Brasil

Brasil desperdiça 36,7 milhões de toneladas de grãos em 12 meses

Da redação//AGROemDIA

O país onde indígenas Yanomami morrem de fome é o mesmo que perde milhões de toneladas de grãos anualmente. Em 2020, o Brasil desperdiçou 36,7 milhões de t de grãos (arroz, cevada, milho, soja e trigo), o equivalente a 15% da safra daquele ano, estimada em 244,8 milhões de t. O volume perdido seria suficiente para alimentar 11,2 milhões de pessoas por 12 meses, cerca de 59% das pessoas que enfrentaram a fome no país em 2020, conforme cálculos do governo federal.

Os números constam do estudo “A perda de grãos no Brasil e no mundo: dimensão, representatividade e diagnóstico”, divulgado neste início de ano pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Segundo o levantamento, o desperdício de grãos corresponderia a R$ 84,8 bilhões, com base na cotação do preço pago ao produtor na semana de 21 a 25 de março de 2022.

“O valor perdido projetado permitiria adquirir 134,8 milhões de cestas”, aponta o estudo. Este volume de comida poderia ser comprado levando-se em conta “a cesta de alimentos padrão Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), com cotação para o mês de fevereiro de 2022, de R$ 629,04.”

“A projeção do montante de grãos perdidos no Brasil, em 2020, corresponderia a 139,3 trilhões de kcal (calorias), o que atenderia a demanda energética 152,6 milhões de pessoas, durante 365 dias”, sublinha o estudo.

O levantamento da Conab acrescenta: “Em contraste com o parâmetro da fome no Brasil naquele ano, o montante desperdiçado de grãos suprimiria oito vezes a necessidade energética de toda a parcela da população brasileira que enfrentou essa adversidade.”

O cálculo das perdas de grãos, esclarece a Conab, considera todas as etapas da lavoura à oferta ao consumidor (colheita, armazenagem, transporte e processamento), tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo.

Perdas mundial de grãos

O estudo da Conab mostra que o desperdício global de grãos também é expressivo: “Ao considerar a produção mundial de grãos obtida em 2020 (arroz, cevada, milho, soja e trigo), no total de 3,05 bilhões de toneladas, é possível projetar uma perda de 458,1 milhões de toneladas.”

Ainda de acordo com o levantamento, na cotação dolarizada média de março de 2022, para cada produto e nas devidas proporções perdidas para cada tipo de grão, esse montante de perda representa cerca de US$ 176,1 bilhões, valor superior ao PIB de mais da metade dos países da América Latina e Caribe somados.

Em termos nutricionais, como fonte energética na dieta humana, “a projeção da perda de grãos em 2020 representou 1.660 trilhões de kcal, considerando os devidos quantitativos perdidos para cada tipo de grão e sua composição em energia (kcal)”, informa o estudo.

“Com base na recomendação de ingestão calórica diária de 2.500kcal/dia, por indivíduo adulto e com saúde normal, realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), essa perda possibilitaria suprir a demanda energética de 1,8 bilhões de pessoas, durante 365 dias”, constata o levantamento. Ou seja, mais do que o dobro do número de pessoas que enfrentaram a fome no mundo durante o ano de 2020, 811 milhões, segundo estimativa da ONU.

Conforme o estudo, ao considerar o arroz, a cevada, o milho, a soja e o trigo, que representaram juntos mais de 90% da produção mundial de grãos nos últimos 21 anos, somente 10 países foram responsáveis por 69,7% do que foi produzido. “Desses, quatro responderam por mais de 50% dessa produção, tendo o Brasil ocupado a quarta posição”, atrás dos Estados Unidos, da China e da Índia.

Políticas públicas

Responsáveis pelo levantamento, os técnicos da Conab Paulo Cláudio Machado Júnior e Marília Mergulhão de Freitas recomendam uma melhor análise do problema do desperdício de grãos:

“Quanto mais no Brasil, por sua expressão na produção mundial de grãos em contrapartida às suas dificuldades de logística na armazenagem e transporte, com fins de se buscar um diagnóstico preciso do problema, visando à criação de políticas públicas e adoção de ações que realmente sejam efetivas quanto à minimização e/ou mitigação de tal questão.”

Para Paulo Cláudio e Marília Freitas, a perspectiva de décadas atrás de que a alternativa para enfrentar a demanda mundial por alimentos, devido ao aumento populacional, era incrementar as áreas de produção, associada à elevação na produtividade e no número de safras por ano, não se respaldam hoje como estratégias exclusivas, o que reforça a importância de estabelecer políticas públicas para reduzir as perdas de grãos.

Clique aqui para acessar o estudo.

 

AGROemDIA

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