Da pedra ao pão
*Gil Reis
O agro brasileiro se especializou em promover revoluções. Não aquelas revoluções com derramamento de sangue, mas as que alimentam o povo brasileiro, promovendo a manutenção da vida. No Brasil, surgem novos heróis todos os dias e é preciso que todos reconheçam que tais figuras heroicas somente existem graças ao agro que os alimenta. O agro alimenta a todos independentemente de nacionalidade, raça, cor, situação econômica, gênero, ideologia, partido, time, religião.
Evaristo Miranda, professor, ecólogo, engenheiro agrícola, escritor e pesquisador da Embrapa, publicou recentemente o artigo “O milagre de transformar pedra em pão”. Reproduzo trechos:
“A agricultura brasileira sempre surpreende. Agora, com o uso de rochas moídas na adubação das lavouras. A tecnologia é chamada de rochagem ou remineralização dos solos. Ela é uma alternativa complementar às adubações químicas e sintéticas, cada vez mais caras. E traz novos caminhos para o agricultor aumentar sua eficiência produtiva. A rochagem beneficia a vida microbiana dos solos, a saúde das plantas, o crescimento e a profundidade das raízes e a aeração da terra. E pode substituir parte dos fertilizantes.
Mais de 80% dos adubos são importados (95% no caso do potássio) e cotados em dólar. Pesam nos gastos do produtor. Geram dependência crescente do exterior. A rochagem pode ser uma boa saída para reduzir custos. Há 20 anos, ela está em evolução e expansão no Centro-Oeste, sobretudo em grandes lavouras, e no Sul e Sudeste, com pequenos e médios agricultores.
A adubação natural com farinha de rocha não se faz moendo-se uma rocha qualquer para aplicar nos solos. Existe a rocha certa para cada tipo de solo e cultivo. As basálticas são as mais utilizadas, combinadas a outras rochas. Há grande variedade de rochas no Brasil. Elas trazem aos solos uma diversidade de nutrientes químicos significativos, cerca de 20 elementos diferentes: cobre, potássio, fósforo, manganês, zinco, cobalto… e silicatos e silício.
A agricultura brasileira é líder mundial de controle biológico, no uso de plantas de cobertura (adubos verdes) e outros resíduos para ampliar a matéria orgânica e a proteção aos solos, assim como na fixação de nitrogênio do ar nas raízes por bactérias para benefício das plantas. Essas tecnologias produzem sinergias entre a fração mineral e a orgânica dos solos, sobretudo no sistema do plantio direto na palha, sem aração. Na produção de grãos, a maioria dos agricultores não ara mais a terra, com economia de tempo, redução no uso de diesel e das emissões de CO2 e melhor conservação dos solos e da água. Muita aração e exposição do solo às intempéries reduz a microbiota e a eficiência do pó de rocha. Para os produtores: remineralização vai bem em terra pouco mexida.
A rochagem tem história e é bem antiga. No século XIX, o pó de rocha já era utilizado em lavouras na Europa. O primeiro livro sobre rochagem foi “Pães de Pedra” (Brot aus Steinen), escrito pelo agricultor, químico e médico alemão Julius Hensel, em 1870: … ‘Embora este verão tenha sido particularmente seco, toda a cevada inspecionada se diferenciou das outras cultivadas sem farinha de pedra por sua aparência verde escura. As espigas comparadas com outras continham mais fileiras de grãos. Em muitas delas contamos até 40 grãos perfeitos e bem desenvolvidos. O mesmo aconteceu com o centeio. Os cultivos de batatinhas brilhavam mais frondosos…’
Inicialmente quase tratada como algo ilegal, a rochagem teve normalização efetiva. A lei n° 12.890 de 2013, inseriu os remineralizadores como insumos passíveis de uso na agricultura. Eles estão regulados desde 2016, incluídos nas categorias de insumos agrícolas, pela Instrução Normativa IN 5 do Ministério da Agricultura. Essa instrução regulamentou produção, registro e comércio do pó de rocha na agricultura. O pó de rocha é legal.
O pó de rocha é utilizado em lavouras de cana-de-açúcar, milho, soja, feijão, algodão, além da fruticultura e horticultura, principalmente nos estados de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O pó de rocha também é utilizado na produção de mudas e como substrato no cultivo de eucaliptos.
Transformar pedra em pão? Para a tradição, Jesus realizou um milagre litológico muito maior: transformou Simão, um pescador irascível, em pedra, em Pedro, em rocha, em Cefas (Jo 1,40-42). Depois transmutou essa Pedra em Papa, e não em pão: Tu és Pedro, e sobre essa pedra eu edificarei minha igreja (Mt 16,18). Tarefa muito mais difícil a de transformar Pedro em Papa, comparada à da pedra em pão.
Todos os dias no Brasil, pedras são transformadas em pão. A agropecuária brasileira não para de surpreender, com inovações, para benefício de toda população. Hoje, como no passado, no santuário do mundo rural, o milagre da transmutação de pedras em pães é realizado pelos agricultores, graças à tecnologia da rochagem, às pesquisas científicas e às empresas de mineração.
Se uso do pó de rocha é um processo em aperfeiçoamento, no agro brasileiro muita pedra já virou pão. Pesquisadores pesquisam. Agricultores usam, rejeitam e/ou validam. A farinha de rocha, unida à vida do solo e ao suor do produtor rural, pelo milagre solar da fotossíntese, se transforma em farinha de trigo, mandioca, milho e outros alimentos na mesa dos consumidores. Assim avança a agropecuária brasileira. Sem bolsas ou políticas afirmativas. Seja quem for o governo, o ministro da agricultura ou os censores da Nação. Com chuva ou menos chuva. É pau. É pedra. É o começo do caminho.”
Recentemente, o agro brasileiro atravessou um período de grande insegurança pela possibilidade de perder as fontes de abastecimento de insumos agrícolas e fertilizantes, o que não ocorreu. A transformação de pedra em pão não é nova. Entretanto, o grande mérito do agro brasileiro foi o de ter acreditado e implementado o que resultou em sucesso reduzindo de dependência.
“Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” –Antoine-Laurent de Lavoisier, químico francês, considerado na literatura popular como o “pai da química moderna”.
*Consultor em Agronegócio
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

