Os peixes e a eletricidade

Gil Reis*
O leitor deve estar perguntando qual a relação entre os peixes e a eletricidade. No passado, houve muita. Os cidadãos urbanos conhecem os peixes apenas das gôndolas dos supermercados, onde compram filés para aquela refeição especial. Já para os cidadãos que habitam os pequenos núcleos urbanos, à beira mar ou às margens dos rios, lagos, igarapés e assemelhados, os peixes são a principal fonte de alimentação e de renda. Sabem distingui-los pelas cores, barbatanas, formato e paladar. Os peixes, dependendo da forma de preparo, cozidos, fritos, assados, são uma refeição de paladar inigualável.
Os peixes tiveram uma contribuição importante na cultura humana e nas ciências, notadamente na ciência médica, como demonstra Alberto Romero Blanco, pesquisador de pré-doutorado de invasões biológicas e ecotoxicologia do Programa de Ecologia, Biodiversidade e Mudanças Globais da Universidade de Alcalá, na Espanha, no artigo “A curiosa maneira como gregos e romanos usavam eletricidade para aliviar dores sem saber gerá-la”, publicado no dia 28 de maio deste ano pelo site da BBC News Brasil. Transcrevo trechos:
“A eletroterapia é um conjunto de técnicas médicas e fisioterapêuticas que usa a eletricidade para tratar uma série de lesões e doenças. Entre suas aplicações, estão a reabilitação muscular, o tratamento de dores crônicas, da depressão e de certas lesões cerebrais. O ser humano compreende a natureza da eletricidade e aprendeu a manipulá-la há pouco tempo, de forma que a eletroterapia é considerada um avanço científico do mundo moderno. Mas os antigos gregos e romanos tiveram experiências com a eletricidade e chegaram a propô-la como solução para males e enfermidades.
Será que eles tinham dispositivos para gerar e manipular a eletricidade? Não, mas eles dispunham de fontes naturais e acessíveis de eletricidade: os peixes elétricos do Egito, da Grécia e de Roma. A capacidade que algumas espécies de peixes têm de gerar eletricidade é chamada bioeletrogênese. Esses animais utilizam a eletricidade com diversos propósitos, como a comunicação, a caça, a defesa, a navegação e a caracterização do seu entorno. Algumas espécies eletrógenas vivem em lugares onde se desenvolveram civilizações importantes, como as arraias-elétricas que habitam o Mar Mediterrâneo (da ordem Torpediniformes) ou os peixes-gatos-elétricos da África (da família Malapteruridae).
Sabemos que os egípcios, os gregos e os romanos estavam familiarizados com os peixes elétricos, que aparecem representados em baixos-relevos de monumentos egípcios, na cerâmica grega e em mosaicos romanos. Atordoam como uma conversa com Sócrates, segundo Platão. O contato com esses peixes costuma causar dormência no membro usado para tocá-lo. Talvez por esta razão, o tratado de Hipócrates sobre a Dieta nas Doenças Agudas menciona uma espécie indeterminada de peixe, muito provavelmente um peixe eletrógeno, com a terminação narke, que é a raiz da palavra narcose.
Esta é considerada a primeira referência escrita sobre estes animais. Mas, apesar da menção à extraordinária característica dos peixes narke, o Corpus Hippocraticum não inclui nenhum tratamento médico baseado na aplicação da sua eletricidade. Platão (427-347 a.C.) também comentou as consequências de tocar esses animais em seu diálogo Mênon, comparando a sensação resultante com o atordoamento mental derivado das conversas com Sócrates. Platão comparou a sensação de tocar uma arraia-elétrica com o atordoamento mental resultante das conversas com Sócrates
Já Aristóteles (384-322 a.C.) destacou a astúcia das arraias-elétricas na hora de espreitar e caçar seus alimentos. Como ele relatou em Da História dos Animais, estes peixes se escondem no fundo do mar e paralisam as presas que se aproximam. Seu discípulo Teofrasto (371-287 a.C.) alertou que as descargas das arraias-elétricas também podem ser transmitidas à distância por algum meio, como a água ou equipamentos de pesca metálicos. Ele elaborou uma das primeiras descrições sobre os materiais condutores de eletricidade.
Muitos outros autores clássicos falaram em termos similares sobre os poderes extraordinários desses peixes, como Cícero (106-43 a.C.) e o poeta Opiano de Anazarbo, que descreveu acertadamente, no século 2 d.C., os órgãos do corpo das arraias-elétricas que geram a eletricidade. Em História Natural, Plínio, o Velho (23-79 d.C.), compilou terapias baseadas na ingestão ou na aplicação tópica de determinadas partes dos peixes eletrógenos para diferentes finalidades, como a estimulação do parto ou a inibição do impulso amoroso.
Mas, apesar de todo esse conhecimento, ninguém propôs aplicações médicas baseadas na eletricidade desses animais até o ano 46 d.C. O médico Escribônio Largo trabalhou a serviço da corte do imperador romano Cláudio. Ele foi o primeiro a propor, no ano 46, o uso de choques de arraias-elétricas para reduzir dores crônicas de difícil tratamento. Apenas uma de suas obras chegou até nós — uma farmacopeia intitulada De compositione medicamentorum liber. Trata-se do primeiro texto conhecido que fala sobre a eletroterapia.
A obra inclui o relato de Antero, escravizado liberto do imperador Tibério. Ele sofria de gota e tinha fortes dores em uma das pernas. Durante um passeio na praia, Antero pisou acidentalmente em uma arraia-elétrica, que deixou sua perna dormente e eliminou a dor. É possível que esta experiência tenha inspirado Escribônio a recomendar tratar a gota colocando uma arraia-elétrica viva em contato com o membro afetado, até que a dor diminuísse graças ao entorpecimento. Ele sugeriu aliviar as dores de cabeça de forma similar — mas, neste caso, era preciso colocar as arraias-elétricas sobre a cabeça dos pacientes.”
Além de tudo que nos esclarece o artigo, o peixe faz parte da dieta equilibrada que, hoje, contribui para a alimentação saudável que nos dá, a cada dia, maior longevidade. Creio que todos nós, após ler este artigo, ao degustarmos uma deliciosa “caldeirada’, um churrasco, um escabeche ou outras receitas, teremos conhecimento maior sobre o alimento que estamos ingerindo.
“Aprendeu a preparar alimentos cultivados ou tirados da terra, fosse na cozinha da mãe, fosse sobre uma fogueira. Aprendeu que comida era mais do que ovos frescos que pegava no galinheiro ou uma truta bem grelhada. Comida significava sobrevivência” – Nora Roberts, “De sangue e ossos” (Trilogia Crônicas da escolhida).
*Consultor em Agronegócio

