Aos 80 anos, Correntina vê distrito de Rosário virar polo agrícola regional

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Foto: RR Rufino/Embrapa

Com 80 anos recém-completados, Correntina, no oeste da Bahia, surgiu de uma vila usada como ponto de apoio para os bandeirantes que no século XVIII trilhavam o caminho do ouro no coração do Brasil. Até os anos de 1980, ela tinha uma economia mediana, movimentada basicamente por plantações de eucalipto e pela agricultura familiar. Nos últimos anos, entretanto, passou a se reinventar graças ao seu distrito de Rosário, a 200 quilômetros da sede do município, localizado na promissora Rota da Soja.

A exemplo de Correntina, Rosário também se desenvolveu inicialmente por ser uma rota de passagem. Desde 1985, um posto de gasolina passou a ser ponto de apoio para pessoas que transitavam pela GO-020, que liga Goiás à Região Nordeste. Mas as semelhanças param por aí. Apesar da relação político-administrativa, as duas localidades têm perfis econômico e cultural bem diferentes.

Correntina tem uma vocação voltada ao turismo regional, graças aos vários rios que cortam a cidade e trazem uma abundância de água. Já o distrito de Rosário, que vem alavancado o PIB da cidade, tem sido responsável pela geração de empregos e oportunidades de renda. Hoje, é um polo do agronegócio, cujas terras têm uma das mais altas produtividades de soja do Brasil.

Neste ano, a região, que já colheu 60% da safra, de acordo com estimativa divulgada pela AIBA (Associação dos Irrigantes da Bahia), está obtendo produtividade de 62 sacas por hectare, número acima da média esperada, que oscilava entre 56 e 59 sacas. Ainda segundo a AIBA, o aumento da produtividade ocorreu devido ao clima favorável, aliado à boa qualidade de sementes e à alta fertilidade do solo.

Foi a partir da década de 1980, com o início do aprimoramento das técnicas de cultivo e de correção do solo arenoso da região, que Rosário começou a mudar a história de Correntina e tornou-se o portal de entrada para a região do Matopiba, a terceira maior fronteira agrícola do Brasil.

Corredor de produção

Corredor de produção agrícola ao longo do Maranhão, Tocantins, Piauí e da Bahia, Matopiba (junção das siglas dos quatro estados) tem dimensão calculada em 414 mil quilômetros quadrados, quase o tamanho da Alemanha. Enquanto a média de crescimento da produção de grãos do país é de 5%, na região de Mapitoba esse número atinge 20% ao ano.

Hoje, o desenvolvimento agrícola de Rosário é responsável por 51,29% do PIB de Correntina, de acordo com os dados de 2015 do IBGE, percentual que vem aumentando ao longo dos anos. Em 2010, a produção agrícola só era responsável por 37% da economia da cidade. O crescimento se refletiu diretamente no PIB per capita anual, que chegou a R$ 39.034 mil e fez com que Correntina saltasse da 20ª para a 11ª posição no ranking estadual em relação à pesquisa anterior.

Rosário faz por Correntina o que o setor agropecuário está fazendo pelo Brasil. Conforme dados do IBGE, em 2017 o setor agropecuário teve com a melhor contribuição para o PIB desde 1996. No ano, o crescimento registrado pelo setor agropecuário foi de 13% e foi responsável por 70% do crescimento do PIB no ano passado, enquanto a economia brasileira teve crescimento 1% abaixo do esperado.

Tradição cultural e autonomia

Com mais de 33 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Correntina é conhecida por sua tradição cultural e é referência de destino turístico na época de carnaval, atraindo pessoas do entorno e de estados vizinhos.

Rosário, por sua vez, tem menos de 6 mil habitantes, um povoado pequeno, mas repleto de singularidades. Seus moradores são migrantes, a maior parte do Sul do país, que começaram a se fixar na região por volta dos anos de 1980 em busca de novas áreas para cultivo.

À distância de 200 quilômetros da sede do município fez com que o distrito buscasse sua própria autonomia. Ele começou a se desenvolver a partir de um posto de gasolina e hoje conta com infraestrutura que outros povoados da mesma dimensão não têm: escolas, hospitais privados restaurantes, hotéis, supermercados. Abriga 10 concessionárias de caminhonetes, máquinas e autopeças agrícolas, além de lojas. Aos poucos, Rosário vem recebendo investimentos imobiliários, com o lançamento de loteamentos e parques aquáticos.

Nelson Stimer, 62 anos, vivenciou o início dessa história. Em 1986, deixou sua cidade natal, Cascavel, no Paraná, para se mudar para Rosário. Comandava uma frente de trabalho para a Eletroluz – companhia energética de sua cidade – e havia adquirido 3 mil hectares de terras naquela região da Bahia com objetivo de testar o cultivo da soja. Quando chegou, sua missão era desmatar o cerrado virgem para formar a área para plantio.

Ele não estava sozinho. Nessa época, um grande movimento migratório estava vindo para a região ainda virgem. “Os fazendeiros paranaenses ficavam enlouquecidos ao ver o solo tão plano e uma região com bom regime chuvas, intercalado com seis meses de seca, o que era ideal para a soja”, relembra.

O solo plano proporcionava melhor rendimento das máquinas, o dobro do que ocorre em regiões de planície como no Paraná, observa Stimer. Além disso, potencializava a absorção de fertilizantes e adubos para corrigir sua característica arenosa e pouco produtiva.

“Os sulistas, que têm tradição no cultivo e buscavam expansão, começaram a arriscar. Havia muitos motivos para dar certo e, caso não desse, o prejuízo não seria tão alto porque a terra era muito barata”, conta ele, que hoje tornou-se corretor de imóveis depois de trabalhar por 15 anos na administração da fazendo que o trouxe para Bahia.

“Na época, brincava-se que as terras custavam um pouco mais que um guaraná. Mas, falando sério, com a venda de 10 alqueires no Paraná, comprava-se mais ou menos mil alqueires por aqui”, calcula.

Hoje, esta conta é bem diferente. Uma fazenda produtiva em Rosário tem preço estimado de 500 sacas de soja por hectare. “Trocando em miúdos, com uma venda de 10 alqueires no Paraná, compra-se no máximo um sítio com 20 alqueires aqui”, diz ele, avisando: “Está bem difícil encontrar terras produtivas à venda”.

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Foto: Posto do Rosário/Facebook

Migrantes apostaram no lugar

Os produtores rurais migrantes resolveram apostar no lugar. E já na primeira colheita notaram que haviam feito a escolha certa. “Foram experiências, houve perdas, mas logo se percebeu que valia a pena continuar”, recorda Stimer.

A fazenda onde ele trabalhava se tornou uma grande produtora de soja, com sementes que são vendidas para todo o Brasil. As primeiras colheitas eram de 20 a 25 sacas por hectare, mas hoje a produtividade mais que dobrou.

A soja se tornou a principal cultura da região: são cerca de 371 mil hectares plantados, conforme a Associação dos Produtores de Soja no Brasil (Aprosoja), com produtividade acima da média nacional.  Mas há destaque também na produção de milho e algodão.

Um dos pioneiros do agronegócio em Rosário, o produtor Paulo Frasson, há região há 27 anos, espera bons números na safra deste ano. Com a colheita já iniciada, ele tem atingido uma média de 65 sacas por hectare.  Na propriedade de Frasson foram plantados este ano 3.800 hectares, que devem resultar em cerca de  247.000 sacas.

Gaúcho foi outro que resolveu arriscar nas terras baratas no oeste da Bahia dos anos 1980. “Tudo estava começando. Percebi que era o momento e o local certo para investir, dedicar meu trabalho e começar a minha vida.” No começo, acrescentou, eram muitas dificuldades para produzir na região. “Não tínhamos estrutura, não tínhamos estrada. Era difícil a chegada de insumos para a produção e mão de obra.”

Mas o panorama mudou muito. Na fazenda de Frasson, como em todas as outras de grande produção de soja, a safra é totalmente mecanizada. São utilizados equipamentos de ponta e oferecidas oportunidades de trabalho para uma mão de obra mais especializada e qualificada e, portanto, com melhores salários.  Atualmente, ele emprega 15 pessoas de forma direta e cerca de 60 indiretamente.

Posto de combustível

O distrito de Rosário também atraiu pessoas que não estão diretamente ligadas ao agronegócio, mas acreditaram no futuro promissor da região. Uma delas é a paranaense Rosângela Martins, que trabalha no departamento financeiro no Posto do Rosário desde 1988. “Quando cheguei aqui, só existiam as casas dos funcionários do posto e mais duas ou três casas”, lembra.

Rosângela relata que foi muito desafiador aceitar a proposta para deixar Cascavel, que na época já era uma cidade estruturada e vivia anos de ouro na economia, para se mudar para Rosário. “Trabalhava no escritório de contabilidade que atendia o grupo Rosário e recebi uma proposta que financeira e profissionalmente seria melhor. Era a oportunidade de começar uma nova história.”

Num ritmo acelerado, narra Rosângela, surgiram casas, pessoas novas e negócios. O próprio posto, onde ela trabalha, cresceu e virou uma referência para a região. No início, tinha apenas oito bombas.

Hoje, o empreendimento tem hotel, restaurante, borracharia, oficina mecânica, auto elétrica, loja de acessórios/lubrificantes, loja de conveniências, mercado, serviço de transportes, banho para motoristas e churrasqueiras externas. Para atender à demanda, o estabelecimento emprega 120 pessoas diretamente e é o mais estruturado ponto de parada para quem atravessa o interior da Bahia, vindo de Goiás.

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