Bela Gil: “Só a agroecologia pode colocar comida no prato de todo mundo”

 

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Painelistas reforçam importância da alimentação saudável – Irene Santana/Embrapa

“Só a agroecologia pode colocar comida no prato de todo mundo” disse a chef cozinha natural, apresentadora de TV e bloqueira Bela Gil, ao participar da mesa-redonda “Agroecologia, Saúde e Alimentação”, durante o Congresso de Agrecologia 2017. O evento começou na terça (12) e termina nesta sexta-feira (15), no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.

Famosa por utilizar ingredientes 100% brasileiros em seus preparos e, muitas vezes, produzir o que consome, como a polêmica pasta de dente de cúrcuma e o blush de urucum, Bela Gil dividiu a mesa-redonda com a chef Bel Coelho, a nutricionista Neide Rigo e a nutróloga Clara Brandão.

“O problema da falta de comida está no sistema de produção e distribuição, que são falhos. O problema da fome não é técnico, é político”, enfatizou Bela Gil, que tem 1,1 milhão de seguidores no Instagram.

Bela Gil falou sobre o que significa ter uma alimentação saudável para uma plateia cuja maioria das pessoas, assim como ele, condena o uso de agrotóxicos e transgênicos. “É o que faz bem para o nosso corpo físico, mental e espiritual e respeita a natureza, o meio ambiente e valoriza o trabalho daqueles que colocam a comida no nosso prato.”

A chef de cozinha Bel Coelho, dona dos premiados restaurantes Dui (fechado em 2013) e Clandestino, reforçou a preferência pela agroecologia. “Gosto de buscar a origem dos produtos que sirvo, o quem são as pessoas por trás dos alimentos.” Ressaltou ainda que sua luta tem sido incentivar as pessoas a consumirem coisas nativas e a diversificarem a dieta. Ela lembrou que 75% do que comemos vem da agricultura familiar.

Além das commodities

“A solução está no campo. Não é tão difícil, basta ter vontade política que ela pode acontecer. Transformar o agricultor familiar no mais próximo possível da produção orgânica é mais fácil do que convencer os grandes monocultores, que não nos dão alimento, mas ração”, afirmou Bel Coelho.

“Quero lutar para que o Brasil não seja só um país de commodities. Temos que começar a beneficiar os nossos produtos, vender não só o café e o cacau, mas o chocolate com uma característica brasileira, tropical”, acrescentou Bel Coelho.

Para a nutróloga Clara Brandão – criadora da famosa multimistura (uma farinha composta por farelo de arroz, pó de folhas verdes, sementes e casca de ovo, responsável pela recuperação nutricional de inúmeras crianças em todas as regiões do país) – a má alimentação pode afetar o cérebro tanto quanto as drogas. “O maior problema não é a falta de alimento, é a falta de qualidade, a chamada fome oculta”, assinalou a médica.

Clara citou algumas das principais deficiências nutricionais dos brasileiros, como a de vitaminas do complexo B e cálcio, e falou dos benefícios da multimistura na complementação alimentar. A nutróloga também relacionou a violência à má alimentação, capaz de, segundo ela, causar mudanças no comportamento e no aprendizado. “Não adianta colocar polícia na rua, temos é que melhorar a alimentação do planeta. A alimentação saudável preserva o patrimônio genético”, observou.

Remédios nas plantas

Autora do blog Come-se e colunista do caderno O Paladar do Estadão, a nutricionista Neide Rigo iniciou a sua fala afirmando que há muitos remédios escondidos nas plantas, mas muitas pessoas ainda preferem ir até a farmácia atrás das drogas.

Nascida na periferia de São Paulo, Rigo disse que sempre carregou consigo o ser rural e agrícola que ela acredita que todos são. “Eu acredito que a gente nasce sabendo plantar e cozinhar. Mas tudo isso é tolhido desde a infância”.

Contrária à indústria alimentícia, ela encontrou no blog “Come-se” uma maneira de retomar o que fazia desde criança que é descobrir tudo o que existe para se comer. “O blog serve para mostrar um pouquinho o que existe no Brasil, o que as pessoas comem, resgatar um pouco da cultura alimentar e ao mesmo tempo mostrar o que a gente tem de comer por perto”, disse.

Neide lembrou que 90% do que se come hoje vem apenas de 20 espécies alimentícias, ao passo que existem pelo menos 12.500 espécies catalogadas e estima-se que 30 mil estejam esquecidas, entre espécies nativas e exóticas.

“Há várias plantas sendo negligenciadas e cortadas da alimentação. Por isso eu acho muito válido a gente ter conhecimento de outras culturas quando se trata de fazer um melhor aproveitamento do que já está aqui no Brasil”, assinalou Neide.

 

 

AGROemDIA

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