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Inflação alimentar no Canadá

Gil Reis*

A população mundial crescendo a cada dia os alimentos são cruciais para a sobrevivência da nossa espécie. Habitamos em apenas 6% da face do planeta dos quais apenas 3% são destinados à produção de alimentos. Somos hoje 8,5 bilhões de pessoas e de acordo com a previsões mais otimistas chegaremos a 10 bilhões em 2050, mas além do volume de produção é preciso preocupação com o preço que os alimentos chegarão ao mercado em razão do baixo poder aquisitivo da maioria da população mundial.

Há uma triste ilusão de que somente os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento enfrentam o problema dos custos dos alimentos. Ledo engano, a Reuters, em 5 de fevereiro de 2006 publicou uma matéria, mostrando que um país desenvolvido também sofre com o custo dos alimentos, “O canadense Carney conquista admiração global, mas enfrenta dificuldades para reduzir os custos dos alimentos em seu país”, assinada por Maria Cheng e que transcrevo trechos.

“Entre os países do G7, o Canadá registrou a maior taxa de inflação de alimentos em dezembro, segundo dados do governo. Os preços dos alimentos subiram 6,2% em dezembro, o dobro da taxa nos EUA e mais de três vezes as taxas na França e na Alemanha. Carney lidera um governo minoritário no Canadá e depende do apoio de outros partidos para aprovar leis e se manter no poder. Embora os canadenses o considerem consistentemente o melhor líder para lidar com as ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, o sentimento do eleitorado pode mudar rapidamente se as preocupações com a agressão americana diminuírem — e se as questões do custo de vida se tornarem mais urgentes, como já aconteceu na Grã-Bretanha, nos EUA e em outros lugares.

Um comunicado do Banco do Canadá divulgado esta semana observou que os preços dos alimentos subiram 22% nos últimos três anos, em comparação com 13% para outros preços ao consumidor. O banco central afirmou que a inflação de alimentos do ano passado foi impulsionada principalmente por alimentos importados, escassez de oferta causada por condições climáticas extremas e a significativa desvalorização do dólar canadense em 2024.

Carney anunciou na semana passada que os 12 milhões de pessoas mais pobres do país receberão um crédito fiscal pelos próximos cinco anos, ‘para garantir que os canadenses tenham o apoio de que precisam agora’. O governo também está tomando outras medidas, como destinar C$ 500 milhões para ajudar as empresas a lidar com as interrupções na cadeia de suprimentos e permitir que os produtores deduzam as despesas com emissões de gases de efeito estufa.

CRÉDITOS FISCAIS E APOIO À CADEIA DE SUPRIMENTOS

Mas as medidas pouco contribuem para a redução dos preços dos alimentos no Canadá, que atualmente são o principal fator da inflação, de acordo com Jeremy Kronick, diretor do Centro de Política Financeira e Monetária do think tank CD Howe Institute, em Toronto.John Fragos, secretário de imprensa do Ministro das Finanças do Canadá, François-Philippe Champagne, afirmou que as novas iniciativas do governo são apenas um primeiro passo para conter os custos dos alimentos.

‘Reduzimos a diferença entre a inflação dos alimentos e o mercado consumidor, como ela existe atualmente, e agora estamos focando em questões estruturais que, a médio e longo prazo, farão com que o preço dos alimentos caia’, disse Fragos.

No final de 2024, o ex-primeiro-ministro Justin Trudeau também anunciou a suspensão por dois meses do imposto sobre vendas de determinados produtos ‘para dar aos canadenses mais dinheiro no bolso’. A medida teve resultados mistos, com alguns setores, como restaurantes, relatando aumento nas vendas, enquanto outros negócios não viram nenhum impacto.

PROBLEMAS EXCLUSIVOS DO MERCADO DE SUPERMERCADOS DO CANADÁ

‘Existem alguns problemas exclusivamente canadenses que tornam o custo dos alimentos aqui tão elevado’, disse Michael Widener, que estuda sistemas alimentares na Universidade de Toronto.

‘Os custos de mão de obra e transporte são mais altos e, geograficamente, não estamos perto de muitos outros mercados’, disse ele, acrescentando que a dependência de produtos dos EUA e do México torna o Canadá extremamente vulnerável.

Frutas e verduras frescas costumam custar pelo menos o dobro no Canadá em comparação com a Grã-Bretanha e outros países da Europa; um saco de cenouras de dois quilos no Canadá custa US$ 2,21, em comparação com US$ 0,95 na Grã-Bretanha e US$ 1,18 na Alemanha, segundo varejistas online.

O líder conservador Pierre Poilievre há muito critica o alto custo dos alimentos para os canadenses, mas isso não se traduziu em aumento de apoio. Ele ainda está atrás de Carney por uma margem de dois dígitos nas pesquisas de opinião — e a aprovação de Carney aumentou desde seu discurso amplamente elogiado em Davos, no qual ele criticou abertamente as superpotências mundiais por usarem a ‘integração econômica como arma’, segundo diversas pesquisas.

A vice-líder dos Conservadores, Melissa Lantsman, disse a jornalistas na segunda-feira que ‘nenhum abatimento de impostos’ resolverá o problema da inflação alimentar, acrescentando que mais de 2 milhões de canadenses, ou cerca de 5% da população, dependem agora de bancos de alimentos, o maior número já registrado.

Shachi Kurl, presidente da organização de pesquisas eleitorais sem fins lucrativos Angus Reid, afirmou que, apesar do custo dos alimentos figurar constantemente entre as principais preocupações dos canadenses, as repetidas ameaças de Trump de anexar o país se tornaram uma questão ainda mais relevante para os eleitores.

‘Por enquanto, os preços dos alimentos não são uma questão eleitoral’, disse Kurl. ‘Mas se os canadenses acharem que isso é algo pelo qual podem responsabilizar seus líderes, pode vir a ser.’

Ashton Arsenault, que foi assessor de um ministro conservador durante o governo do ex-líder Stephen Harper, afirmou que os preços exorbitantes dos alimentos deveriam representar uma oportunidade para os conservadores conquistarem mais apoio popular, mas que o aumento constante dos preços ao longo dos anos fez com que a maioria dos canadenses se resignasse à inflação.

‘Mesmo quando as coisas ficam realmente ruins, ainda somos muito canadenses e educados, e não vamos às ruas protestar’, disse ele. ‘Este é um problema muito difícil de resolver e exigirá coragem política para isso.”

O leitor pode perceber que o mundo desenvolvido também sofre com o custo dos alimentos, creio que é uma questão de tempo a balança geopolítica pender na direção dos países que mais produzem e exportam alimentos como Brasil.

“Você criou o fogo e então pensou: ‘Ei, vamos ver para que serve esse troço. Beleza! … Não precisamos mais comer mastodonte cru! Quero o meu malpassado, por favor. Ah, merda, taquei fogo no Zé!’ — Opa, foi mal, Zé. Agora, você precisa descobrir como tratar uma queimadura. E como enfrentar alguém que goste de tacar fogo em outros zés e, talvez, queimar a aldeia. Quando menos se espera, você evoluiu e tem hospitais, tiras, controle climático e carne de porco por encomenda” – Nora Roberts na obra “Origem mortal”

*Consultor em Agronegócio

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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