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A luta dos amazônidas

Gil Reis*

A Amazônia está preparada para contribuir no esforço para alimentar o Brasil e o planeta, o que já faz em pequena escala, mas não como “celeiro global”, mas como “celeiro dos amazônidas”, desde que o mundo pague um preço condizente e a altura do nosso trabaho e sacrifício. As nossas grandes riquezas visíveis são a água, a agricultura, a pecuária, as jazidas minerais e as madeiras nobres e não nobres. Embora a agricultura, a pecuária e as florestas sejam renováveis, nos causa muita estranheza as campanhas promovidas contra a Amazônia. Afinal, a exploração de riquezas renováveis ocorre globalmente, sem qualquer contestação, exceto na Amazônia.

Poucos, que são calados rapidamente, atacam os buracos deixados pelas mineradoras. Não que eu seja contra mineradoras como a Vale, porque tem gerado empregos e benefícios aqui. Temos consciência que, apesar de tudo, as campanhas (já testemunhamos várias) são passageiras. Os governos mudam e nós, amazônidas e a Amazônia, temos resistido bravamente, ao longo dos anos, às mais diversas “pragas” que vêm tentando nos destruir e a nossa produção (ferrugem, fusariose, aftosa, determinados governos brasileiros, governos estrangeiros e outras). A despeito delas, temos sobrevivido paciente e tenazmente. Somos discípulos de Jó.

Como o mundo está faminto, todos os olhos se voltam para o nosso paraíso cultivável. Barack Obama, quando candidato à presidência dos Estados Unidos, declarou enfaticamente que a Amazônia é um recurso global e não apenas brasileiro. Uma declaração aqui, outra ali, nos dão a pista clara dos planos das grandes potências para a Amazônia. Nós amazônidas somos como a “caravana” da célebre frase do famoso e saudoso colunista social Ibrahim Sued: “Enquanto os cães ladram, a caravana passa”.

Viemos para essa região encorajados por governos do passado, para ocupá-la, desbravá-la e substituir áreas de florestas por culturas aproveitáveis, tornando-a economicamente viável e defensável às investidas estrangeiras, integrando-a, efetivamente, ao território brasileiro.

Seringueiros, agricultores, pecuaristas e garimpeiros, de todos os rincões do Brasil, puseram suas sacolinhas nos ombros e, usando todos os meios de transporte possíveis e imagináveis, inclusive “a pé”, deslocaram-se para cá, como os novos “bandeirantes”, para cumprir a missão para qual a pátria os convocou.

Abriram picadas e desmataram áreas, no “muque”, com terçadas e enxadas (para que o leitor perceba a dimensão do esforço, é preciso que saiba um pouco da nossa realidade, entre as mais diversas, existem áreas na região que o homem precisa trabalhar nu em razão da frequência da chuva, umidade e calor e, em outras, precisa trabalhar totalmente vestido, da cabeça aos pés, por causa dos mosquitos).

Como o mundo está faminto, todos os olhos se voltam para o nosso paraíso cultivável”

Foi uma guerra entre a floresta, adversidades e o homem. Muitos desbravadores sucumbiram vítimas de malária, febre amarela, flechadas, pneumonia, tuberculose, acidentes, devorados ou envenenados por animais ferozes e mudanças bruscas de políticas governamentais (nesses casos, os óbitos se deram por males cardíacos provocados por decepção). Foi uma luta sem quartel que está chegando ao final sem vencidos ou vencedores. Apenas cada um cumpriu o seu papel, mas ambos estão sendo derrotados por um contendor que não fez qualquer sacrifício, não lutou e sequer os conhece – determinados governos que, por desconhecerem inteiramente a Amazônia e sua história, resolveram mudar as regras no meio do jogo.

Os desbravadores estão perplexos. Depois de cumprirem a missão patriótica de integrar a Amazônia ao resto do país, tornando-a economicamente viável e protegida de invasões estrangeiras, esperavam não um prêmio, mas o reconhecimento de seus irmãos brasileiros. Em vez disso, recebem somente críticas e o epíteto de bandido. Testemunhei a revolta de um desses desbravadores, em um dos milhares de cemitérios da região, em pé ao lado do túmulo de um querido filho bradando aos céus: “Meu filho, morrestes por nada.”

Os amazônidas, além de todos os méritos, resistiram à possibilidade de transformação, apoiados por um governo que não disse “amém”, da região em um grande “lago Amazônico”, composto por vários lagos interligados, o que uniria o Oceano Atlântico ao Pacífico. A ideia foi concebida por Herman Khan, futurólogo do Instituto Humboldt que não estava sozinho na opinião de que a Amazônia era internacional e não podia pertencer ao Brasil. Com ele, se alinhavam François Miterrand, Al Gore (agora ambientalista e pai do terrorismo emocional usando o aquecimento global), Margareth Tatcher e todas as potências que ontem apoiavam o tal “lago”. Hoje chantageiam e coagem o Brasil com o “aquecimento global”. Mudaram a arma, mas o objetivo continua o mesmo: a internacionalização da Amazônia.

Temos consciência que os produtores rurais das outras regiões têm as suas próprias lutas. Diferentes das nossas, embora tão sofridas quanto as que temos aqui. Sofrem com as incompreensões, fatores climáticos também adversos, geadas, secas, com o desrespeito de determinadas autoridades, falta de reconhecimento da comunidade e políticas governamentais descabidas. Alguns governos não desconhecem somente a Amazônia, desconhecem também a atividade agropecuária. A produção rural só é destacada pelo resultado da “balança comercial”. Porém, a ênfase é sempre para a produção, nunca o produtor.

Lutamos pela Amazônia brasileira por patriotismo. Amamos ser brasileiros e jamais trocaríamos, voluntariamente, a nossa nacionalidade por outra qualquer. Contudo, caso venha a ser internacionalizada, assumida por outro país ou grupo de países, seja quem for, vai precisar de nós, porque somente nós conhecemos as realidades da região e somos a única mão de- obra especializada nela. A ideia de internacionalização da Amazônia não é por causa do aquecimento global ou para preservar a sua biodiversidade, mas porque, em futuro bem próximo, o poder mundial migrará dos atuais detentores (eles mesmos) para os países que possuam bastante terras para produzir alimentos e tenham água em abundância.

“A gratidão é um fruto de grande cultura; não se encontra entre gente vulgar” — Samuel Johnson (1709 – 1784), escritor e pensador inglês conhecido por suas notáveis contribuições à língua inglesa como poeta, ensaísta, moralista, biógrafo, crítico literário e lexicógrafo.

*Consultor em Agronegócio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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