A política e a técnica no Mapa de Bolsonaro

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Moyses Barjud, ex-presidente da Aprosoja do Piauí – Divulgação

Moysés Barjud*

Integrei a diretoria da Aprosoja Brasil quando seu presidente era Glauber Silveira. Ali permaneci quando gerida por Almir Dalpasquale até a eleição de Marcos da Rosa, cujo nome fiz oposição inicialmente (eu acreditava ter que ali fingir ser grande para bem representar o meu pequeno Piauí e fazer-me ouvido) até ser alcançada uma chapa de consenso tendo seu nome no topo. Em pouco tempo, a sinceridade e firmeza de caráter do Marcos ganhou minha admiração. Concluído meu segundo mandato como presidente da seccional piauiense da Aprosoja, deixei também a diretoria nacional, voltando, assim, à minha origem: o Sindicato dos Produtores Rurais de Bom Jesus/PI.

Como todo ex tem lá sua serventia, sentaram-me na cadeira do Conselho Consultivo da Aprosoja piauiense, de onde passei a assistir aos eventos em Brasília, torcendo, me irritando, comemorando, mas, em todas as situações, aprendendo a lição que os três nomes acima me ensinaram: todos precisamos ser políticos.

Não me refiro à velha política de propinas na forma de cargos, de recursos desviados, de reformas e até de dinheiro. Me refiro à política que tem como ferramenta o diálogo, este a via de exposição das ideias, o combustível da Democracia. Eu não precisava fingir ser grande: bastava ter a capacidade de tecnicamente expor uma boa ideia viável. Isso não é política?

Discordo, pois, da premente necessidade – ao menos assim é tratada – de um nome puramente técnico para ocupar o Ministério da Agricultura e Meio Ambiente (em conjunto ou separadamente, sei lá…) como queria o presidente eleito Jair Bolsonaro. Não que discorde de seu projeto, do qual, aliás, sou torcedor fiel e pelo qual oro. Apenas temo que essa exigência abra espaço para incapacidades e ingerências. Como definir qual técnico tem o melhor currículo? Como definir que Nabhan Garcia é mais capacitado tecnicamente do que Marcos da Rosa? Pelos seus acertos na polêmica do Funrural? E seus erros? Seriam a Deputada Tereza Cristina ou o Deputado Luis Carlos Heinze desprovidos de técnica (apesar de ambos serem graduados em Engenharia Agronômica) ou seus nomes não “servem” por simplesmente serem políticos?

Nada contra Nabhan Garcia, o qual sempre teve meu respeito. Também não estou aqui mandando Whatsapp para Bolsonaro indicando os demais citados (nem tenho o número nem credencial para tanto). Apenas registro que certas retóricas podem configurar desserviço e isso, em curto prazo, poderá gerar prejuízos políticos. A forma como ganhou a eleição foi deveras singular e inédita. Tudo é muito novo para Bolsonaro e Bolsonaro e seu modus é algo muito novo para o mundo, que olha para o Brasil com olhar curioso, assim como muitos brasileiros (como eu). Assim, sob tanto foco, o que ele menos deve querer hoje é prejuízo político.

Necessária se faz uma pitada a mais de perspicácia quando da tomada de decisão. O Brasil, ou ao menos 65% de seu povo, não tem ojeriza à política, mas à politicagem e à corrupção. Por mais que tenham tentado ultimamente, a população lúcida sabe a diferença entre os conceitos, e as entidades representativas do agro são compostas por pessoas não só lúcidas como experientes, que sabem identificar quando estão sendo prestigiadas e quando estão sendo manipuladas: e a esta tentativa também sabem reagir.

Paralogismos não podem ter o condão de guiar a Democracia. A República exige transparência e desassombro. Os políticos não podem achar que nenhum de seus pares é técnico em determinada área. Os de pureza técnica, por sua vez, estão enganados se acham que conseguirão sobreviver à política.

Precisamos de técnicos que tenham capacidade de expor suas ideias no ritmo da boa política, como um dia testemunhei na Aprosoja Brasil. É isso que o agronegócio merece, faria bem ao Brasil e ao Piauí. No final das contas, apesar de eventual crítica que certamente receberá, acertou o Presidente eleito ao escolher, por fim, o nome da Deputada Federal e Engenheira Agrônoma Tereza Cristina, que terá habilidade política para defender as causas do agronegócio, mais ainda por ter a capacidade técnica para entendê-las e bem assessorar-se em Brasília e nos Estados.

*Conselheiro da seccional Piauiense da Associação Brasileira dos Produtores de Soja, Presidente em exercício do Sindicato dos Produtores Rurais de Bom Jesus/PI

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