Opinião: “Preço de leite ao consumidor – Quando a mentira fere demais”

Luis Einar Suñé veterinario produtor de leite
Luis Einar Suñé é médico veterinário – Foto: Facebook pessoal

Luis Einar Suñé*

PARTE 1

Escrevo este texto com o espírito embebido de indignação e tenho a absoluta certeza de que milhares de produtores do nosso país compartilham deste mesmo sentimento.

Desejo que estas linhas cheguem ao conhecimento dos gestores dos lares brasileiros, sejam pais, mães, ambos ou outros componentes da família.

Estamos sendo massacrados por um mercado voraz, que ignora o esforço e o comprometimento financeiro que enfrentamos para manter um país abastecido e progredindo.

Repasso-lhes alguns números, apenas do setor de leite. Somos 1,2 milhões de fazendas dedicadas a “entregar” leite puro, obtido de vacas saudáveis, bem alimentadas, vacinadas contra doenças que podem acometê-las. Elas necessitam sim, de cuidados tanto quanto humanos. Digo entregar, pois é esta a palavra correta, e mais:  duvido que outra empresa comercial enfrente esta forma nefasta de operar.

Para vosso conhecimento, uma fazenda produtora de leite, além do compromisso comercial com os laticínios ser puramente verbal, ou seja, não há contrato formal de recebimento ou fornecimento.

“ENTREGAMOS” a nossa produção diária ou no máximo a cada 48 horas, que é o tempo limite para que o leite não estrague dentro dos tanques resfriadores das fazendas. Portanto, somos reféns de nosso próprio produto. Desta forma, inexiste a possibilidade de armazenamento na fazenda e os laticínios sabem que não podemos reter a produção, como o faz qualquer outro setor, tentando melhor preço de venda.

Prestem atenção. Pois começa aqui a crueldade com o produtor de leite. Durante 30 dias ou 1 mês, o laticínio recolhe na fazenda o leite produzido, sem pagar nada e sem que o produtor saiba quanto receberá pelo produto entregue. Podemos estimar, mas nunca ter este valor com exatidão.

Muito bem, passados 25 dias, em média, e após os 30 dias de entrega contínua é que deveremos receber o valor correspondente à litragem fornecida.

Vamos adiante. O leite é pago de acordo com tabelas vigentes em cada laticínio e possuidoras de variáveis que bonificam ou penalizam a quantidade entregue. Classificam o leite de acordo com gordura, proteína, sólidos (o que são os componentes sólidos do leite? Gordura, lactose, minerais e vitaminas), ainda incidem bônus ou ônus por distância até a planta do laticínio, volume que cada fazenda produz.

Tudo acima, pode ajudar no preço final ou ser fator de desconto. Daí nossa incerteza de quanto receberemos no 55º dia após iniciar cada ciclo de entrega.

Some-se a isto, ainda devemos nos enquadrar nas IN 76 (sobre ela, não discuto, pois quem se dedica a produzir alimento deve ter este compromisso como premissa – leite deve ser produzido higienicamente, apresentar segurança alimentar e rastreabilidade).

Esta Instrução Normativa 76, que é uma lei emitida pelo Ministério da Agricultura, faz com que todo o leite enviado aos laticínios seja de qualidade e principalmente – LIVRE de antibióticos. Sim, todo leite que sai das fazendas é testado para várias bases ou princípios de antibióticos na plataforma de qualquer laticínio com inspeção. Então, como muitos habitantes urbanos desconhecem, faço questão de salientar: – O Leite e derivados que chegam as suas casas com o selo de inspeção municipal, estadual ou federal são seguros e livres de resíduos prejudiciais à saúde.

Leite é alimento super seguro sob a ótica alimentar.

Não é objetivo, neste momento, salientar todos os seus benefícios nutricionais, pois é um tema longo e que nos levaria a encontrar propriedades inclusive anti-oxidantes e anti-cancerígenas. Sobre estes benefícios existe uma fantástica gama de artigos científicos publicados.

Uma palhinha aos desavisados: – O Leite é um dos melhores reidratantes que podemos ingerir após exercícios físicos, devido a sua composição energético-eletrolítica equilibradíssima.

Convido-os para uma viagem ao mundo da vaca, do leite e queijo, e lhes contar um pouco sobre nossa atividade. Prestem bastante atenção, pois sei que muitos dos leitores nunca ultrapassaram uma porteira de fazenda. Porteira, é como se fosse a porta de entrada de suas casas.

Ao ingressar numa fazenda, o tempo é outro, muito diferente daquele vivido numa empresa urbana, aqui tudo está sempre em movimento nas 24 horas, 365 dias ao ano.

– Vacas produzem leite desejemos ou não, plantas crescem queiramos ou não, ambas necessitam de cuidados o ano todo. Existem procedimentos com datas inadiáveis para que busquemos sucesso nas produções animal e vegetal. Não determinamos o dia ou a hora para que uma vaca tenha sua cria ou alguém determina quando uma senhora dará luz ao seu filho? Este é um pequeno exemplo do dia-a-dia de uma fazenda. Produtores necessitam entender um pouco de cada atividade, somos agricultores, pois vacas precisam alimentos e para obtê-los temos que semear e fertilizar adequadamente as plantas. Não temos como impedir secas, geadas ou chuvas em excesso, podemos nalguns casos com custo muito alto mitigar tais situações. Precisamos conhecer um pouco de natureza, biologia, matemática, gestão, informática e educação. Somos um mix de tudo para conseguir produzir os alimentos que chegam as vossas mesas.

Soltem as rédeas do pensamento, neste momento de COVID-19, forçados que estão ao isolamento, mas ansiosos para voltarem a produzir e serem úteis à sociedade. Imaginem uma vaca, espero que todos já conheçam, ela tem 4 patas, barriga, boca, cauda, pulmões, 4 estômagos ( ficaram curiosos? ), além de outros, mas tem um muito importante que se chama ÚBERE, por ele passam milhares de litros ao dia, bombeados por um coração potentíssimo. No úbere se processa a filtragem do sangue, órgão este que possui a nobre função de produzir leite, um essencial mistura de gordura, proteína, lactose, minerais, vitaminas e muita água.

Quase esqueço, leite contém água, vacas bebem muita água, entre 60 a 100 litros ao dia, por ser assim, cuidamos muito das nascentes e córregos, sem eles nossas vacas morreriam de sede. Fazendas não são assistidas por empresas adutoras urbanas. Cada produtor tem o compromisso de saciar a necessidade de água de seus animais.

Quando lhe disserem que destruímos, lembrem-se do que falei acima – “vacas necessitam de água e nós cuidamos para que a tenham em abundância, por este motivo preservamos”. Mentem, aqueles que nos acusam de não nos preocuparmos com a natureza.

Leite não nasce em caixinha, estamos entendidos?

Vacas de leite são como carros de corrida, verdadeiras máquinas de produzir alimentos, são transformadoras de vegetais e grãos em alimento nobre, o leite. Ferraris, BMW e Mercedes Benz são carros exigentes, necessitam bons mecânicos, combustíveis especiais, cuidados diferenciados, assim são as vacas, seres vivos diferenciados, e nós, produtores e técnicos, a equipe que as cuida 24hs.

Carros podem parar, vacas não param e se não param, fazendas não param, nunca esqueçam! Produtores não tiram férias, somos ligados na tomada direto. Por este simples fato, vossos mercados sempre possuem alimentos. Reflitam!

Temos um custo enorme para rodar esta complexa atividade, mas fica para um próximo episódio.

*Médico veterinário

 

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