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Impacto do tarifaço sobre exportações de carnes e subprodutos bovinos

AVALIAÇÃO DE POTENCIAIS IMPACTOS SOBRE AS EXPORTAÇÕES DE CARNES E SUBPRODUTOS BOVINOS EM FUNÇÃO DA TARIFA ADICIONAL DE 50% ANUNCIADA PELO GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS AOS PRODUTOS DO BRASIL

Paulo Mustefaga

Presidente Executivo da Associação Brasileira de Frigoríficos – ABRAFRIGO

O governo dos Estados Unidos anunciou no dia 9 de julho de 2025 que os produtos brasileiros exportados para aquele País sofrerão tarifa adicional de 50%, além das tarifas atuais, a partir de 1º de agosto de 2025.

Considerando que os Estados Unidos são grandes importadores e vêm ganhando crescente participação nas exportações brasileiras de carnes e subprodutos bovinos, é importante avaliar os potenciais impactos das novas taxas para o setor.

1 . EXPORTAÇÕES TOTAIS DE CARNE E SUBPRODUTOS BOVINOS DO BRASIL

De janeiro a junho de 2025, as exportações de carnes e subprodutos bovinos alcançaram US$ 7,446 bilhões, indicando crescimento de 27,93% em relação ao mesmo período do ano anterior, com o embarque de 1,69 milhão de toneladas. Ressalta-se o expressivo crescimento observado no mês de junho/2025, de 40% em volume e 55% em receitas.

Tabela 1 – Exportações brasileiras de carnes e subprodutos bovinos – janeiro a junho – 2025/2024

Gráfico 1 – Exportações de carnes e subprodutos bovinos – janeiro a junho 2025/2024 (US$ Milhões)

De janeiro a dezembro de 2024, as exportações de carnes e subprodutos bovinos somaram US$ 13,135 bilhões. Com base nos resultados parciais de 2025 e considerando as perspectivas atuais do mercado internacional, estima-se que as exportações do setor possam superar com relativa tranquilidade a marca histórica de US$ 15 bilhões em 2025.

As exportações de carne bovina representam cerca de 30% da produção brasileira, gerando recursos importantes para investimentos que impulsionam o desenvolvimento tecnológico e a produtividade do setor, contribuindo também para o abastecimento do mercado interno.

2 . EXPORTAÇÕES DE CARNE E SUBPRODUTOS BOVINOS PARA OS EUA

Em relação aos Estados Unidos, as exportações de carnes e subprodutos bovinos alcançaram US$ 1,287 bilhão de janeiro a junho de 2025, com o embarque de 411,7 mil toneladas, resultados que superam em 99,8% em receitas e 85,4% em volume os resultados alcançados no mesmo período do ano anterior (Tabela 2).

Tabela 2 – Exportações de carnes e subprodutos bovinos para os Estados Unidos – 2025/2024

Os principais produtos do setor bovino exportados para os Estados Unidos no primeiro semestre de 2025 foram as carnes bovinas desossadas e congeladas, com US$ 737,8 milhões, o sebo bovino fundido com US$ 243,9 milhões e as preparações alimentícias e conservas (corned beef) com US$ 239 milhões. As carnes bovinas congeladas tiveram preço médio de US$ 4.938/tonelada no primeiro semestre de 2025, enquanto a carne industrializada alcançou preço médio de US$ 10,2 mil/ton. e as carnes desossadas, frescas ou refrigeradas, de US$ 7,57 mil/tonelada.

Os produtos bovinos exportados para os Estados Unidos apresentaram forte crescimento no primeiro semestre de 2025, frente ao mesmo período do ano anterior, com aumento de 142% para as carnes desossadas congeladas, de 100% para o sebo bovino fundido, de 29,6% para as preparações e conservas (corned beef) e de 134% para as carnes frescas ou refrigeradas. As carnes salgadas ou defumadas também tiveram expressivo crescimento de 316%, embora ainda representem apenas 0,6% do total vendido para os EUA. No ano de 2024, as vendas do setor bovino para os Estados Unidos foram de US$ 1,637 bilhão e as perspectivas são de que ultrapassem US$ 3 bilhões em 2025.

Quando se analisa a participação dos Estados Unidos em relação às vendas totais, observa-se que as carnes desossadas congeladas enviadas para os EUA representaram 13,1% das receitas com as exportações totais desse produto, enquanto o sebo bovino representou praticamente 100%, as preparações e conservas representaram 65%, as carnes desossadas frescas ou refrigeradas, 5,8%, as carnes salgadas ou defumadas, com 79% e o sebo bovino em bruto, com 87% (Tabela 3).

Tabela 3 – Participação dos EUA nas exportações de carnes e subprodutos bovinos – 2025/2024

Ao se comparar os preços médios de vendas para os EUA em relação aos preços médios totais (Tabela 3), observa-se que as exportações para os Estados Unidos tiveram preços 40,45% maiores em relação às carnes em conserva e 26,65% maiores nas carnes desossadas frescas ou refrigeradas, evidenciando maior remuneração para esses produtos no país norte-americano em relação à média geral.

Tabela 4 – Participação dos EUA nas exportações de carnes e subprodutos bovinos – 2025/2024

Com o objetivo de analisar a dependência das exportações do setor bovino para os Estados Unidos, agrupou-se os itens da tabela 3 em 2 grupos principais, conforme a tabela 4 acima. Observa-se que as carnes bovinas de todos os tipos (frescas ou refrigeradas, congeladas, em conservas e outras) vendidas para os EUA participaram com 14,9% das receitas totais desses produtos, somando US$ 1,038 bilhão. No caso do sebo bovino, verifica-se que há uma elevada dependência desse tipo de produto para os EUA, cujas exportações para aquele mercado representaram praticamente 100% de todas as vendas externas, indicando que poderá haver maior dificuldade de redirecionar vendas desse produto caso o mercado norte-americano se torne inviável por conta da aplicação de tarifas.

3 . SIMULAÇÃO DE TARIFAS DE IMPORTAÇÕES DE CARNES E SUBPRODUTOS BOVINOS DO BRASIL POR PARTE DOS ESTADOS UNIDOS

Com o objetivo de avaliar potenciais impactos em termos de preços das novas tarifas de 50% anunciadas pelo governo dos Estados Unidos, simulou-se o valor das novas taxas em comparação com as alíquotas atualmente em vigor, conforme dados da tabela 5. As tarifas foram estimadas com base nos valores médios FOB de exportações para os 4 principais produtos vendidos ao mercado norte-americano. No caso das carnes desossadas, frescas, refrigeradas ou congeladas, o Brasil participa de uma quota de 65,8 mil toneladas destinadas a outros países, não dispondo de quota específica. Como se observa, tal quota é muito inferior à demanda atual pela carne brasileira, uma vez que no primeiro semestre de 2025 o Brasil já enviou para os EUA um volume equivalente a 2,5 vezes o total da quota. No caso da carne em conserva e do sebo bovino não há quota tarifária.

Tabela 5 – Simulação de tarifas de exportações de carnes e subprodutos bovinos para os EUA

A carne bovina desossada congelada exportada para os EUA paga atualmente uma tarifa extraquota (acima da quota de 65,8 mil ton.) de cerca de US$ 1,78 mil por tonelada (tarifa específica e ad valorem), o que representa 36% dos preços médios FOB. Com a tarifa adicional de 50%, o montante da tarifa extraquota passaria para US$ 3,75 mil/ton., aumentando 111%. Dessa forma, a tarifa final representaria 76% do preço médio FOB em equivalente ad valorem, ante 36% da tarifa atual. No caso do sebo bovino fundido, a tarifa passaria de US$ 151/ton. (tarifa específica e ad valorem) para US$ 583, aumentando 286% e passando a representar 54% dos preços médios. Em relação às preparações alimentícias e conservas bovinas (corned beef), a tarifa passaria de US$ 1,064 mil/ton. para US$ 5,147 mil/ton. (+384%), equivalente a 50,4% dos preços médios.

A tarifa adicional de 50% anunciada pelo governo dos EUA pode inviabilizar, pela sua magnitude e impacto, a continuidade das exportações de carnes bovinas para aquele país, o que reforça a necessidade de busca por novos mercados.

Vale ressaltar que as simulações apresentadas neste trabalho são apenas estimativas sujeitas a alterações, uma vez que ainda não foi publicada a ordem executiva que oficializaria a nova política tarifária, não se conhecendo, portanto, todos os detalhes da medida anunciada pelo governo dos EUA.

4 . EXPORTAÇÕES DE CARNE E SUBPRODUTOS BOVINOS PARA OS PRINCIPAIS MERCADOS

O Brasil vem ampliando suas exportações de carne bovina para os principais mercados compradores (Tabela 6). A China continua sendo o principal destino da carne bovina brasileira, com participação de 43% nas exportações de janeiro a junho de 2025. Os embarques para o país asiático cresceram 11,3% e as receitas aumentaram 27,3%, ante o mesmo período de 2024, somando US$ 3,2 bilhões até junho de 2025. Os EUA, segundo maior comprador, representaram 17,3% das vendas e aumentaram significativamente suas compras no período comparativo, com alta de 84,5% nos embarques e praticamente 100% em receitas, alcançando US$ 1,288 bilhão. Chile, México e Rússia também apresentaram fortes aumentos no período, sendo impressionante o desempenho do México, destino cujas vendas cresceram 190% em volume e 236% em receitas.

Tabela 6 – Exportações de carne e subprodutos bovinos para os principais mercados

Os números apresentados na tabela 6 demonstram que continua forte o apetite internacional pela carne bovina brasileira nos principais países compradores. Dos 10 principais mercados, apenas 3 apresentaram queda nas receitas com as exportações de carne e subprodutos bovinos: Hong Kong (-14,1%), Arábia Saudita (-0,77%) e Egito (-5,26%), sendo que Hong Kong foi o único com queda também em volumes. Os demais mercados (outros) apresentaram, em conjunto, queda de 14% em volume e de 5% em receitas no período comparativo. No entanto, é importante notar que o crescimento nos 10 maiores mercados compensa amplamente a queda dos “outros”. Enquanto os 10 maiores participaram com 81% das vendas externas em receitas, os demais representaram 19%.

Gráfico 2 – Desempenho das exportações de carnes e subprodutos bovinos – janeiro a junho – 2025/2024 (US$ 1000)

Quando se compara o desempenho entre os 10 maiores e os demais mercados de exportação do Brasil, observa-se que as vendas para os primeiros aumentaram suas compras do Brasil em US$ 1,7 bilhão no primeiro semestre de 2025, ante o mesmo período do ano anterior, enquanto todos os outros mercados, em conjunto, tiveram redução de US$ 73,9 milhões, resultando em um saldo positivo de US$ 1,625 bilhão (Gráfico 2). O Anexo 1 mostra a evolução das exportações de carne bovina para os 10 maiores destinos.

5 . CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS

5.1. Exportações totais de carnes e subprodutos bovinos – janeiro a junho de 2025: As exportações de carnes e subprodutos bovinos cresceram 27,93% em receitas e 17,34% em volumes de janeiro a junho de 2025, ante o mesmo período do ano anterior, alcançando US$ 7,446 bilhões em receitas e 1,69 milhão de toneladas embarcadas em 2025. Apenas em junho/2025 houve crescimento de 40% em volume e 55% em receitas, estimando-se que as exportações do setor superem US$ 15 bilhões em 2025.

5.2. Exportações de carnes e subprodutos bovinos para os EUA: As exportações de carnes e subprodutos bovinos para os Estados Unidos alcançaram US$ 1,287 bilhão de janeiro a junho de 2025, com o embarque de 411,7 mil toneladas, resultados que superam em 99,8% em receitas e 85,4% em volume os resultados alcançados no mesmo período do ano anterior. Os Estados Unidos são o segundo maior mercado para as exportações de carnes e subprodutos bovinos brasileiros, participando com 17,3% das vendas totais do setor de janeiro a junho de 2025.

Os principais produtos bovinos exportados para os Estados Unidos no primeiro semestre de 2025 foram as carnes bovinas desossadas congeladas, com vendas de US$ 737,8 milhões, seguidas de sebo bovino fundido, com US$ 243,9 milhões, preparações alimentícias e conservas (corned beef), com US$ 239,1 milhões e carnes bovinas desossadas frescas ou refrigeradas, com US$ 53 milhões.

As exportações de preparações alimentícias e conservas bovinas exportadas para os Estados Unidos, no primeiro semestre de 2025, apresentaram preço médio (FOB) de US$ 10,2 mil por tonelada, valor 40,45% maior em relação ao preço médio geral, enquanto as carnes desossadas frescas ou refrigeradas registraram preço médio de US$ 7,57 mil/ton., valor 26,65% superior à média geral, indicando que o mercado norte-americano remunera melhor esses produtos em relação aos demais mercados.

Quando se considera a participação dos EUA nas exportações dos produtos bovinos brasileiros, observa-se que aquele mercado representa 13,1% das vendas externas de carne bovina desossada congelada, 99,9% do sebo bovino fundido e 65,1% das preparações alimentícias e conservas (corned beef). Verifica-se, assim, elevada dependência dos EUA nas exportações de preparações alimentícias e conservas bovinas (65,1%) e de sebo bovino fundido (99,9%), produtos cujos exportadores poderão encontrar maior dificuldade de redirecionar suas exportações caso seja confirmada a nova tarifa de 50% anunciada pelo governo dos EUA aos produtos brasileiros.

Considerando todos os tipos de carnes bovinas (frescas ou refrigeradas, congeladas, em conservas e outras), os EUA participaram com 14,9% das exportações brasileiras desses produtos, com US$ 1,038 bilhão em receitas entre janeiro e junho de 2025. O Brasil deverá buscar novos mercados para redirecionamento das exportações de carnes bovinas caso seja mantida a nova tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros.

Em relação ao sebo bovino total (fundido e em bruto), os EUA participaram com 99,6% das exportações, com US$ 248,7 milhões em receita nos primeiros seis meses do ano. Considerando a relevante participação dos EUA, infere-se que os fornecedores de sebo bovino poderão encontrar dificuldade para redirecionar suas exportações caso seja confirmada tarifa adicional de 50% aos produtos brasileiros.

5.3. Impactos da tarifa adicional de 50% pelos EUA sobre os produtos brasileiros: A carne bovina desossada congelada exportada do Brasil para os EUA paga atualmente uma tarifa extraquota (acima da quota de 65,8 mil ton. destinada a outros mercados) de cerca de US$ 1,78 mil por tonelada (tarifa específica e ad valorem), o que representa 36% dos preços médios atuais em valores FOB. Com a nova tarifa adicional de 50%, o valor da tarifa extraquota passaria para US$ 3,75 mil/ton., aumentando 111% sobre os valores atuais. Dessa forma, a tarifa final representaria 76% do preço médio FOB em equivalente ad valorem, ante 36% da tarifa atual. No caso do sebo bovino fundido, a tarifa passaria de US$ 151/ton. (tarifa específica e ad valorem) para US$ 583, aumentando 286% e passando a representar 54% dos preços médios. Em relação às preparações alimentícias e conservas bovinas (corned beef), a tarifa passaria de US$ 1,064 mil/ton. para US$ 5,147 mil/ton. (aumento de 384%), correspondente a 50,4% dos preços médios em equivalente ad valorem. A tarifa adicional de 50% anunciada pelos EUA pode inviabilizar a continuidade das exportações de carnes e subprodutos bovinos para aquele mercado, reforçando a necessidade de busca por novos mercados.

5.4. Perdas potenciais para o Brasil: As perdas nas exportações de carne e subprodutos bovinos do Brasil são estimadas em US$ 1,3 bilhão em 2025 e superiores a US$ 3 bilhões em 2026 e nos anos seguintes, caso a tarifa adicional de 50% dos EUA seja confirmada.

5.5. Considerações finais: Face à relevante e crescente participação dos EUA nas exportações brasileiras de carnes e subprodutos bovinos é importante que o governo e os órgãos responsáveis atuem de forma incisiva com os seguintes objetivos:

– Promoção de negociações imediatas com o governo dos EUA com base em atuação diplomática sensata, responsável e pragmática visando à reversão da tarifa anunciada. Atuações com base em confrontos e retaliações tendem a prejudicar ainda mais o setor produtivo e a sociedade brasileira. O Brasil levou cerca de 20 anos para conseguir acesso ao mercado norte-americano e vem ampliando sua participação de forma consistente nas vendas de carne bovina tanto para os EUA, como para outros países que sofrem sua influência direta, como México e Canadá. Eventual interrupção do comércio de carne bovina com os EUA tende a prejudicar também as vendas para outros importante mercados.

– Promoção de negociações imediatas com vistas à abertura e ampliação de mercados para as carnes e subprodutos bovinos brasileiros, de forma desburocratizada, para viabilizar o rápido e efetivo aumento das exportações, de forma a compensar eventuais perdas no comércio com os EUA;

– Além de perdas nas exportações, eventual retaliação do Brasil à tarifa de 50% dos EUA poderá impactar também a pecuária brasileira em termos de aumentos de custos de insumos importados, o que pode prejudicar e comprometer a sanidade e a produtividade do rebanho, bem como o desenvolvimento tecnológico da atividade, agravando efeitos sobre consumidores, a economia e as exportações;

– A importância da manutenção de um bom relacionamento entre o Brasil e os EUA vai além das questões comerciais, sendo de grande relevância social, cultural e para o desenvolvimento econômico do Brasil.

ANEXO 1 – EVOLUÇÃO DAS EXPORTAÇÕES DE CARNES E SUBPRODUTOS BOVINOS PARA OS 10 MAIORES MERCADOS – JANEIRO/2024 A JUNHO/2025

 

AGROemDIA

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