Contaminação de milho por toxina põe Tocantins em alerta

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Presença de aflatoxina no milho preocupa produtores de Tocantins – Embrapa/Divulgação

A presença da aflatoxina no milho produzido em Tocantins preocupa produtores, técnicos, exportadores e consumidores. Segundo a Secretaria do Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária (Seagro) do estado, cerca de 500 mil sacas foram barradas para a venda. Entretanto, o prejuízo pode ser ainda maior, assinalou Tadeu Teixeira Jr, gerente de Agricultura da Seagro. A aflatoxina é um tipo de micotoxina das mais nocivas do mundo, considerada o agente natural mais carcinogênico que se conhece.

“Essa micotoxina é altamente perigosa, porque mesmo quando o milho é processado ela não morre. Então, ela pode ser encontrada em inúmeros alimentos processados, como flocos de milho e até na cerveja. Pior: se o animal consumir o milho contaminado, transmite aflatoxina para a carne e o leite”, alertou Rodrigo Véras da Costa, engenheiro agrônomo, pesquisador e especialista em fitopatologia da Embrapa Milho e Sorgo (Sete Lagoas/MG).

Entre as diversas doenças provocadas pela toxina, de acordo com nota divulgada pela Embrapa Pesca e Aquicultura/TO, estão câncer de fígado, depressão, hemorragias, dores abdominais, ataxia (perda do controle muscular), entre outras. A contaminação por aflatoxinas é um dos problemas que podem comprometer a qualidade do grão, inviabilizando seu consumo nas mais diversas cadeias produtivas.

Para tratar do assunto, a Seagro/TO e a Embrapa promoveram, nessa quinta-feira (1º), um encontro em Palma, no qual o pesquisador Véras fez palestra sobre o tema Aflatoxinas em Milho: Identificação e Manejo”. Cerca de 150 pessoas – inclusive de outros estados – participaram do evento, cujo objetivo foi o de esclarecer os impactos do problema em todos os elos: produtores, técnicos, exportadores e consumidores.

Durante o encontro foram abordados os motivos, prevenção, níveis de tolerância, identificação e métodos de detecção da incidência da aflatoxina na cultura do milho.

Véras disse na palestra que o problema é muito sério. Em geral, observou, as pessoas conhecerem pouco sobre o assunto. A aflotoxina, acrescentou, é um composto tóxico produzido por fungos que crescem e se alimentam dos grãos.

“Esses fungos têm potencial de causar problemas à saúde humana e animal, é um problema de saúde pública. Por isso, existe uma legislação específica para tratar do assunto com relação aos níveis da presença dessas microtoxinas nos grãos e nos diversos alimentos”, enfatizou Véras.

O palestrante explicou também onde e como o fungo cresce e em quais condições. “O problema pode acontecer desde o plantio e vai até o final da comercialização e industrialização. Os cuidados devem começar com o plantio, escolha de sementes e tratos culturais, no manejo.”

Contenção e prevenção

A reunião foi pedida pelos próprios produtores e cooperativas que armazenam os grãos para comercialização e exportação. “Este ano foi detectada a presença da microtoxina em grãos produzidos no estado, em níveis altos. Isso pode atrapalhar a comercialização, principalmente as exportações, porque os países importadores são muito criteriosos e exigentes em relação à presença dessas toxinas. Então, o milho para exportação sempre passa por essas análises e, se tiver a presença da aflotoxina, o produto comprado é devolvido e eles vão buscar milho em outros mercados”, destacou Véras.

“O problema ainda é incipiente, mas pode se potencializar e temos que começar a usar medidas de prevenção e contenção desde já”, completou o pesquisador.

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Produtores buscam esclarecimentos sobre prevenção à toxina-  Jefferson Christofoletti/Embrapa

Provocada pelo fungo Aspergillus flavus, que coloniza e causa o mofamento dos grãos, a aflatoxina é resistente ao tratamento com fungicidas, que encontram dificuldade de atingir o alvo. Como acomete a espiga do milho e fica envolta a uma massa de olhas, o agroquímico não consegue chegar ao local onde está o fungo. Além disso, a micotoxina é altamente contagiosa e pode ocorrer em qualquer momento: do plantio à industrialização, passando pela colheita, armazenamento e transporte.

“A melhor forma é prevenir”, salientou Véras, acrescentando que temperaturas elevadas e períodos de seca na fase de pré-florescimento favorecem o aparecimento do fungo. Nesse sentido, o clima do TO é extremamente propício à contaminação. “No período de plantio, temos um clima quente e úmido e isso é tudo o que o fungo quer para se reproduzir”, detalhou ele.

Para prevenir a doença, o produtor deve tomar uma série de medidas, a começar pela escolha de híbridos mais resistentes e plantar na época certa, evitando o estresse hídrico na fase do pré-florescimento. Também deve controlar os insetos, pois eles fazem furos na planta que favorecem à contaminação do fungo. A colheita, igualmente, deve ser na época correta, evitando-se deixar o milho por longos períodos no campo.

Além disso, as colheitadeiras precisam estar devidamente calibradas para evitar quebra dos grãos durante a colheita – o que também favorece a entrada do fungo. Limpeza e secagem correta dos grãos, além de armazenamento adequado em depósitos em boas condições higiene são medidas que devem ser adotadas para evitar a ocorrência de micotoxinas.

“O produtor de Tocantins deve ser extremamente cuidadoso e o objetivo dessa palestra foi chamar atenção sobre isso. Temos a ideia inclusive de criar um grupo de trabalho voltado para alertar todos os agentes envolvidos na cadeia do milho para que esse problema não prejudique ainda mais a produção. O que aconteceu este ano já é um alerta”, afirmou Véras.

“Não sabemos ainda o que está acontecendo”

O produtor de milho do município de Bom Jesus do Tocantins, Alberto Mazola, falou sobre a importância da reunião para os agricultores. “Provocamos a reunião porque temos uma preocupação muito grande para conter o problema da aflatoxina, que atrapalha as exportações. Não sabemos ainda o que está acontecendo, já que nosso milho é colhido seco e teoricamente não deveria existir o fungo.”

Tadeu Teixeira Jr lembrou como a Seagro descobriu os casos de aflatoxina no TO. “Uma grande empresa exportadora de grãos entrou em contato conosco para relatar sobre a rejeição de seus lotes de milho. A princípio a demanda era ligada a questões tributárias, mas ali acendeu um alerta e fomos saber se o problema era local ou se atingia outras empresas.”

Depois de uma consulta a mais de 30 armazenadores do estado, a Seagro soube que várias estavam com o mesmo problema de contaminação. “Foi quando tivemos a ideia de organizar o encontro em parceria com a Embrapa.”

O temor dos produtores e empresários é que o estado seja visto como produtor de grãos contaminados e perder possíveis compradores. “O Mato Grosso, que é um grande produtor de milho, é tido como fornecedor de grão saudável, limpo. Se o Tocantins pegar esse estigma de exportador de grão contaminado pode inviabilizar plantio de milho no estado”, pontuou Véras.

Da redação, com Seagro/TO e Embrapa

 

 

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