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A farsa contra os alimentos

Gil Reis*

É uma indagação bastante interessante destinada a esclarecer a farsa armada contra os alimentos processados ou não. Trata-se de uma campanha enganosamente destinada a preservar a saúde de quem consome alimentos. Afinal, a maior parte dos alimentos produzidos pela indústria de alimentação é destinada ao consumo da população. Ou se trata de uma campanha orquestrada contra a indústria brasileira? Os dados científicos sobre os malefícios dos alimentos processados são conflitantes.

Talvez seja melhor conhecermos as opiniões que negam os malefícios dos alimentos processados. Em 18 de setembro de 2023, o site Congresso em Foco publicou o artigo “Querem tirar o paio do seu feijão”, de autoria de João Dornellas, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA). Reproduzo trechos:

“Alimentação é essencial, disso todos têm consciência. A reforma tributária é uma oportunidade – que não deve ser desperdiçada – para tornar a comida mais acessível para todos. O alimento produzido no Brasil é um dos que mais paga impostos no mundo: uma média de 24%, contra 7% nos países da OCDE.

A indústria brasileira produz 250 milhões de toneladas de alimentos, em média, por ano, e 72% dessa produção é para o abastecimento da população. Perto de 89% das vendas da indústria são de alimentos do dia a dia. As proteínas – carnes, pescados e derivados; os laticínios – leite, queijos, iogurtes; os cereais – arroz, milho, café, chás; óleos e gorduras; derivados de frutas e vegetais. De acordo com dados da última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) de 2017/2018, 76% dos alimentos consumidos no Brasil são processados, considerando uma ampla gama de produtos. Do arroz ao feijão, do leite ao iogurte, tudo passa pela indústria.

O texto da reforma tributária, que está em discussão no Senado Federal, reconhece essa relevância, ao propor isenção de tributos para a cesta básica e alíquota reduzida para alimentos destinados ao consumo humano. Não tem como ser diferente, quando se convive com a fome e a insegurança alimentar. A população não quer aumento de impostos sobre alimentos e bebidas. É o que mostra pesquisa de opinião pública realizada pelo IRPI (Instituto de Pesquisa de Reputação e Imagem) a pedido da ABIA. Os brasileiros não são só contrários ao aumento (86%), como também pedem redução (85%) da carga tributária atual. Quando se trata de imposto seletivo para algumas categorias de alimentos e bebidas, 90% dos brasileiros se posicionaram contrários. 

Há, no entanto, grupos pressionando por mais impostos sobre alimentos e bebidas. Para esses, que pouco conhecem sobre processamento de alimentos, vegetais em conserva (milho, ervilha, azeitona); queijos, presunto, salame e mortadela; margarina e requeijão; extrato, concentrado e molhos de tomate; sardinha e atum enlatados; sucos e refrigerantes; carne seca, toucinho, salsicha, bacon, paio e todos os tipos de linguiças; molhos (maionese, ketchup, mostarda); fórmulas infantis e compostos lácteos; achocolatados; sorvetes; iogurtes e bebidas lácteas; pães de forma e todos os tipos de pães produzidos pela indústria (até os integrais); cereais matinais, barras de cereais e de proteínas; bolos e misturas para bolos; chocolates, balas, biscoitos, snacks; macarrão instantâneo; produtos congelados e prontos (pão de queijo, inclusive), são alimentos que devem custar mais caro. 

Com a premissa falsa de que alimentos processados fazem mal à saúde, eles acreditam que podem convencer nossos parlamentares e, mais ainda, acham que têm o direito de ditar aos brasileiros o que se pode – e o que não se pode – comer. Querer que os brasileiros paguem mais por alimentos e bebidas não merece nem estar no debate. O que querem tirar do seu prato vai muito além do paio no feijão. A boa notícia é que a população brasileira não agradece e nem aceita a sugestão.”

Já Luís Madi, coordenador do Projeto Alimentos Industrializados 2030, publicou, em 4 de abril deste ano, no Linkedin, o artigo “Análises estatísticas e a associação inadequada de “ultraprocessados” a 32 doenças”. Também reproduzido trechos:

“Uma recente revisão de meta-análises com foco na relação dos alimentos ‘ultraprocessados’ a condições adversas para a saúde humana repercutiu na mídia a afirmação de que esses alimentos estão diretamente associados a 32 doenças e sua ingestão aumenta em 50% o risco de morte relacionada a doenças cardiovasculares.

O estudo Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses, aceito em 19 de janeiro pelo periódico The BMJ, identificou 430 artigos duplicados e acabou levando em consideração 12 estudos de meta-análise com 45 análises agrupadas. Os alimentos abrangidos são aqueles considerados ‘ultraprocessados’ pela classificação NOVA.

No artigo, esses alimentos são descritos como ‘ampla gama de produtos prontos para comer, incluindo snacks, refrigerantes, macarrão instantâneo e refeições prontas’, sendo considerados ‘formulações industriais compostas basicamente por substâncias químicas modificadas extraídas de alimentos, com aditivos que melhoram gosto, sabor, textura, aparência e duração e quase nenhuma inclusão de alimento integral’.

Nas divulgações na imprensa, a descrição variou entre ‘pães, cereais matinais, lanches e refeições congeladas que foram fabricados industrialmente com sabores e aditivos para torná-los mais agradáveis’, conforme publicou a Folha de S. Paulo, ‘formulações industriais basicamente feitas de substâncias quimicamente modificadas derivadas de alimentos e preparadas com sabor, textura, aparência e durabilidade aprimorados’, segundo matéria do Nutrition Insight.

O também bioquímico e docente do Reino Unido Gunter Kuhnle, doutor em ciências naturais da University of Reading, ponderou que ‘os autores admitem que os dados não permitem estabelecer causalidade e que devem haver outras razões além dos alimentos ultraprocessados que possam explicar os resultados’. Complementou ainda que ‘a qualidade da evidência que relaciona ingestão de alimento ultraprocessado e condições adversas de saúde é fraca’, sendo considerada de nível baixo e muito baixo pelo sistema GRADE.”

Não sei você, caro leitor, mas para mim as opiniões abalizadas de quem entende do assunto e de cientistas ‘não comprometidos’ são o suficiente para não acreditar na farsa.  A perseguição contra a população de menor poder aquisitivo chega a ser tão grande que as carnes ‘in natura’ de procedência animal estão sendo retiradas da ‘cesta básica’ pelos ‘iluminados técnicos’ governamentais, que aparentemente não conhecem a realidade brasileira.

Quanto ao tal ‘imposto seletivo’, que atinge diretamente, além das carnes ‘in natura’, a indústria alimentar e, via de consequência, os produtores rurais e 70% da população brasileira, creio que os nossos representantes no Congresso Nacional não permitirão que essa ‘excrescência’ sobreviva, sob pena deles mesmos não sobreviverem nas próximas eleições.

“Sempre é tempo de recordar que os seres humanos criaram a ‘máquina pública’, o Estado, para promover o desenvolvimento dos países, traduzidos em benefícios para a população. Afinal, os recursos públicos são nada mais, nada menos que os recursos de cada um de nós, os pagadores de impostos. A ‘máquina pública’ não foi criada para se auto alimentar”

*Consultor em Agronegócio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA 

 

 

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One thought on “A farsa contra os alimentos

  • LUIZ CARLOS PAULI

    QUESTIONEM sempre a dupla esquerda/ imprensa, peguem o exemplo do cigarro, o câncer é uma doença genética/azar, até crianças tem a doença, então é óbvio que os fumantes são os que menos tem câncer de pulmão. Percebam como tudo temos de questionar, caso contrário nos dominam fácil

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