Embrapa: Vendas de carne para a China animam, mas exigem cautela

Se por um lado o aumento das exportações brasileiras de carne bovina para a China e Hong Kong trazem otimismo à cadeia produtiva em meio às apreensões provocadas pelos impactos econômicos da pandemia da covid-19 nos mercados interno e externo,  por outro causam grande preocupação, aponta a mais recente edição do boletim do Centro de Inteligência da Carne Bovina (CiCarne) da Embrapa Gado de Corte.  

“A grande dependência de apenas dois compradores é preocupante. Caso ocorra algum problema sanitário, econômico ou político, o Brasil sofrerá uma drástica diminuição em suas exportações de carne bovina e a busca pela diversificação de mercados é recomendável”, avaliam os pesquisadores Guilherme Cunha Malafaia, Paulo Henrique Biscola e Fernando Teixeira Dias.

No boletim, referente ao período de 27 de junho a 3 de julho, os três pesquisadores da Embrapa Gado de Corte ressaltam a importância das ações desenvolvidas pelo governo federal, principalmente por meio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e pelo setor privado para diversificar os destinos da carne bovina:

“Nos últimos anos, se observa que esse é um dos objetivos perseguidos pelo governo brasileiro, visível com a reabertura do mercado para os EUA, o acordo do Mercosul com a União Europeia e a abertura de novos mercados, com Indonésia e Tailândia, bem como ampliação de plantas credenciadas a exportar, como no caso do Egito.”

Os pesquisadores da Embrapa Gado de Corte destacam ainda o fortalecimento do sistema de inspeção sanitária na indústria como estratégico para que o Brasil se mantenha como um dos maiores exportadores globais do produto. Isso porque, alertam, cada vez mais surgirão barreiras comerciais associadas a questões sanitárias no mercado internacional de carne bovina.

Concentração de destinos

Os números apresentados no mais recente boletim do CiCarne mostram quanto as exportações brasileiras de carne bovina estão concentradas na China e Hong Kong:

“Nos últimos seis anos, a proporção do volume exportado de carne bovina pelo Brasil para a China e Hong Kong cresceu consideravelmente, passando de 20,5% em 2014 para 63,4% neste ano. Um crescimento médio na representatividade de 7,15% ao ano no período. Em 2014, o volume exportado para Hong Kong representava praticamente todo o percentual, sendo que isso se reverteu em 2018, quando a parcela da China o superou.”

Os pesquisadores acrescentam: “Em 2019, quando 52,35% do total exportado pelo Brasil foi para as duas regiões, o volume foi de US$ 3,42 bilhões (US$ 2,68 bilhões para a China e US$ 741 milhões para Hong Kong) contra US$ 3,12 bilhões de todos os outros países importadores somados. Em 2020, embora os dados sejam parciais, até o mês de maio, pode-se observar que a tendência de alta permanece, liderada principalmente pela China, com um volume de US$ 1,47 bilhões exportados, seguida por Hong Kong, com US$ 316 milhões, enquanto para todos os outros países importadores o volume foi de US$ 1,03 bilhões.”

Pandemia

Quanto aos impactos da pandemia, do total de 37 frigoríficos brasileiros que eram habilitados a exportar carne bovina para a China, dois foram suspensos no mês de junho deste ano (ambos no Estado de Mato Grosso), informa o boletim do CiCarne.

“As 35 plantas frigoríficas habilitadas a exportar para a China estão em São Paulo (9), Mato Grosso (6), Pará (4), Minas Gerais (4), Mato Grosso do Sul (3), Goiás (3), Rio Grande do Sul (3), Tocantins (2) e Rondônia (1)”, informam os pesquisadores.

Ainda de acordo com o boletim, o Mapa busca as razões da suspensão desses frigoríficos junto à GACC (General Administration of Customs People’s Republic of China), órgão do governo chinês responsável pela habilitação de estabelecimentos exportadores. “O Mapa também iniciou negociações para que as plantas possam retornar as exportações para a China.”

Conforme o CiCarne, prevendo eventuais problemas, o Brasil tem um regramento para prevenção, controle e mitigação de riscos de transmissão do novo coronavírus nas atividades da indústria de abate e processamento de carnes e derivados, a Portaria Conjunta nº 19, de 18/06/2020 – ME/MAPA/MS, com versão em mandarim entregue às autoridades sanitárias chinesas.

“Ainda que não se tenha pesquisas comprovando a transmissão do vírus por alimentos, Pequim pediu que os diferentes governos suspendam a exportação de produtos alimentícios cujos estabelecimentos produtores tenham identificado funcionários infectados com a covid-19, em situação que crie risco de contaminação dos alimentos”, observa o Cicarne, referindo-se à mensagem enviada pela Embaixada do Brasil na China.

Os pesquisadores assinalam ainda que o Brasil não é o único exportador de carne bovina a sofrer com as restrições impostas pela China. ‘É importante destacar que países concorrentes também sofreram suspensões de plantas para exportação à China, a exemplo dos EUA, Argentina, Austrália e Irlanda.”

Clique aqui para acessar o mais recente boletim do CiCarne

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