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Soluções pagãs para a pecuária

Gil Reis*

A história universal é rica em fatos que a maioria das pessoas não tem conhecimento. Por isso mesmo, insiste em repeti-los. Este erro é muito comum e tudo fica bem pior quando alguns fatos servem apenas para denegrir a história dos seres humanos com crenças reais de divindades criadas a época e seus cultos terríveis e tresloucados. Algumas dessas crenças exigiam a morte de animais para aplacar os humores de certas divindades. Houve até crenças de que as divindades precisavam de sacrifícios humanos para aplacá-las. Neste artigo abordaremos o sacrifício dos bovinos.

O site SPIKED publicou em 17 de agosto deste ano o artigo “O retorno do sacrifício de animais”, assinado por Brendan O’Neill, principal redator político da publicação e apresentador do podcast Spike, The Brendan O’Neill Show. Segue a transcrição de trechos do texto:

“Olhamos para trás com perplexidade, para o sacrifício ritual de animais realizado pelos nossos antepassados. Quer tenha sido o sacrifício de gado do povo celta para apaziguar divindades irritadas ou o abate de bois pelos antigos romanos para que Júpiter pudesse ser mais parcimonioso com seu tempo tempestuoso, tudo era um pouco louco. Nunca seríamos tão supersticiosos, dizemos a nós mesmos. Não tenho certeza se isso é verdade. Consideremos a proposta de abate de centenas de milhares de bovinos na Europa em nome do sagrado Net Zero. Este é certamente o retorno da loucura pagã.

Os agricultores irlandeses estão sob pressão para ‘abater até 200.000 vacas’ para que a Irlanda possa cumprir os seus ‘objetivos climáticos’, noticiou o Financial Times no fim de semana. O governo irlandês está a considerar propostas para eliminar essa quantidade de gado nos próximos três anos, a fim de o ajudar a alcançar uma redução de 25% nas suas emissões agrícolas. As vacas produzem metano, e o metano é ruim. É um gás de efeito estufa. A agricultura é responsável por 40% das emissões de gases com efeito de estufa da Irlanda, pelo que se tornou um alvo natural para os fanáticos do Net Zero. Todos os estados-membros da UE estão sob pressão para fazer progressos em direção ao Net Zero, e se isso implicar o sacrifício de gado, que assim seja. Salve o planeta, abata as vacas.

É tão supersticioso. Um ‘massacre de vacas’ para tentar compensar as condições climáticas violentas aparentemente causadas pelo homem? Se alguém puder explicar como isso é diferente da matança ritualística de um pobre touro, feita por um povo antigo, em uma tentativa desesperada de aplacar os deuses do clima, eu ficaria muito grato. Na verdade, o proposto abate de vacas na Irlanda é pior do que as artimanhas pagãs dos nossos antepassados ​​mal-educados.

E eles parecem pouco se importar com as consequências da sua compensação pagã de carbono. Os agricultores irlandeses estão seriamente preocupados com os seus meios de subsistência. A indústria dos lacticínios representa 13 mil milhões de euros por ano para a economia irlandesa. Fornece 54.000 empregos. Trouxe uns espantosos 6,8 mil milhões de euros em exportações só em 2022. O que será de todo este trabalho frutífero se o abate de vacas em nome do Net Zero decolar? Somos retratados como ‘assassinos do clima’, queixa-se um agricultor irlandês.

A outra consequência provável do ‘debatido massacre das vacas’ na Irlanda seria o aumento das emissões globais. Os brilhantes produtores de leite da Irlanda abastecem 130 mercados em todo o mundo. Onde é que essas nações obterão o leite, a manteiga e o queijo de que necessitam, senão na República da Irlanda? Provavelmente provenientes de países ‘com piores credenciais verdes do que a Irlanda’, dizem os agricultores irlandeses. Eles estão certos. Quarenta e três por cento da carne bovina da Irlanda vai para o Reino Unido. Lembre-se disso da próxima vez que você comer um hambúrguer delicioso e úmido: provavelmente foi feito por um daqueles ‘assassinos do clima’ do outro lado do Mar da Irlanda. Onde conseguirão os britânicos a sua carne se o frenesi de matança de vacas da elite irlandesa realmente ficar fora de controle? Nova Zelândia? As milhas aéreas envolvidas em um relacionamento tão substancial e de longa distância fariam com que as vacas peidantes de nosso país vizinho parecessem perfeitamente ecológicas em comparação.

Portanto, este é o duplo impacto do neopaganismo do Net Zero, do pavor irracional atual do clima que vem vestido com a roupagem da revelação científica: minamos a produção doméstica enquanto aumentamos potencialmente as emissões globais. É perder-perder. E não foi só na Irlanda que a histeria anti-agrícola se instalou. Os agricultores holandeses protestam há quatro anos contra a determinação do seu governo de reduzir as emissões de azoto para metade até 2030, o que poderá levar ao encerramento de 3.000 explorações agrícolas. Isto é, para menos vacas e menos empregos. Esta semana, os agricultores australianos juntaram-se à crescente revolta dos trabalhadores contra a ideologia Net Zero. Eles dirigiram seus tratores pelo parlamento em Victoria para protestar contra uma nova política de ‘renováveis’ que eles acreditam que irão invadir as suas terras e limitar a sua capacidade de cultivar.

Certamente nada resume melhor o irracionalismo das eco-elites do século XXI do que a sua atitude arrogante em relação aos direitos e à felicidade das pessoas que produzem os nossos alimentos. O sacrifício ritual para apaziguar os céus está mais uma vez na moda entre os governantes da Terra. Desta vez, sacrifício não só de animais, mas também de meios de subsistência e até de liberdade. A produção leiteira, a produção de alimentos, a utilização de pesticidas, os voos baratos, o nosso direito de conduzir – todos estão a ser oferecidos no altar apologético do Net Zero. ‘Perdoe-nos a nossa arrogância’, gritam as elites enquanto sacrificam, uma a uma, as coisas que tornam a vida boa e saborosa. É hora de uma reação racional, certamente, contra este paganismo moderno”.

As crenças não possuem nenhum respaldo científico, basta que as pessoas acreditem e para isso uma boa campanha através da mídia bem remunerada, com argumentos científicos fabricados nos tais laboratórios climáticos, contestados pela maioria dos cientistas sérios. O que o artigo não diz é que o sagrado net zero exige não apenas sacrifícios de animais de produção, exige também o sacrifício de vidas humanas através da fome, quando cria normas que sabotam a produção de alimentos em todo o planeta.

“O ambientalismo é uma ideologia de elite, e o medo da mudança climática é uma preocupação apenas das camadas mais altas da sociedade. O resto de nós acha isso implausível, um tanto ridículo e manifestamente egoísta” – Ben Pile, jornalista

*Consultor em Agronegócio

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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