O agro e a humanidade

 Gil Reis*

Uma pergunta que me faço recorrentemente: Haveria humanidade sem os produtos do agro? Claro que haveria, naturalmente, com crescimento limitado, sem a população que existe hoje, sem o progresso, sem o desenvolvimento da ciência e a atual tecnologia. Para os seres humanos a alimentação é uma necessidade básica. Tão básica que nascemos com o que os cientistas denominam de ‘reflexos extrapiramidais’, aqueles atos que não necessitam de aprendizagem e já nascemos sabendo. Entre eles, o ato de ‘mamar’, que nada mais é que a necessidade de nos alimentarmos.

No seu surgimento, os seres humanos eram uma raça nômade que para suprir a necessidade de alimentação sobreviviam basicamente da caça e da coleta vegetal e de grãos. Os homens eram os caçadores e as mulheres as coletoras. As duas atividades de dependiam da flora e da fauna nas áreas que provisoriamente ocupavam. As comunidades eram simples locais onde se reuniam para dormir e se alimentar. Uma das grandes conquistas da humanidade foi o domínio do fogo e o seu uso – no início, empregado apenas para a proteção contra o frio.

As atividades iniciais, que eram, majoritariamente, desenvolvidas para a sobrevivência através da alimentação, não fixavam os seres humanos ao solo. As áreas de ocupação somente eram interessantes enquanto não devastassem e extinguissem toda a fauna e a flora necessárias para alimentação. A partir da extinção dos recursos para a alimentação, os humanos buscavam territórios mais ricos em biodiversidade.

Com o domínio e uso do fogo para proteção das inclemências do tempo, aos poucos a sua utilização se ampliou para o cozimento dos alimentos, a fabricação de armas e outros instrumentos úteis. Neste processo, decorreram eras, ou seja, séculos, entre o domínio do fogo e o desenvolvimento de sua utilidade. Começava assim a jornada humana com mais capacidade de sobrevivência na face do planeta.

Eis que há aproximadamente 12 mil anos surge a agropecuária. A princípio, a prática da agricultura durante o período neolítico, sendo um dos processos constitutivos das primeiras civilizações. Nesse contexto, ela foi desenvolvida de forma gradual, sendo a plantação de cereais e tubérculos as primeiras formas de cultivo. Os seres humanos aprenderam a cultivar alimentos reduzindo drasticamente a necessidade da coleta da flora, ao mesmo tempo que começaram a criar animais cuja carne supria as necessidades de proteínas e reduzia a caça silvestre.

Assim começa a ‘saga’ humana na face do planeta, substituindo a devastação e extinção da fauna e da flora à sua volta nos territórios ocupados por uma produção própria de alimentos. O novo comportamento, além de preservar a biodiversidade, poupava a vida dos seres humanos. Ninguém imagina que a humanidade surgiu com conhecimento prévio sobre quais plantas e grãos eram adequados para a alimentação. Neste processo de conhecimento, milhares de vida foram perdidas por ingestão de alimentos nocivos à saúde.

Quanto aos animais silvestres caçados, toda vez que os humanos saiam para caçar, com armas rudimentares e pouco eficazes, ninguém sabia se voltariam com vida. Havia predadores de grande porte e ferozes igualmente buscando alimentação. O desenvolvimento da agropecuária preservou e manteve a biodiversidade, inclusive poupando vidas humanas que faziam e fazem parte da ‘fauna’ do nosso planetinha. Por isso, é preciso que todos entendam o significado do termo tão propalado pelos ambientalista – ‘diversidade biológica’. Será que alguém duvida que nela não estejamos inseridos?

Outra indagação que a nossa arrogância evita é: A humanidade surgiu no topo da cadeia alimentar? A resposta é de uma simplicidade espantosa: “Não”. Voltemos ao início da agropecuária que nos tornou gregários. Com o cultivo, aqueles meros pequenos acampamentos nômades se tornaram- comunidades fixas próximas às áreas de produção de alimentos. Surgiam assim os primeiros núcleos urbanos protegidos dos predadores. A atividade de caça estava restrita a tais predadores, que ameaçavam seus pequenos núcleos urbanos e às vidas humanas. Com o fim do nomadismo, as famílias puderam se desenvolver mais facilmente, sem medo de predadores e mais protegidas da inclemência climática. Essa é também a gênese do conceito de ‘unidade familiar’.

Durante milhares de anos a humanidade viveu em função da produção de alimentos, o que ocorre até hoje. Também os artefatos que produzíamos eram destinados à caça e posteriormente ao cultivo. Começamos utilizando ossos, depois madeira e finalmente os minérios, com o uso do fogo já dominado. Primeiro foram as armas, para a proteção contra os animais. Depois, para enfrentar invasões de seres humanos de outras comunidades, cujas culturas foram devastadas pelo clima ou pragas.

Estava começando a caminhada da humanidade em direção ao topo da cadeia alimentar. No início, devem ter se defrontado com imensas dificuldades, mas, foram exatamente tais dificuldades e suas próprias deficiências que estimularam a imaginação e a capacidade de invenção da espécie humana.

Creio, inclusive, que o desenvolvimento da inteligência, raciocínio e imaginação humana se deveu às formas de produção de alimentos, à necessidade de defesa das suas vidas e seus territórios. Raciocinemos: para a caça e coleta não havia a necessidade de grande inteligência ou raciocínio; isto somente surgiu com o início da agropecuária e as formas de aprimorá-la.

Enfim, foram milhares de anos para que chegássemos ao que vivemos hoje.  Graças à agropecuária, todos temos os alimentos que precisamos para sobreviver. A evolução que nos trouxe até hoje se deveu principalmente ao enorme salto dado com a saída do nomadismo para a fixação dos seres humanos em áreas habitáveis. E nela a primeira atividade foi a agropecuária, responsável por produzir a alimentação que garante nossa existência na terra.

*Consultor em Agronegócio

 

 

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: