Taí a verdade. E deixa de nacionalismo tupiniquim.

Repórter: Concentrar nossas importações em poucos países não torna o Brasil mais vulnerável a choques de preços dessa commodities?

Técnico: Cara, o comércio hoje em dia é globalizado. Existem vários países produtores de trigo que passariam a nos atender. Deixa de pensar em teoria conspiratória.

*Jornalista, ex-assessor de imprensa do Mapa, da FPA, da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, da Conab e da extinta CFP

**As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a posição do AGROemDIA

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