Setor brasileiro de algodão prevê recorde de produção e de exportação

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Brasil deve passar a ser o 2º maior exportador mundial da pluma – Abrapa/Divugação

Com estimativa de produzir 2,8 milhões de toneladas de algodão em pluma, aumento de 31% na comparação com a safra 2017/2018, o Brasil deve bater dois recordes no ciclo 2018/2019. O primeiro, consecutivo, em relação ao volume de pluma, ante a marca anterior de 2,1 milhão de t; e o segundo, nas exportações. A previsão é de embarque de 2 milhões de t de pluma este ano, contra 1,3 milhão de t da temporada anterior. Se as projeções se confirmarem, o país passará a ser o segundo maior exportador mundial da fibra, atrás dos Estados Unidos. No mercado interno, o consumo da commodity é de cerca de 700 mil t.

Os números foram apresentados durante a reunião da Câmara Setorial do Algodão e Derivados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em Brasília, no último dia 28.  O encontro também marcou o término do mandato do ex-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) Arlindo de Azevedo Moura à frente do fórum. A Abrapa sugeriu ao Mapa o nome de seu presidente, Milton Garbugio, para presidir o colegiado no biênio 2019-2020.

Nos 10 estados produtores, a previsão é de incremento de safra, com destaque para Mato Grosso, responsável por 66% da produção nacional. MT ampliou a área de algodão em 300 mil hectares, aumento de 36% em relação ao ciclo anterior, chegando a 1,07 milhão de hectares de lavouras. O estado deve colher 1,8 milhão de t de algodão em pluma.

A Bahia, segundo maior provedor nacional da fibra, plantou 26% a mais, em uma extensão de 333 mil hectares, com expectativa de colher 629 mil toneladas de pluma. Já Goiás, terceiro maior estado em produção, plantou 42 mil hectares, um incremento de 30% em relação ao ano-safra passado, e espera colher 70,7 mil toneladas.

A área plantada nacional foi de 1,6 milhão de hectares, 31% maior que na safra 2017/2018, com produtividade média de 1770 quilos por hectare, uma ligeira redução de 3% no índice, em relação ao período antecedente.

“Estes números colocam o país numa situação de destaque no mercado mundial, fazendo com que o Brasil passe a influenciar na formação do preço da commodity, definido em Nova Iorque. Nos últimos três anos, praticamente dobramos a nossa área plantada, muito em função do mercado, mas também da capacidade do produtor”, assinalou Arlindo Moura.

Exportações

Com uma safra maior, a projeção da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea) é de um volume de 2 milhões de t a serem embarcados, após o abastecimento do mercado interno. “Em vez de concentrar as exportações no segundo semestre, vamos ter uma nova realidade: a de mandar algodão para fora ao longo dos 12 meses do ano. Já nesta safra, a relação de volume por semestre será de 55% a 45%, respectivamente, no segundo semestre de 2019 e no primeiro de 2020, mas em breve esses percentuais vão se equiparar nos dois períodos”, disse o presidente da Anea, Henrique Snitcovski.

De acordo com consultas da Anea junto aos armadores, empresas e instituições portuárias, o Brasil embarcou, de julho de 2018 até a terceira semana de março de 2019, em torno de 1 milhão de toneladas. Os dados oficiais são aproximadamente 50 mil toneladas inferiores.

Até junho, devem partir para o mercado externo 1,3 milhão de toneladas de algodão em pluma da safra 2017/2018. O número é um recorde sobre a marca alcançada em 2011/2012, de 1,03 milhão toneladas. “Se isso se efetivar, superamos a Índia em volume exportado e ficaremos atrás apenas dos Estados Unidos”, ressaltou Snitcovski.

Retomada chinesa

À época do último recorde de exportações, 30% do algodão brasileiro tinham como destino a China, mas os altos estoques mantidos pela política governamental naquele país fizeram com que a demanda diminuísse, chegando a bater em 10%. “Agora, no acumulado do segundo semestre de 2018 ao primeiro de 2019, a China já representa 40% das exportações brasileiras de algodão – cerca de 400 mil toneladas –, e o Brasil segue forte em mercados já consolidados, como Indonésia, Vietnã e Bangladesh, com oportunidades na Turquia e na Coreia do Sul”, enfatizou Snitcovski.

A Anea defende a intensificado do relacionamento com a China, uma vez que o algodão nacional representou, nos últimos anos, cerca de 10% do volume importado por aquele mercado. No ciclo atual de exportações da safra 2017/2018, esse número deve crescer para 25%. “Não podemos nos confortar com esse incremento. Sabemos da perda de competitividade do algodão dos Estados Unidos por causa das restrições tarifárias aplicadas entre os dois países. Temos que aumentar e consolidar a participação do algodão brasileiro no mercado chinês”, reforçou o dirigente da Anea.

Snitcovski acredita que, para isso, além de ser competitivo, o Brasil precisa garantir a regularidade do fornecimento, levando em consideração não só o volume de produção, mas também o tempo do transporte da origem ao destino. “O nosso transit time para a Ásia, principal consumidor, na melhor das hipóteses, leva 35 dias. Em algumas linhas, levam-se 70 dias. Os Estados Unidos entregam em 20 a 22 dias, e a Austrália, entre 10 e 12. São os nossos principais concorrentes.”

Capacidade

Os tempos de fluxo de comercialização e embarque também vão mudar, segundo a Anea, considerando uma safra maior e a distribuição do escoamento ao longo de doze meses. Snitcovski acredita que o país tem condições de se preparar para isso, uma vez que tem alcançado êxitos recentemente. “No final do ano passado, conseguimos, num único mês, exportar 215 mil toneladas de algodão. Se fizemos isso em um mês, temos de estar preparados para repetir o feito o ano inteiro.

Indústria

O mês de março criou perspectivas fortes para o setor de transformação de algodão. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), Fernando Pimentel, o carnaval em março e as chuvas do período aqueceram o consumo no varejo, e, consequentemente, a atividade industrial.

O momento, contudo, foi de queda nas exportações de vestuário e têxteis para a Argentina, em torno de 30%, sem previsão de retomada em curto prazo. O país vizinho representa um quarto das vendas brasileiras, e, segundo Pimentel, a expectativa é “desconfortável”.

Para 2019, a Abit acredita que terá de rever a estimativa de crescimento, que era da ordem de 2% a 2,5% e deve cair para algo entre 1,5% e 2%. “Houve um arrefecimento na expectativa da indústria após toda essa cacofonia no cenário político econômico. Logo após as eleições, fizemos uma pesquisa e tínhamos mais de 80% de ‘ótimo’ e ‘bom’ na percepção para o novo governo. Vamos repetir essa pesquisa, mas temos muita clareza de que aquele ímpeto inicial, pelo menos pela ótica da indústria, diminuiu, apesar das conversas sobre a reforma da Previdência”, disse Pimentel.

Como ponto positivo, o presidente da Abit destacou que, neste inverno, os varejistas poderão dar saída aos estoques que sobraram da temporada do frio do ano passado. “O varejo tem mercadoria no pipeline e, havendo frio, essa sobra vai junto e puxa a produção nacional.”

Em termos de preços no ponto de venda, Pimentel observou que consumidor continua retraído quanto a aceitar pagar por qualquer adicional de valor. O Índice de Preço ao Produtor (IPP) Têxtil e do Vestuário, em 12 meses, teve 7,83% de reajuste. “Mas precisaríamos do dobro disso para compensar os aumentos de custo não só com a matéria-prima algodão, como com energia e outros insumos relevantes”. Ele destaca o aumento nos custos com o corante índigo, na área do jeans, por conta do fechamento de fábricas na China.

Da redação, com Abrapa

 

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