Algodão: Dia de Campo da Amipa reúne mais de 500 pessoas

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Foto: Ampipa/Divulgação

No maior evento técnico da cotonicultura de Minas Gerais, a Associação Mineira de Produtores de Algodão (Amipa) reuniu 525 produtores rurais, representantes da indústria têxtil, corretores e tradings, expositores, cotonicultores familiares associados da região norte do estado e profissionais de agronomia de cinco países da África que estão no Brasil em busca de treinamento e conhecimento de tecnologias aplicadas pelos produtores mineiros no cultivo do algodão. O Dia de Campo ocorreu na última quarta-feira (27), em uma fazenda da Amipa, no distrito de Santana de Patos, em Patos de Minas.

O balanço final do evento foi considerado bastante positivo pela organização. O público estimado para esse Dia de Campo era de aproximadamente 350 convidados, mas compareceram mais de 500, num dia em que a seleção brasileira esteve em campo pela Copa do Mundo. “Foi uma satisfação e uma grata surpresa a presença de tantas pessoas em nosso campo de testes da Fazenda Amipa, ainda mais tendo a concorrência o jogo da seleção”, disse o presidente da Amipa, Daniel Bruxel.

“Esse público mostra a força da cotonicultura mineira. O Dia de Campo Amipa é um tradicional evento do setor mineiro. O seu formato prioriza o relacionamento entre diferentes players do agronegócio algodão e os debates durante o evento são extremamente técnicos”, completou Bruxel, destacando o bom momento vivido pelo algodão.

Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o primeiro levantamento da safra 2018/2019 sinaliza um crescimento na intenção de plantio no país em torno de 12,5%, elevando a área plantada com algodão para 1,330 mil hectares. Em Minas Gerais, na atual na safra 17/18, foi obtido aumento de plantio de 58% e a expectativa para a próxima safra 18/19 é de crescimento de 25% na área plantada no estado.

Os campos demonstrativos de competição de variedades foram um dos pontos altos no Dia de Campo. “Com 18 variedades plantadas e quatro estações técnicas sob a responsabilidade das empresas detentoras dos registros das variedades, o público assistiu a apresentações específicas sobre a genética e o potencial de cada uma dessas variedades de algodão”, disse o diretor-executivo da Amipa, Lício Pena de Sairre.

Nos estandes das empresas multinacionais de químicos e de maquinários, o evento ofertou uma gama de informações sobre as novas tecnologias aplicadas à agricultura e, na tenda principal, foram proferidas quatro palestras com temas relacionados ao mercado de algodão, ocupação e uso de terras, sistemas produtivos e manejo de pragas com enfoque no controle biológico.

“Com 525 inscritos, o Dia de Campo Amipa 2018 reafirmou o compromisso da associação de conceber a cada ano um evento à altura do agronegócio algodão de Minas Gerais”, salientou Lício.

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Lício Pena, diretor-executivo da Amipa – Foto: Luize Hess/Amipa

Entusiasmo

Primeira vez no evento e novato na cotonicultura, o produtor rural Fausto da Silveira, da região do Coromandel (MG), ficou entusiasmado. “É a minha primeira safra de algodão e este o meu primeiro dia de campo. Fiquei muito impressionado com a organização, quantidade de pessoas e informações técnicas apresentadas”, disse.

Ele acrescentou ainda estar muito satisfeito com o algodão, tanto que nesta safra, em seu primeiro ano de investimento na cultura, plantou cerca de 300 hectares e que para próxima temporada pretende mais do que triplicar a área cultivada, elevando para 1.000 hectares dedicados ao plantio do algodão.

O agricultor familiar Dilson de Freitas, associado da Amipa, enfatizou que cada dia de campo da entidade é uma surpresa e uma oportunidade a mais de aprendizado, que incentiva os produtores do norte de Minas a continuarem firmes com a cultura do algodão numa das regiões mais agrestes do estado. “O apoio da Amipa, para nós, pequenos produtores é fundamental”. Dilson foi um dos mais de 40 produtores familiares presentes no evento.

Integrante de uma comitiva de 40 africanos de Moçambique, Quênia, Tanzânia, Zimbábue e Malawi, o moçambicano Celestino Domingos é engenheiro agrônomo em seu país de origem. Eles e os demais membros da comitiva vieram ao Brasil, especificamente para Minas Gerais, em busca aprendizado. Após frequentar aulas teóricas na Universidade Federal de Lavras (UFLA), marcou presença no Dia de Campo para conferir in loco tecnologias aplicadas pelos cotonicultores mineiros.

“Estou impressionado com a qualidade do algodão e a tecnologia utilizada na cultura. Aqui os agricultores são mais aplicados e organizados e têm instituições que velam por suas produções e comercialização de suas safras”, assinalou. Domingos também elogiou o evento e a atenção com que a Amipa cuida dos interesses de seus associados.

 Palestras

As palestras foram outro ponto alto do Dia de Campo 2018 da Amipa. O analista do departamento de Pesquisa e Análise Setorial do Rabobank Brasil, Victor Ikeda, por exemplo, falou sobre “Perspectivas para o Mercado do Algodão Safra 2018/2019 e Estratégias de Compra de Insumos”. Segundo ele, as cotações do algodão no Brasil apresentaram significativos aumentos, recentemente, atingindo os maiores valores nominais dos últimos sete anos. Contribuíram para esse cenário as altas no mercado internacional (que refletem as condições críticas de lavouras nos EUA), desvalorização do real e oferta limitada (em função da safra 2016/17 estar praticamente toda comercializada e a colheita da safra 2017/18 ainda estar em fase inicial).

“Nos atuais patamares de preços e com custos relativamente formados, seria interessante os cotonicultores iniciarem a comercialização da safra 2018/19, uma vez que há bons indicativos de margens. Além disso, o momento pode ser oportuno para a comercialização, pois com perspectivas de aumentos dos estoques globais de pluma (excluindo a China) e incremento significativo de área no Brasil, os atuais patamares de preços podem não se sustentar nos próximos meses”, afirmou.

Atribuição, Ocupação e Uso das Terras no Brasil – Dados do CAR e Cotonicultura Mineira” foi o tema abordado pelo chefe-geral da Embrapa Territorial e doutor em Ecologia, Evaristo de Miranda. Ele explicou que a Embrapa Territorial pesquisa a contribuição dos agricultores na preservação da vegetação nativa e da biodiversidade em todo o Brasil e que, graças ao Cadastro Ambiental Rural (CAR), é possível dar a dimensão territorial e econômica dessa contribuição.

“No caso de Minas Gerais, em fevereiro deste ano, estavam cadastrados no CAR um total 682.241 imóveis rurais. Todos mapearam, numa imagem de satélite com 5 metros de detalhes, a ocupação e a preservação em seus imóveis”, ressaltou Miranda.

Segundo ele, a equipe da Embrapa Territorial, calculou por geoprocessamento a área dedicada à preservação da vegetação nativa em cada um desses imóveis. Ela representa 33,4% da área dos imóveis quando a exigência legal é de 20%. Os produtores mineiros preservam mais do que é solicitado pela legislação ambiental. Nos cerrados mineiros, onde está a cotonicultura, essa porcentagem sobe para 36,1%.

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Evaristo Miranda, chefe-geral da Embrapa Territorial – Foto: Luize Hess/Amipa

“A partir de dados da Amipa, estudamos o CAR de 86 imóveis dedicados à cotonicultura. Eles preservam em média 37,8% da área de seus imóveis, mais do que a média do estado. Os dados indicam: ninguém dedica mais recursos fundiários, tempo e dinheiro à preservação do meio ambiente do que os produtores mineiros. Essa dimensão econômica e social da cotonicultura poderá ser mais bem avaliada no futuro”, acrescentou Miranda.

O engenheiro agrônomo e consultor da Quality Cotton Consultoria Agronômica, Wanderlei Oishi abordou o tema “Sistemas Produtivos com a Cultura do Algodão”. Ele caracterizou os diferentes tipos de sistemas de produção do algodão, pontuando os pontos fortes e os fracos de cada sistema.

“Quando analisamos o sistema de produção de alta tecnologia presentes nas regiões de altitudes superiores a 700 metros do estado e em áreas de baixa altitude com irrigação, observamos que temos conseguido boas produtividades, mas o custo tem subido mais que o aumento das produtividades alcançadas, estrangulando a margem dos produtores a cada ano. Como estamos passando por um boom da cultura com bons preços, para este e o próximo ano, seria muito importante que foquemos nos pontos fracos e procuremos solucioná-los para que nos anos de preços menores, consigamos ter a cultura viável”, frisou Oishi.

De acordo com o engenheiro agrônomo, para a área de agricultura familiar, ocorre da mesma forma. Por isso, defendeu, é preciso torná-la lucrativa para que consiga se manter e ser sustentável por seus próprios meios. “É uma região onde a cultura poderia ajudar muito a resolver o problema econômico e social da região. Com a participação de todos os produtores da Amipa, do Proalminas e Coopercat poderiam ser feitas iniciativas de pesquisa que possibilitem melhorias nas produtividade e qualidade do algodão da região.”

A etapa técnica do evento foi concluída com a palestra do doutor em Entomologia pela ESALQ/USP e professor do curso de Agronomia do Centro Universitário Moura Lacerda/SP, Alexandre de Sene. Ele falou sobre “Manejo Moderno de Pragas”. Sob esse tema, ele destacou que desde que a agricultura surgiu na Terra, “evoluímos do espantar gafanhotos para as técnicas rudimentares de controle biológico (inocular inimigos naturais nas lavouras), uso de inseticidas químicos, plantas transgênicas Bt e reinventamos o controle biológico, com técnicas de liberação e pulverização modernas”.

“Apesar da filosofia do MIP (manejo integrado de pragas) ter sido definida na década de 1970, nunca estivemos tão próximos de viabilizar integralmente o que era apenas utópico, por meio dos avanços na identificação de pragas e inimigos naturais (equipamentos de identificação instantânea), da possibilidade de instalação de estações de aviso de ocorrência de pragas, do aprimoramento de técnicas de amostragem populacional de pragas (nariz eletrônico e drones para capturas de imagens) e do uso de aviões e drones para a aplicação de produtos biológicos”, pontuou Sene.

O professor sublinhou ainda que várias empresas de biológicos surgiram e as multinacionais de agrotóxicos passaram a enxergar esse novo mercado, lançando produtos à base de micro-organismos. “Hoje, as culturas da soja, milho e algodão contam com vários produtos para o controle de lagartas (e ovos das mariposas), percevejos, moscas-brancas, ácaros, cigarrinhas. Também para as doenças mais importantes, como os parasitoides Trichogramma pretiosum (para ovos de mariposas) e Telenomus podisi (para ovos de percevejos), os mais importantes dos macro-organismos; e ainda os fungos Beauveria bassianaMetarhizium anisopliaeIsaria fumosorosea (para várias pragas) e Trichoderma spp. e as bactérias Bacillus spp. (para doenças e nematoides ou como bioestimulantes), Azospirillum brasiliense e Bradyrhizobium spp. (promotores de crescimento vegetal), os mais importantes dos micro-organismos0”.

Apoio

O Dia de Campo Amipa teve o apoio técnico do Grupo de Estudos do Algodão Mineiro (GEAM) e parceria com o governo de Minas/Secretaria de Agricultura por intermédio do Programa Mineiro de Incentivo à Cultura do Algodão (Proalminas) e Fundo de Desenvolvimento da Cotonicultura no Estado de Minas Gerais (Algominas), Instituto Brasileiro do Algodão (IBA) e Associação dos Produtores de Soja, Milho e Sorgo de Minas Gerais (Aprosoja-MG).

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Foto: Amipa/Divulgação

Da redação, com Amipa

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