Ataque internacional à Amazônia mira sequestro de carbono e agronegócio

Gil Reis, consultor em agronegócio – Foto: Divulgação

Gil Reis*

O que os amazônidas esperaram durante muitos anos finalmente aconteceu: o Brasil começou, de fato, a se preocupar com a Amazônia. Alvíssaras! Aproveitemos, portanto, este despertar sobre a maior floresta tropical do mundo para trazer à discussão informações que o olhar forasteiro teima em ignorar, enquanto eleva a gritaria pseudopreservacionismo para tentar criar condições para tirar vantagens econômicas da região num futuro próximo.  

O novo ataque à Amazônia foi motivado pelas recentes queimadas, divulgados ao mundo em fotos e vídeos espalhados pelas redes sociais e aplicativos como WhatsApp e Telegram e por redes de televisão como se o fogo estivesse na iminência de consumir a floresta em definitivo.

Tal alarmismo faz parte da estratégia de apresentar o Brasil como incapaz de preservar a região e, ao mesmo tempo, de responsabilizar a atividade agropecuária pelas toras de árvores caídas em áreas devastadas e pelas densas nuvens de fumaça filmadas e fotografadas no céu amazônico.

O belicismo econômico camuflado de ambientalismo se intensifica justamente quando temos um governo nacionalista – avesso, portanto, às investidas dos espoliadores de além-mar. Tal estratégia se tonificou com o apoio de poderosas forças internas que se aliaram aos inimigos para garantir a sua parte no butim.

Na ofensiva contra a Amazônia, a primeira vítima está sendo a verdade, como sempre ocorre em qualquer guerra. Discursos eivados de dados inconsistentes, quando não irreais, permeiam as discussões com o objetivo de ganhar a simpatia da opinião pública e turbinar os lucros futuros.

Mesmo assim, a artilharia pesada ainda não conseguiu fazer a verdade tombar de vez, embora os argumentos falaciosos sobre a Amazônia repercutam à exaustação na trincheira midiática com o propósito de levar o governo às cordas para que interesses estrangeiros prevaleçam sobre a soberania nacional, além de desgastar a imagem do agro brasileiro no cenário mundial.

Discursos eivados de dados inconsistentes, quando não irreais, permeiam as discussões com o objetivo de ganhar a simpatia da opinião pública e turbinar os lucros futuros”

Estudo feito pelo pesquisador Evaristo Miranda e pelos analistas de geoprocessamento Carlos Alberto Carvalho, Paulo Roberto Rodrigues Martinho e Osvaldo Tadatomo Oshiro, publicado pelo Instituto José Bonifácio, traz informações que não podem ser ignoradas em qualquer debate sério sobre formulação de políticas públicas voltadas à Amazônia:

  • “A mais antiga presença humana do Brasil está na Amazônia. São mais de 15.000 anos de antropização, atestados por sítios arqueológicos (geoglifos, florestas de bambus, terras pretas, cerrados antropogênicos etc). Grandes áreas foram cultivadas no passado, onde ocorreu – entre outros avanços tecnológicos – a domesticação da mandioca.”
  • “A complexidade do mundo rural na Amazônia combina: atividades sem base na terra e ligadas a territórios (apicultura, pesca, caça…); diversos tipos de extrativismos vegetais (palmitos, açaí, castanhas, madeiras, fibras, óleos…); grupos humanos, etnias e comunidades com histórias e origens muito diferentes em territórios consolidados (indígenas, japoneses, colonos, caboclos, afrodescendentes, sulistas, nordestinos…) até áreas mais produtivas e modernas da agropecuária nacional; unidades e áreas de produção, cuja condição legal é mista e variada (ribeirinhos, proprietários, assentados, ocupantes, extrativistas…), desde os casos mais estáveis até os mais precários, em terras públicas e privadas.”

Os autores do estudo Amazônia: 15 perguntas e respostas também assinalam:

  • “Cerca de 80% do bioma já está protegido e destinado à preservação. As áreas protegidas alcançam hoje 173,4 milhões de hectares ou 41,3% do bioma e são constituídas por 204 Unidades de Conservação, 330 Terras Indígenas e 32 Áreas Militares decretadas e estabelecidas. Os 534.261 imóveis rurais cadastrados no CAR [Cadastro Ambiental Rural], conforme mapeamento sobre imagens de satélite com 5 metros de resolução, dedicam à preservação da vegetação nativa 94,2 milhões de hectares ou 22,4% do bioma. Áreas protegidas e preservadas somam 267,6 milhões de hectares ou 63,7% do bioma. Ainda existe vegetação nativa em áreas de imóveis rurais não cadastrados e terras devolutas num total de 85,7 milhões de hectares (20,4%), totalizando 84,1% do bioma. Mesmo na hipótese irreal da ocupação desses 20,4%, o Código Florestal só permite explorar 20%. Apenas, 4% podem ser explorados no futuro. No ritmo atual do desmatamento, isso levaria um quarto de século.”

Em outro trecho do estudo, eles informam que a área ocupada pela agropecuária corresponde a cerca de 12,8%: “Pastagens nativas, plantadas e manejadas alcançam 10,5% do bioma Amazônia (44.092.115 ha). Lavouras anuais, semiperenes e perenes somam 2,3% (9.658.273 ha). As infraestruturas viárias, urbanas, energético-mineradores e outras são estimadas em 1% do bioma, no mapeamento realizado pela Embrapa Territorial.”

O pesquisador e os três analistas de geoprocessamento também informam no estudo qual a dimensão e dinâmica do desmatamento no bioma Amazônia:

  • “A área desmatada acumulada no bioma Amazônia, desde 1616 (fundação de Belém) até 2018, foi 708.301km2 ou 16,9%, segundo os dados medidos e estimados do Prodes [projeto que monitora o desmatamento por corte raso na região]. Com a subtração de áreas de vegetação florestal mais regeneradas, ainda não incluídas no CAR, da ordem de 3,1%, esse número cai para cerca de 13,8%. A área desmatada no bioma Amazônia mapeada em 2018 foi de 7.094 km2. Uma taxa anual de desmatamento inferior a 0,17%. A proteção e a preservação já estabelecidas da vegetação nativa alcançam hoje 80% do bioma, mas mesmo se hipoteticamente, essa taxa de desmatamento prosseguisse ininterruptamente seriam necessários cerca de 572 anos para desmatar o bioma. Isso sem considerar a regeneração vegetal em curso.”

Querem a Amazônia para sequestrar carbono em escala global, a fim de permitir que o chamado mundo desenvolvido siga poluindo”

Este é, portanto, é o contexto que precisa ser analisado em qualquer debate sério sobre a Amazônia. Inadmissível também desconsiderar que os amazônidas preservam 80% das áreas de suas propriedades para cumprir o Código Florestal. Fazem isso as suas próprias custas, enquanto o governo federal sustenta inúmeras reservas com o dinheiro arrecadado de uma das mais altas cargas tributárias do mundo.

Aliás, quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales, lança o programa Floresta Mais, criando a possibilidade da emissão de nota fiscal para serviços de preservação, cabe perguntar: Por que não criar fundos imobiliários específicos para fazer preservação ambiental? Com tais fundos, todas as empresas interessadas na preservação ambiental teriam a oportunidade de comprar cotas, o que faria surgir um grande mercado de trabalho na região, gerando riquezas para o Brasil.

Mas, antes de tudo, os tais investidores têm o dever de jogar às claras, observando a transparência tão exigida no mundo de hoje, e expor quais os reais motivos desse verdadeiro fascínio pela Amazônia. Seriam apenas os minerais que estão sob o solo da região e a biodiversidade tão pirateada por estrangeiros?

O mais recente motivo, revelou o ex-deputado e ex-ministro Aldo Rebelo em entrevista ao jornalista João Batisti Olivi, do Notícias Agrícolas, é o uso da Amazônia para que os países industrializados possam cumprir a meta internacional de zerar a emissão de carbono. Ou seja, querem a Amazônia para sequestrar carbono em escala global, a fim de permitir que o chamado mundo desenvolvido siga poluindo, ganhando muito dinheiro e governando a terra.

A estratégia dos investidores, aliados aos ambientalistas das ONGs que eles mesmo financiam, vai além. Eles pretendem também estabelecer o desmatamento para todo o Brasil, o que teria impacto direto sobre o cerrado, hoje o celeiro da produção agrícola nacional.

O imperialismo do século XXI está saudoso do Brasil Colônia, quando subtraia nossas riquezas – e também a dos países vizinhos – e desmatava a foice e facão com mais intensidade que as motosserras de hoje.

Estamos, pois, num cenário de guerra e precisamos nos articular urgentemente para que possamos partir para o ataque diante dessa nova ofensiva dos espoliadores de sempre. Para tanto, também devemos nos municiar com o apoio de especialistas de renome internacional, integrantes do governo e independentes. Uma missão para todos.

*Consultor em agronegócio

 

 

 

 

AGROemDIA

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Um comentário em “Ataque internacional à Amazônia mira sequestro de carbono e agronegócio

  • 3 de setembro de 2020 em 12:28
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    Esse Evaristo Miranda citado na matéria é o “guru ambiental” às avessas do bolsonaro para o desmonte do Meio ambiente e do INPE. Suas declarações com informações enganosas de que ”O Brasil é o que mais preserva” já foram desmentidas e ridicularizadas diversas vezes em artigos de especialistas do meio ambiente e pesquisadores, apontando dados falsos. Mas ele mesmo nunca publicou um único artigo sobre seus “estudos” numa revista cientifica, pois sabe que é tudo mentira para favorecer o agronegócio. O Evaristo Miranda também usa de forma desonesta a cartografia da Amazônia, incluindo áreas que não são da Amazônia legal como se fossem, com objetivo de inflar a área que é preservada para repetir o chavão que ”O Brasil é o que mais preserva”.

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