Qualidade do solo: de olho onde se pisa para ver mais longe

Luís Cláudio Cicci, jornalista com MBA em Gestão do Agronegócio

Luís Cláudio Cicci*

A sabedoria popular ensina: quem tem, cuida. Isso vale para um matrimônio e, também, claro, para o patrimônio, seja dinheiro, carro, imóvel e também fazenda. No caso do homem do campo, o zelo com a própria terra, a preocupação com a qualidade do solo, influi na produtividade da lavoura e mostra compromisso com o significado de palavra que está na moda.

A preocupação com a sustentabilidade rende diferencial de marketing, faz o produto, nas lojas e supermercados, cair no gosto do consumidor. Mas, quando se trata de manutenção da qualidade do solo (QS), a relação direta é com a perenidade e com o sucesso do empreendimento. Vale repetir: quem tem, cuida. E, para isso, é preciso conhecer onde se apoiam os pés.

No campo, ainda faltam os mostradores, como aqueles dos carros, que informem de pronto dados sobre as condições do substrato, o meio físico onde as plantas se sustentam e buscam os nutrientes fundamentais para o seu desenvolvimento. É que no caso da qualidade do solo, a própria definição desse conceito é controversa porque os indicadores mantêm entre si relações complexas e interdependentes – ou não.

É muita variável, todas dinâmicas, para pouco padrão que viabilize comparações, uma exigência do mais rudimentar método científico. Desse modo, a variação de um, entre os quatro referenciais básicos de avaliação da qualidade do solo, pode afetar sozinho os outros todos – ou não – sem sofrer influência, inclusive de fatores externos, como o clima, por exemplo.

Técnicas de manejo

Na agricultura, a integridade da terra é referencial crucial para orientar a adoção de práticas sustentáveis. Curvas de nível, os baciões, o planejamento de estradas e cercas de acordo com a declividade do terreno, a rotação de culturas, a adubação verde e o plantio direto são, hoje, rotina para ao produtor rural profissional. Mas foi há quase 30 anos que a comunidade científica propôs a adoção dos indicadores visuais, biológicos, físicos e químicos para a qualidade do solo.

A edafologia, a ciência que se dedica ao estudo da parte não consolidada da crosta terrestre, o solo, adotou os quatro parâmetros para orientar avaliações do substrato. Isso porque a qualidade do solo influi na manutenção da produtividade das plantas e da biodiversidade animal; nas condições da água e do ar, essenciais à vida, e fundamentais para permitir ao homem a habitação e a saúde.

Só que a definição daquilo que é ideal, quando se trata de valoração do estado da matéria física terra, depende também da destinação que se pretende dar à área, da adoção de práticas de manejo e de condições momentâneas, inclusive de sociais, econômicas e políticas.

Mesmo assim, são esses quatro indicadores de qualidade do solo que os técnicos usam atualmente para orientar a identificação de áreas com problemas, a projeção de estimativas de safra, o monitoramento da qualidade ambiental e a formulação de políticas agrícolas e de uso da terra.

Década de 1990

A definição dos quatro critérios de referência para a qualidade do solo tem a ver com a publicação, em 1993, nos Estados Unidos, por órgão de pesquisa estatal, de um livro que se tornou referência no assunto, o Soil and Water Quality: an Agenda for Agriculture, do Board on Agriculture of the National Research Council.

E, na década de 1990, com a difusão do conceito de sustentabilidade para todos os ramos de negócios, a produção de conhecimento sobre a qualidade do solo cresceu significativamente. É o que comprova o aumento no número dos trabalhos indexados nos periódicos científicos internacionais.

A pesquisa toma tempo dos cientistas, rendeu uniformização de métodos, mas até hoje não trouxe consenso quanto ao conceito de qualidade de solo. Ainda assim, são dados no formato proposto pela edafologia na década de 1990 que hoje orientam a prática nos laboratórios e no campo, inclusive na agricultura de precisão.

Agricultura do complexo

Há pesquisadores que relacionam a qualidade do solo à abundância de vida. Quanto mais matéria orgânica, maior a interação entre plantas e organismos. Essa relação resulta na construção das estruturas física e química dos terrenos, que são mais complexas quanto mais abundante e de origem diversa for a biomassa.

Esse entendimento tem a ver com a definição de fertilidade: a capacidade de gerar, de criar. E vem da matéria vegetal a nutrição dos complexos de vida. Foi assim que se chegou à construção do conceito de agricultura do complexo, com potencial para estimular relações mutualísticas, que trazem benefícios simultaneamente aos envolvidos – caso clássico da soja, do rizóbio e do nitrogênio.

A troca entre as plantas e os organismos presentes na terra, pesquisas mostram, traz qualidade do solo e sustentabilidade ao agroecossistema. Portanto, o cultivo contínuo e diversificado de vegetais rende relações complexas entre os seres vivos e é fundamental para criação de um ciclo sustentável no perfil agriculturável da terra.

A edafologia, para a definição da qualidade de um solo na prática, recorre a método semelhante ao adotado no exame da sanidade de um ser vivo: identificação de sintomas; medição dos sinais vitais; apresentação de diagnóstico provisório, que passa por testes de comprovação; e por fim, vem a prescrição do tratamento.

Indicadores de QS

A observação de ocorrências na face exposta do terreno é a rotina da análise visual. É quando se busca, com o olhar, locais de exposição do perfil do solo e do subsolo, áreas com mudança da cor, traços do escorrimento superficial de água. Também se analisa a situação das plantas presentes na área e eventual predominância de uma ou outra espécie.

Essa é só a primeira etapa da definição da qualidade do solo em uma área. E basta um bom observador, com olho treinado, para que a coleta de informações e as consequentes conclusões se resolvam, no campo mesmo. Mas, de resto, até o diagnóstico final, tudo depende de laboratório.

Para compreensão sobre a biologia edafológica, o foco deve estar na diversidade das espécies que têm o solo como endereço, a tal biota. A matéria orgânica e os organismos são essenciais para a ciclagem de nutrientes e, portanto, para os vegetais vicejarem. A presença na terra de compostos existentes nos seres vivos tem relação direta com a disponibilidade de nitrogênio, macronutriente demandado em qualquer lavoura.

Quanto aos aspectos físicos que definem a qualidade do solo, o arranjo das partículas de terra é determinante para a densidade, a porosidade, a estabilidade, a textura, a compactação, a condutividade e a capacidade de armazenagem de água. E, merece destaque, a espessura da camada de terra define a amplitude das raízes e, portanto, há relação direta desse referencial com a produtividade da planta.

A acidez ou a alcalinidade; a salinidade; a capacidade para permitir reações; e a oferta de nutrientes para as plantas são os referenciais que definem a química da qualidade do solo. Também faz parte desse critério a presença de elementos contaminantes e fitotóxicos, os venenos que as próprias plantas produzem. Esses referenciais químicos têm relação com a matéria orgânica, como nos casos dos outros três indicadores.

Biomassa, minhoca e laboratório

Pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) destaca a biomassa microbiana do substrato como indicador de sanidade. “Fungos, leveduras, bactérias, microfauna e protozoários representam a vida no solo e têm relação com todos os processos de ciclagem de nutrientes”, informa o folder Qualidade do Solo, de 2013. “… sua presença – ou ausência – serve para definir técnicas adequadas de manejo”, completa a mesma publicação.

A presença no solo de um tipo específico de anelídeo terrestre é também referencial de qualidade porque esse bichinho atua para acelerar a decomposição da matéria orgânica e melhora a estrutura física do solo. Terra cheia de minhoca dispõe de fertilizante natural e conta com galerias por onde esses organismos se movem. No seu rastro, ficam o húmus, e canais que servem para a aeração e a penetração d’água.

A complexidade do conceito de qualidade do solo, que mesmo entre os pesquisadores gera controvérsia, é uma evidência de que vale a pena recorrer à ajuda de um laboratório para o produtor rural saber onde pisa – e coloca os seus investimentos. Há aparelhos e técnicas para, por exemplo, mensurar a capacidade de retenção de água, índice que pode, sozinho, revelar desequilíbrio comprometedor de toda uma lavoura.

O exame de análise do solo tem importância comparável à do hemograma para o ser humano. Com o resultado em mão, o produtor rural pode decidir qual intervenção – ou remédio – adotar para resolver esse ou aquele problema, sanar essa ou aquela carência para restabelecer o equilíbrio edafológico. A atuação pontual, com base em dados científicos, diminui o risco de perdas, de desperdício e abre caminho o resgate da qualidade do solo e, portanto, para o aumento da produtividade e da lucratividade.

*Jornalista, repórter e assessor de imprensa com MBA em Gestão do Agronegócio

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Um comentário em “Qualidade do solo: de olho onde se pisa para ver mais longe

  • 15 de agosto de 2020 em 19:30
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    Boas informações, porém texto extenso e confuso…

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