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Carne de laboratório, uma falha tecnológica

Gil Reis*

Há poucos produtos alimentícios mais vilipendiados pelos ambientalistas do que as carnes. Eles alegam que o consumo de carne bovina contribui para o aquecimento global em razão de serem provenientes de animais que liberam na atmosfera o gás metano. Os veganos e vegetarianos argumentam que a carne vermelha prejudica a saúde humana. Talvez precisemos conceituar o termo ‘carnes’, a carne é definida como os tecidos animais que são convenientes para o uso como alimentos, obtidos de animais sadios, respeitando técnicas higiênico-sanitárias durante o abate e manuseio posterior. Como conceito mais amplo é frequentemente empregado o termo no plural – carnes –, envolvendo inclusive as vísceras.

Em 15 de fevereiro deste ano, Raquel França publicou, na Health & Nutrition Network, o artigo “Carne cultivada em laboratório está na lista das ‘principais falhas tecnológicas’ do MIT”. Transcrevo trechos:

“A Upside Foods, produtora de carne cultivada em laboratório, responde às alegações feitas contra a carne cultivada em laboratório por um artigo recente da MIT Technology Review. A MIT Technology Review critica a carne cultivada em laboratório, destacando os desafios na escalabilidade da produção e os altos custos. O artigo usa o frango da Upside Foods como exemplo, mas o CEO defende seu progresso e planos futuros. A Upside Foods está focada em expandir a disponibilidade enquanto continua trabalhando na redução de custos e na melhoria dos processos de produção.

Um artigo publicado pela MIT Technology Review em dezembro classificou a carne cultivada em laboratório como uma das ‘piores falhas tecnológicas’ de 2023, citando preocupações como a dificuldade de escalar a produção de produtos e os altos custos dos produtos acabados. O artigo foi além e destacou o produto de frango cultivado com textura integral da Upside Foods, que está entre os primeiros produtos de carne cultivados em laboratório a fazer incursões junto aos reguladores nos Estados Unidos. Em 2022, a FDA disse à empresa, após realizar uma consulta pré-comercialização, que a agência ‘não tinha mais dúvidas’ sobre a segurança do produto. Em junho de 2023, a Upside Foods recebeu aprovação de rótulo do USDA.

O artigo do MIT Technology Review alegou que a Upside Foods estava produzindo seu produto texturizado de frango cultivando finas camadas de células de pele de frango em frascos de laboratório, que são então prensadas manualmente em pedaços de frango – em vez de cultivar produtos de peito de frango em biorreatores. Numa resposta publicada pelo MIT Technology Review, Uma Valeti, CEO da Upside Foods, disse que o artigo não conseguiu fornecer ‘uma imagem precisa do progresso da carne cultivada’ e ‘o contexto certo para o primeiro produto da Upside’.

Além disso, Valeti explicou que ‘a Upside demonstrou com sucesso e repetidamente que podemos dimensionar nossa tecnologia de suspensão para fazer deliciosos produtos misturados e com textura moída. Esta plataforma é a base para a planta comercial que estamos construindo atualmente e permitirá a produção em larga escala, dependendo da aprovação regulatória. Em setembro de 2023, a empresa anunciou a construção de uma nova instalação de 187.000 pés quadrados em Glenview, Illinois.

O produto de frango texturizado da Upside ainda não está disponível no varejo, mas pode ser adquirido de forma limitada no Bar Crenn, um restaurante de São Francisco. Um porta-voz da Upside disse que a empresa espera que seu produto texturizado de frango cultivado continue disponível de forma limitada, enquanto a empresa trabalha para desenvolver ‘um processo de próxima geração para produzir este produto em maior escala’. Ao mesmo tempo, a Upside está trabalhando na ampliação do seu processo de suspensão para produtos com textura moída, como salsichas de frango, sanduíches de frango e bolinhos, que estarão disponíveis enquanto se aguarda a aprovação regulatória, explicou o porta-voz.

O artigo do MIT Technology Review foi mais longe ao citar a questão dos elevados custos dos produtos acabados em apoio às suas alegações contra a carne cultivada em laboratório.  ‘…Há dúvidas se a carne de laboratório algum dia competirá com a carne real’, afirmava o artigo. ‘O frango custa US$ 4,99 o quilo no supermercado. O lado positivo ainda não diz quanto custa a versão de laboratório, mas algumas mordidas são vendidas por US$ 45 em um restaurante com estrela Michelin em São Francisco.”

Os cientistas bem remunerados vêm há muito tentando desenvolver carnes produzidas em laboratório a partir de células retiradas de animais abatidos, não se sabe quando. Tais cientistas são verdadeiros Drs. Frankenstein do mundo moderno que vão buscar, nos abatedouros de animais de produção, pedaços dos mesmos para produzir carnes clonadas, sem a mínima preocupação, por parte dos empresários que os contratam, com os custos, na esperança que tais experimentos, produzidos de células vivas desenvolvidas e multiplicadas através da imersão em um caldo de diversos produtos químicos que não se sabe quais, sejam inovadores e deem lucro.

Um conselho para os que gostam de se deliciar com carnes desenvolvidas a partir de células de diversos tipos de animais: nunca esqueçam que estão contribuindo para a criação do que denominei, em outro artigo, de ‘abominável mundo novo’. Um aviso: vão faltar células na medida que os animais de produção percam a razão de existir entrarão em um processo de extinção. A humanidade vai testemunhar a extinção maciça dos animais de produção e, quem sabe, os Drs. Frankenstein vão começar a buscar células de outros animais.

“Aprendeu a preparar alimentos cultivados ou tirados da terra, fosse na cozinha da mãe, fosse sobre uma fogueira. Aprendeu que comida era mais do que ovos frescos que pegava no galinheiro ou uma truta bem grelhada. Comida significava sobrevivência” – Nora Roberts, “De sangue e ossos” (Trilogia Crônicas da escolhida).

*Consultor em Agronegócio

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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