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Rivalidade dos EUA e da China em biotecnologia

 Gil Reis*

 Para podermos conversar melhor sobre o assunto o ideal é definir a biotecnologia e suas aplicações. Afinal, ninguém é obrigado a conhecer o assunto. A biotecnologia é um ramo da ciência que aplica os conceitos da moderna engenharia genética na geração de novos produtos na agricultura, nos processos industriais e na medicina. Sua principal área de atuação envolve a aplicação de técnicas e princípios da biologia molecular, genética, microbiologia e outras ciências afins para desenvolver soluções inovadoras em diversas áreas, como medicina, agricultura, meio ambiente e indústria.

Prosseguindo a disputa pela liderança na geopolítica surge uma ‘rinha’. A Associated Press publicou, em 19 de fevereiro de 2024, o artigo “A rivalidade dos EUA com a China se expande para a biotecnologia”, assinado pela jornalista Didi Tang. Transcrevo trechos:

“Legisladores dos Estados Unidos estão levantando alarmes sobre o que veem como o fracasso dos EUA em competir com a China em biotecnologia, alertando para os riscos à segurança nacional e aos interesses comerciais dos EUA. Mas, à medida que a rivalidade dos dois países se expande para a indústria de biotecnologia, alguns dizem que fechar empresas chinesas só prejudicaria os EUA.

A biotecnologia promete revolucionar a vida cotidiana, com cientistas e pesquisadores usando-a para fazer rápidos avanços no tratamento médico, engenharia genética na agricultura e novos biomateriais. Por causa de seu potencial, chamou a atenção dos governos chinês e americano. Projetos de lei foram apresentados na Câmara e no Senado para impedir que ‘empresas de biotecnologia estrangeiras adversárias de preocupação’ façam negócios com provedores médicos financiados pelo governo federal. Os projetos de lei citam quatro empresas chinesas.

A embaixada chinesa disse que os responsáveis pelos projetos de lei têm um ‘viés ideológico’ e buscam suprimir empresas chinesas ‘sob falsos pretextos’. Exigiu que as empresas chinesas recebessem ‘tratamento aberto, justo e não discriminatório’. O debate sobre biotecnologia ocorre enquanto o governo Biden tenta estabilizar a volátil relação EUA-China, que tem sido atingida por uma série de questões, incluindo uma guerra comercial, a pandemia de COVID-19, segurança cibernética e militarização no Mar do Sul da China.

‘Na biotecnologia, não se pode manter a competitividade murando os outros’, disse Abigail Coplin, professora assistente do Vassar College, especializada na indústria de biotecnologia da China. Ela disse estar preocupada que os formuladores de políticas dos EUA fiquem obcecados demais com as aplicações militares da tecnologia ao custo de dificultar os esforços para curar doenças e alimentar a população mundial.

Em uma carta aos senadores que patrocinam o projeto, Rachel King, diretora executiva da associação comercial Biotechnology Innovation Organization, disse que a legislação ‘causaria danos incalculáveis à cadeia de suprimentos de desenvolvimento de medicamentos tanto para tratamentos atualmente aprovados e no mercado, quanto para pipelines de desenvolvimento há décadas’. A Comissão de Segurança Nacional sobre Biotecnologia Emergente, um grupo criado pelo Senado dos EUA para revisar o setor, disse que o projeto de lei ajudaria a proteger os dados do governo federal e dos cidadãos americanos e desencorajaria a concorrência desleal de empresas chinesas.

A comissão alertou que o avanço da biotecnologia pode resultar não apenas em benefícios econômicos, mas também em rápidas mudanças nas capacidades e táticas militares. Muito está em jogo, disse o deputado Mike Gallagher, presidente do Comitê Seleto da Câmara sobre o Partido Comunista Chinês. Gallagher, um republicano de Wisconsin, apresentou a versão da Câmara do projeto de lei e, na semana passada, liderou uma delegação do Congresso a Boston para se reunir com executivos de biotecnologia.

‘Não é apenas uma batalha da cadeia de suprimentos ou uma batalha de segurança nacional ou uma batalha de segurança econômica; Eu diria que é uma batalha moral e ética’, disse Gallagher. ‘Assim como o setor avança em um ritmo realmente astronômico, o país que vencer a corrida definirá os padrões éticos em torno de como essas tecnologias são usadas.’

O governo Biden apresentou uma ‘abordagem de todo o governo’ para promover a biotecnologia e a biofabricação que é importante para a saúde, mudanças climáticas, energia, segurança alimentar, agricultura e resiliência da cadeia de suprimentos. Um objetivo declarado é manter a liderança tecnológica e a competitividade econômica dos EUA. O governo chinês tem planos para desenvolver uma ‘força tecnológica estratégica nacional’ em biotecnologia, que seria encarregada de fazer avanços e ajudar a China a alcançar a ‘independência tecnológica’, principalmente dos EUA.

‘Tanto o governo chinês quanto os americanos identificaram a biotecnologia como uma área importante para o investimento, um setor que apresenta uma oportunidade de crescimento de sua economia’, disse Tom Bollyky, presidente da Bloomberg em saúde global no Council on Foreign Relations. Ele disse que quaisquer medidas restritivas dos EUA devem ser adaptadas para atender às preocupações militares e preocupações com a segurança de dados genômicos. ‘Naturalmente haverá competição, mas o que é desafiador na biotecnologia é que estamos falando de saúde humana’, disse Bollyky.

Ray Yip, que fundou o escritório do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA na China, também teme que a rivalidade desacelere os avanços médicos. O benefício de apresentar melhores diagnósticos e terapias está além de qualquer país individual, disse Yip, ‘e não ofuscará a capacidade ou o prestígio do outro país’.

O Departamento de Defesa listou a BGI como uma empresa militar chinesa, e o Departamento de Comércio a colocou na lista negra por motivos de direitos humanos, citando um risco de que a tecnologia BGI possa ter contribuído para a vigilância. A BGI rejeitou as acusações. Ao levantar suas preocupações sobre a BGI, a Comissão de Segurança Nacional sobre Biotecnologia Emergente diz que a empresa é obrigada a compartilhar dados com o governo chinês, fez parceria com os militares chineses e recebeu financiamento e apoio estatais chineses consideráveis.”

Enquanto os dois gigantes tecnológicos debatem e gastam milhões em recursos, tempo e inteligência para, em tese, suas autoproteções, as doenças continuam a ceifar vidas e a fome aumenta no planeta. Seria muito mais proveitoso para toda a humanidade se os países, em vez de se concentrarem nos seus próprios ‘umbigos’, voltassem os olhos para o atual momento de carência que o mundo atravessa.

” A enxada é a tecnologia. Saber usá-la do modo certo, no solo certo, para abrir o berço certo, no tempo certo, para a semente certa, é a ciência” – Sérgio Mesquita.

 *Consultor em Agronegócio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

 

 

 

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