Agricultura de precisão ainda engatinha no Brasil por falta de mão de obra e internet

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A deficiência na formação de mão de obra e a inexistência de conectividade de internet em grandes áreas do interior foram apontadas por especialistas durante audiência pública da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural como os principais empecilhos à difusão da agricultura de precisão (AP) no país.

Esse modo de produção usa tecnologias como GPS, sensoriamento remoto e análise de imagens obtidas por satélite no campo para aumentar a produtividade e o lucro por meio da detecção de áreas mais ou menos produtivas dentro da mesma plantação.

As ferramentas, como o uso de drones ou sensores nos tratores, são capazes de detectar, dentro da mesma lavoura, áreas com índices três vezes maiores ou menores de produção, o que facilita a correção do solo e o uso de insumos de maneira pontual e precisa.

José Paulo Molin, representante da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão, mostrou mapas de plantações de cana-de-açúcar em que algumas áreas produziam 50 toneladas por hectare e outras 150 toneladas.

“O objetivo da agricultura de precisão é otimizar o uso de insumos, aumentar a produtividade e a qualidade dos produtos, além de minimizar impactos ambientais”, explicou.

Preocupações

Deputados da comissão manifestaram preocupação com os custos e a formação da mão de obra. “Como é que nós poderíamos trazer esse processo em um contexto de mão de obra com pouca capacitação no campo?”, perguntou o deputado Valdir Colatto (PMDB-SC).

“Como é que a gente consegue fazer com que essas tecnologias, esses conhecimentos, cheguem lá na pontinha, lá onde não tem internet, onde o celular não pega?”, reforçou o deputado Heitor Schuch (PSB-RS).

15% dos produtores

Não existem dados precisos sobre o uso dessas tecnologias no país, mas José Paulo Molin, com base em informações fornecidas por uma empresa que atua na área de grãos, estima que 15% dos produtores agrícolas adotam a tecnologia para aumentar a eficiência.

Para difundir essas técnicas, Molin sugere a adoção de incentivos fiscais para baratear equipamentos como GPS, o aumento da área servida por banda larga e melhorias na formação de mão de obra.

“O operador de trator de 15 anos atrás não tem mais espaço. Precisa saber operar o computador. E como fazer isso sem conectividade no campo? Precisamos oferecer à comunidade soluções aceitáveis do ponto de vista técnico”, disse.

Formação

A formação de mão de obra especializada foi um dos principais temas da discussão. O pesquisador Luis Henrique Bassoi, da Embrapa Instrumentação, apontou uma maior interação na atuação de entidades de pesquisa e formadores de mão de obra para difundir o uso da tecnologia.

“É preciso usar o sistema S, em especial o Senar [Serviço Nacional de Aprendizagem Rural], em consonância com institutos de pesquisa como as universidades e órgãos de fomento, como Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] e CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], assim como ampliar a capacitação de professores”, acrescentou.

Ele também considera fundamental o desenvolvimento de tecnologia nacional para facilitar o uso dos softwares e equipamentos pelo homem do campo e baratear a manutenção dessas ferramentas. “A eletrônica precisa de padronização para que os softwares rodem em qualquer computador. Isso tem sido um obstáculo, e muita gente faz até adaptações, com gambiarras, nas cabines dos tratores”, disse.

Márcio Moreira, presidente da Comissão Brasileira de Agricultura de Precisão, órgão ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, foi na mesma linha. “Nós vamos ter que desenvolver agricultura de precisão voltada para a agricultura brasileira. Por isso, é importante desenvolver tecnologia nacional ou adaptar tecnologias estrangeiras”, disse.

João Alfredo Saraiva Delgado, diretor de Tecnologia da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), apontou o investimento em startups como uma das maneiras de propagar e baratear a tecnologia.

“Como é que um fazendeiro pode usar agricultura avançada? Ele precisa de alguém que entenda de inteligência artificial, comunicação máquina-terra, big data. Isso sai muito caro e as startups podem ajudar a popularizar a tecnologia”, disse.

A deputada Tereza Cristina (PSB-MS), uma das autoras do pedido de realização da audiência pública, resumiu o problema. “Daqui a 30 anos o Brasil terá a responsabilidade de alimentar 40% do mundo. E isso será feito com o uso dessa tecnologia e o investimento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico”, disse.

Da Agência Câmara

 

AGROEMDIA

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