Pandemia aprofunda crise do setor leiteiro, diz produtor catarinense

Jaílson Sartori, pecuarista do setor leiteiro catarinense: “As contas não fecham” – Foto: Arquivo pessoal

O produtor de leite Jaílson Sartori, de São José do Cedro (SC), está prestes a perder parte do seu rebanho. A venda de algumas matrizes para o setor de carnes foi a alternativa encontrada por ele para poder sobreviver nos próximos meses, diante das dificuldades que acentuaram ainda mais a crise vivida pela cadeia leiteira desde o começo da pandemia do novo coronavírus. Jaílson tomou a decisão depois de ver o preço do litro de leite pago ao produtor pelos laticínios cair 15 centavos.

A situação do produtor do município do oeste catarinense de cerca de 14 mil habitantes não é um caso isolado entre os mais de 1,2 milhão de pecuaristas de leite brasileiros. Após os preços do produto reagirem no primeiro trimestre do ano, embora os custos de produção também tenham subido, o setor convive agora com um forte recuo na cotação do leite. Alegando queda nas vendas com a pandemia, os laticínios ignoraram a projeção de alto do preço do leite e reduziram o valor pago aos produtores.

Para Jaílson restaram, mais uma vez, a frustração e os cálculos dos prejuízos. “As contas não fecham”, disse o produtor ao AGROemDIA. “Vendo o leite em real, mas o trato que dou para os animais é pago em dólar. Soja hoje só se fala em dólar, milho também já está se falando em dólar e mineral é igualmente é baseado em dólar. Então, os insumos e os defensivos são todos dolarizados. Com o dólar acima de R$ 5,70, o cenário fica complicado.”

O contexto criado pela Covid-19 é agravado pela falta de expectativa no curto prazo, assinalou Jaílson. “Hoje à tarde [quinta-feira 7], fui à indústria conversar com o pessoal. Falei que o Conseleite [de SC] havia sinalizado um aumento, mas que eles tinham enfiado a faca em nós e baixado 15 centavos [por litro] e perguntei: e o futuro?”, contou. “Não sabemos”, responderam. “Então, qual é a nossa perspectiva?”

Jaílson já chegou pensou em vender todo o rebanho, mas, por enquanto, vai se desfazer apenas de uma parte. “Já agendei a venda de uma carga para a semana que vem e vou mandar embora para o açougue. Não tenho o que fazer. Tenho compromissos e preciso honrá-los”, relatou o produtor, que está há 22 anos no setor leiteiro e tem uma propriedade de 36 hectares.

Jaílson Sartori diz que venderá algumas matrizes para poder sobreviver nos próximos meses – Foto: Arquivo pessoal

Atividade inviável

Para o pecuarista, a atividade leiteira está cada vez mais inviável. “Olha, 15 centavos de baixa por litro é o salário de meus funcionários. Tenho 70 animais na ordenha, que rendem 2 mil e 100, 2 mil e 200 litros de leite por dia. Hoje, recebi ração e o quilo veio a R$ 1,55. Na vez anterior, foi R$ 1,52. Subiu três centavos, e o leite baixou 15 centavos. Comprei insumos para a ordenha e teve aumento de 8%.”

Ele também não acredita que uma mudança no sistema de produção possa trazer melhores resultados. “Aí, aparece alguém e diz para produzir leite a pasto. Num cenário estiagem, pasto vai dar o quê? As vacas vão comer terra? Não, as vacas precisam de comida. Se não chove, não tem comida. Ah, mas põe irrigação. E como vai pagar o investimento? Não é pasto que vai pagar a conta. É o produtor que terá que ir lá pagar. A conta não fecha.”

Membro do grupo Construindo Leite Brasil, Jaílson é igualmente descrente da possibilidade de ajuda de políticos para o setor. “O pessoal [pecuaristas de leite] às vezes fala que temos que buscar apoio dos representantes políticos, ainda mais que este é um ano de eleição. Mas vereadores e prefeitos não vão dar atenção para nós, que queremos cobrar alguma coisa. Eles não vão passar para frente [as reivindicações]. Eles precisam de dinheiro do pessoal das esferas estadual e federal para fazer as campanhas deles e não vão dar bola para nós.”

 

 

 

 

 

 

 

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