Planeta corre risco de extinção em massa de alimentos, alerta estudo

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Cafezais são ameaçados pelas mudanças climáticas – Daniel Medeiros/Embrapa

“Até 22% das espécies de batatas existentes devem entrar em extinção até 2055 devido às mudanças climáticas. Cacaueiros em Gana e na Costa do Marfim, de onde se originam 70% do chocolate mundial, podem não sobreviver a um aumento da temperatura global de 2 °C. Na Tanzânia, as plantações de café já produzem metade do que produziam em 1960.”

O alerta é da diretora-geral da Bioversity International, Ann Tutwiler, em artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian. Tutwiler é coautora do relatório sobre o risco de extinção de alimentos provocado pelas mudanças climáticas, divulgado esta semana pelo grupo de pesquisa da Bioversity International.

“Nos últimos tempos, houve muita discussão sobre a chamada sexta extinção em massa, mas as graves consequências para os alimentos têm ficado em segundo plano”, diz o relatório. De acordo com o grupo, das estimadas 7 mil espécies vegetais comestíveis, 30 são usadas majoritariamente para alimentar o mundo.

A agência de notícias alemã Deutsche Welle informa que o documento, com quase 200 páginas, apresenta evidências de que investimentos em biodiversidade agrícola podem desempenhar um papel-chave na redução da fome, da desnutrição, da degradação ambiental e das mudanças climáticas.

“De alguma maneira, essa questão [da agrobiodiversidade] foi negligenciada, assim como acontecia com a agricultura orgânica há 20 anos, quando era vista como algo de nicho”, afirma Ann Tutwiler.

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Até 22% das espécies de batatas devem entrar em extinção até 2055 – Zineb Benchekchou

Cultura agrícolas

Somente três culturas agrícolas – arroz, milho e trigo – fornecem cerca de 50% do total de calorias consumidas mundo afora. “Em quase 80% das áreas dedicadas ao cultivo de cereais são plantadas apenas essas três variedades vegetais. Qualquer ameaça a esses alimentos provocada pelas mudanças climáticas poderia ser devastadora”, adverte o grupo de pesquisadores.

A solução seria substituir a monocultura pelo cultivo de diferentes tipos de alimentos. “A biodiversidade precisa ser integrada à agricultura”, enfatiza Tutwiler.

A diretora-geral da Bioversity International destaca que uma série de variedades tradicionais de sementes têm traços únicos que as fazem resistentes ao calor, a secas e a enchentes. “Elas precisam ser encontradas, preservadas e usadas em programas de desenvolvimento de culturas agrícolas.”

A agrobiodiversidade, acrescenta Tutwiler, é a maneira mais efetiva de reduzir os efeitos das mudanças climáticas na produção de alimentos.

Outra solução para enfrentar a extinção de alimentos seria criar demanda por diferentes culturas agrícolas. “Hoje temos demanda por café da Etiópia, por quinoa da Bolívia e dos Andes”, observa Tutwiler. “Essas eram culturas que haviam sido completamente esquecidas. E em parte por meio dos nossos próprios esforços elas foram conservadas e agora têm um valor econômico.”

A agrobiodiversidade inclui estratégias como rotação de culturas e não deve ser apenas aplicada a pequenos agricultores, ressalta Tutwiler.

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Cacau pode não sobreviver a aumento da temperatura global – Ceplac/GOV/BR

Agricultura industrial

A Bioversity International assina ainda que os sistemas agrícolas industriais, que produzem a maior parte dos alimentos consumidos no mundo, estão impulsionando as mudanças climáticas e a degradação ambiental.

Segundo o estudo, a agricultura é responsável por 24% das emissões de gases do efeito estufa mundo afora e é a maior consumidora de água doce do mundo.

Mais de 60% das 5.497 espécies que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) classifica de ameaçadas são impactadas pela agricultura.

A extinção em massa também será o foco da conferência internacional Extinction and Livestock (Extinção e Pecuária), que tem início no próximo dia 5 de outubro, em Londres. No evento, será discutido como transformar os sistemas alimentares e agrícolas globais em prol das pessoas, do planeta e dos animais.

“A agricultura intensiva causa um enorme dano à vida selvagem, às pessoas e ao meio ambiente e é um dos principais fatores que contribuem para a extinção de espécies e a perda de biodiversidade no planeta”, diz Philip Lymbery, CEO da organização Compassion in World Farming e um dos organizadores do evento em Londres.

Lymbery afirma que, enquanto se fala muito nas mudanças climáticas e na caça furtiva para explicar a extinção de espécies, a indústria da carne, assim como os cereais e a soja cultivados para alimentar o gado, são o problema fundamental.

Segundo o especialista, a quantidade de cereal e soja usada como alimento para animais na pecuária mundo afora seria suficiente para alimentar 4 bilhões de pessoas. Ele classifica de “loucura em um prato de comida” a perda de biodiversidade devido à produção de carne, leite e ovos.

 Da redação, com DW Brasil

AGROemDIA

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