A luta do agro
Gil Reis*
“As armas e os barões assinalados, / Que da ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados, / Passaram ainda além da Taprobana, / Em perigos e guerras esforçados, / Mais do que prometia a força humana, / E entre gente remota edificaram/ Novo reino, que tanto sublimaram.”
Assim começa a obra que pode ser considerada a certidão de nascimento da língua portuguesa. Publicada em 12 de março de 1572, há 450 anos, a célebre criação do poeta Luís Vaz de Camões (nascido provavelmente no ano de 1524 e morto provavelmente em 1580) é formada por dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos, todos em oitavas decassilábicas, sempre arranjados em um esquema rítmico fixo. Trata-se do poema épico Os Lusíadas, que narra a descoberta, pelo navegador português Vasco da Gama (1469-1524), da rota marítima para a Índia — um marco nas relações comerciais e exploratórias do século 15 e, de certa forma, a consolidação de um momento historicamente relevante para Portugal.
O trecho inicial da obra “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões retrata a luta da agropecuária em nosso país. A história e a literatura universal nos ensina muito e está fadada a se repetir se não tirarmos dela qualquer aprendizado. A história do agro dos últimos 50 anos está sendo escrita pelas mulheres e homens do mundo rural que vem aprendendo no dia a dia o seu valor, porém não é o suficiente. É preciso seguir o que nos ensina a primeira estrofe do poema “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões – “As armas e os barões assinalados”.
É preciso sim lutar, sim lutar muito, uma luta que não se resume a produzir. O mundo rural está aprendendo que não basta alimentar amigos, inimigos e grande parte do mundo, é preciso enfrentar as maldades elaboradas em corredores soturnos e na calada da noite contra a produção de alimentos. Tratam-se maldades suicida, elaboradas contra a própria existência da humanidade, uma vez que sem alimentos não existe vida. Várias espécies se extinguiram desde a criação do nosso planeta, não por cataclismos e sim por suas consequências na destruição das fontes de alimentação.
O mundo rural está sendo obrigado a aprender política para sua autodefesa. O que chama mais atenção é que os autores após elaborarem as políticas contra a produção de alimentos se refestelam em uma confortável cadeira, diante de uma mesa farta, para consumir os alimentos que tanto combatem. Inicialmente pensei tratar-se de mera ignorância, entretanto em razão de um aprofundamento no estudo do assunto cheguei a uma triste e assustador conclusão, trata-se de pura má fé, dolo. A pergunta que fica é – as pessoas que combatem a produção de alimentos estão a serviço de quem? Qual o objetivo escuso? Será que ainda não perceberam que impedir a produção de alimentos é crime contra a humanidade?
O ataque se se estende em direção à agroindústria e ataca os alimentos processados recentemente publiquei o artigo “A farsa contra os alimentos” que transcrevo trechos.
Em 18 de setembro de 2023, o site Congresso em Foco publicou o artigo “Querem tirar o paio do seu feijão”, de autoria de João Dornellas, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA). Reproduzo trechos:
“Alimentação é essencial, disso todos têm consciência. A reforma tributária é uma oportunidade – que não deve ser desperdiçada – para tornar a comida mais acessível para todos. O alimento produzido no Brasil é um dos que mais paga impostos no mundo: uma média de 24%, contra 7% nos países da OCDE.
A indústria brasileira produz 250 milhões de toneladas de alimentos, em média, por ano, e 72% dessa produção é para o abastecimento da população. Perto de 89% das vendas da indústria são de alimentos do dia a dia. As proteínas – carnes, pescados e derivados; os laticínios – leite, queijos, iogurtes; os cereais – arroz, milho, café, chás; óleos e gorduras; derivados de frutas e vegetais. De acordo com dados da última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) de 2017/2018, 76% dos alimentos consumidos no Brasil são processados, considerando uma ampla gama de produtos. Do arroz ao feijão, do leite ao iogurte, tudo passa pela indústria.
O texto da reforma tributária, que está em discussão no Senado Federal, reconhece essa relevância, ao propor isenção de tributos para a cesta básica e alíquota reduzida para alimentos destinados ao consumo humano. Não tem como ser diferente, quando se convive com a fome e a insegurança alimentar. A população não quer aumento de impostos sobre alimentos e bebidas. É o que mostra pesquisa de opinião pública realizada pelo IRPI (Instituto de Pesquisa de Reputação e Imagem) a pedido da ABIA. Os brasileiros não são só contrários ao aumento (86%), como também pedem redução (85%) da carga tributária atual. Quando se trata de imposto seletivo para algumas categorias de alimentos e bebidas, 90% dos brasileiros se posicionaram contrários.
Há, no entanto, grupos pressionando por mais impostos sobre alimentos e bebidas. Para esses, que pouco conhecem sobre processamento de alimentos, vegetais em conserva (milho, ervilha, azeitona); queijos, presunto, salame e mortadela; margarina e requeijão; extrato, concentrado e molhos de tomate; sardinha e atum enlatados; sucos e refrigerantes; carne seca, toucinho, salsicha, bacon, paio e todos os tipos de linguiças; molhos (maionese, ketchup, mostarda); fórmulas infantis e compostos lácteos; achocolatados; sorvetes; iogurtes e bebidas lácteas; pães de forma e todos os tipos de pães produzidos pela indústria (até os integrais); cereais matinais, barras de cereais e de proteínas; bolos e misturas para bolos; chocolates, balas, biscoitos, snacks; macarrão instantâneo; produtos congelados e prontos (pão de queijo, inclusive), são alimentos que devem custar mais caro.
Com a premissa falsa de que alimentos processados fazem mal à saúde, eles acreditam que podem convencer nossos parlamentares e, mais ainda, acham que têm o direito de ditar aos brasileiros o que se pode – e o que não se pode – comer. Querer que os brasileiros paguem mais por alimentos e bebidas não merece nem estar no debate. O que querem tirar do seu prato vai muito além do paio no feijão. A boa notícia é que a população brasileira não agradece e nem aceita a sugestão.”
Vejam bem o artigo do João Dornellas é de setembro de 2023 e de lá para cá pouca coisa mudou. Os entendidos em saúde e meio ambiente estão entre os elaboradores do tal imposto seletivo e decidem, a seu bel prazer, sem quaisquer bases cientificas quais alimentos devem ser mais taxados de forma que a população mais carentes percam o acesso a eles.
Toda a argumentação contra os alimentos processados é respaldada por teses, meras propostas intelectuais, sempre esquecendo que até pouco tempo o café e os ovos eram alimentos nocivos à saúde humana. Agora somente resta transcrever o que disse à respeito deste tipo de política um mestre do passado.
“Política, do modo como a palavra é normalmente compreendida, não passa de corrupção” — Jonathan Swift, um escritor anglo-irlandês, panfletário político, poeta e clérigo que depois se tornou reitor da Catedral de São Patrício, em Dublin.
*Consultor em Agronegócio
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

