Sempre aos domingos: “Confissão de Caboclo”, por Rolando Boldrin

Da redação//AGROemDIA

Em tempos de isolamento social imposto pela pandemia da covid-19, o AGROemDIA reencontra no Youtube Rolando Boldrin, ator, apresentador de televisão, cantor, compositor e um dos maiores divulgadores da música sertaneja brasileira.

Em um dos grandes momentos do Sr. Brasil, programa que ele apresentada nas manhãs de domingo na TV Cultura, da Fundação Padre Anchieta (SP), Boldrin declama “Confissão de Caboclo”, poema de Zé da Luz sobre uma das maiores epidemias do Brasil: o analfabetismo.

Atualmente, o país tem cerca de 11 milhões de analfabetos – pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler nem escrever um simples bilhete –, segundo dados do Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Educação, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A esse contingente se somam outros 38 milhões de brasileiros que são analfabetos funcionais. Esse grupo é constituído por pessoas que, embora formalmente alfabetizadas, têm dificuldades de entender e se expressar por meio de letras e números em situações corriqueiras.

Uma tragédia que atravessa a história brasileira, envergonhando o país inteiro.

Confissão de Caboclo

Zé da Luz

Sinhô dotô delegado

Digo a vossa sinhuria

Qui inté onte eu fui casado

Cum a muié qui im vida

Se chamô Rosa Maria

 

Nóis casêmo e nós vivia

Como pobre, é verdade

Mas a gente se sentia

Rico de felicidade

 

Lá pras banda onde eu morava

No lugá Chão da Cutia

Morava tombém um cabra

Chamado Chico Faria

 

Esse cabra antigamente

Tinha gostado de Rosa

Chegaro inté a sê noivo

Mas num fizero a introza do casamento

Prumode um padrinho de Maria

Tê dismanchado essa prosa

 

Entoce adispois qui nóis casêmo

O meu rijume era vivê trabaiando

Sem da muié tê ciúme

A muié por sua vez

 

Nunca me deu cabimento

De eu pensá que ela fizesse

Um dia um farcejamento

Mas, seu dotô

Tome tento no resto da minha história

Qui o ruim chegô agora

 

Se não me faia a memória

Já faz assim uns três mêis

Qui o moço, Chico Faria

Quase sempre, mais das vez

Todo prosa, todo ancho

Avisitava o meu rancho

 

Pur aí discunfiado

Como quem qué e não qué

Eu fui vendo qui o marvado

Tentava a minha muié

Ou tentação ou engano

Eu fui vendo a coisa feia

Pru derradêro eu já tava

Cá mosca detrás da oreia

 

Onte, já de tardezinha

Meu cumpadre, o Quinca Arruda

Mi chamô pra nóis dança

Num samba lá na Varginha

Na casa de mestre Duda

 

Entonce Rosa Maria

Sempre gostô de sambá

Mas, porém, de tardezinha

Me disse discunfiada

Qui pru samba ela não ia

Qui tava meio infadada

Que percisava se deitá

 

Eu fiquei discunfiado

Cum a preposta da muié

Dispois qui tomei café

Quage puro sem mistura

Cum a faca na cintura

Fui pru samba, fui sambá

 

Cheguei no samba, dotô

Arrepara agora o sinhô

Quem era qui tava lá?

O moço Chico Faria

Qui quano foi me avistando

Foi logo mi preguntando

Cadê siá dona Maria?

Num veio não, pra dançá?

Não sinhô. Ficô im casa

Pru cabôco arrispondí

 

Senti entonce uma brasa

Queimando meu coração

Nunca mais pude tirá

As palavra desse cabra

Da minha maginação

Perdí o gosto da festa

E não pude dançá não

 

O cabra, por sua vez

Num dançava, seu doutô

De vez im quando me oiava

Assim cum um oiá de traidô

Meia-noite mais ou meno

Se dispidindo da festa, disse

Adeus qui eu já vô

 

Quando ele se arritirô

Eu tombém me arritirei

Atraiz dele, sim sinhô

Ele na frente e eu atrais

Se o cabra andava depressa

Eu andava muito mais

Noite iscura feito breu

Nem eu enxergava o cabra

Nem o cabra via eu

 

Sempre andando, sempre andando

Ele na frente, eu atrais

Já nem se iscutava mais

A voz do fole tocando

Na casa de mestre Duda

A noite tava mais negra

Qui a cunciênça de Juda

 

Sempre andando, sempre andando

Eu fui vendo, seu dotô

Qui o marvado ia tumando

Direção da minha casa

Minha casa, sim sinhô

Já pertinho do terrêro

Eu mi iscundí pru detraiz

De um pé de trapiazêro

 

E abaixadinho e iscundido

Prendi a suspiração

Pra mió vê e ouvi

Qualé era a sua intenção

 

Seu dotô, repare bem

Do mesmo jeito que faiz

Um ladrão pra vê arguém

Num tendo visto ninguém

Ele na minha porta bateu

E lá de dentro uma voiz

Bem baixinho arrispondeu

Ele entonce, cá de fora

Quem tá bateno sou eu

 

Nisso eu vi abri a porta

A seu douto a esperança tava morta

Tava morto o meu amô

E na iscurideza da noite

Uma voiz se iscuitô

 

Tá aqui seu Chico essa carta

Qui há tempo tinha iscrivido

Pra mandá pra voismicê

Pru favô num leia agora

Vá simbora, vá simbora

Qui quando chegá im casa

Tem munto tempo pra lê

 

Quando minhas oiça ouviu

As palavra qui Maria

Dizia pru disgraçado

Eu fiquei anssim amalucado

Fiquei anssim um cabôco

Quando tá cheio de isprito

Dum sarto como um cabrito

Eu tava nos pés do cabra

E sem querê dei um grito

 

Miserave!

E arrastei minha faca da cintura

A seu dotô

Naquela hora eu vi o Chico Faria

Na bêra da sepurtura

Mas o cabra têve sorte

Sempre nessas circunstança

Os cabra foge da morte

 

Correu o cabra, dotô

Tão vexado qui dexô

A carta caí no chão

Dei de garra do papé

O portadô da traição

E machuquei nas minha mão

A honra, dotô, a honra

Daquela farsa muié

 

Aquela muié qui um dia

Jurô aos pé do artá

Qui inquanto tivesse vida

Haverá de me honrá

E me amá cum todo amô

Dispois oiando pra carta

Tive pena, seu dotô

Di num tê aprendido a lê

Pra lê ali nas letra iscrivida

As palavra que Maria dizia pro traidô

Tive pena, sim sinhô

Mas que havera de fazê

Se eu nunca aprendi a lê

Maria me atraiçoô

 

E quando eu vi a miserave

Na iscurideza da noite

Dos meus óio se escondê

Sem deixá nem sombra inté

Entrei pra dentro de casa

Pra me vinga da muié

 

Dotô, que hora minguada

Maria tava ajueiada

Chorando com as mão posta

Como quem faiz oração

E oiando pra mim pedia

Pelo cálice, pela hóstia

Por Jesus crucificado

Pelo amô que eu lhe afava

Que eu num fizesse isso não

 

Mas eu tava, dotô

Eu tava cego de raiva, de paixão

Sem dizê uma palavra

Agarrei nas suas mão

Levantei ela pra riba

E interrei até o cabo

O ferro da Parnaíba

Pur riba do coração

Sarvei a honra, dotô

Sarvei a honra

A pois não

 

Depois que eu vi

A Maria caí sem vida no chão

Vim falá cum vóis mecê

E confessá o meu crime

E me entregá as prisão

Se o senhor não acredita

Se eu sô criminoso ou não

Tá aqui a faca assassina

Óia o sangue na minha mão

E como prova da traição

Tá aqui a carta, dotô

 

Eu lhe peço um grande favô

Antes de vossa mecê

Me mandá lá pras prisão

Me leia aqui essa carta

Pra eu sabê como Maria

Preparava a traição

 

(Seu Chico, Chão da Cotia

Digo a vossa senhoria

Que só lhe faço essa carta

Pro sinhô ficá sabendo

Que eu não sô a muié

Qui o sinhô tá entendendo

 

Se o sinhô continuá

Com seus debique atrevido

O jeito que tem é contá

Tudo, tudo a meu marido

Se o sinhô é inxirido

Encontrô uma muié forte

O nome de meu marido

Eu honro inté minha morte

Sou de vossa senhoria

Sua criada, Maria)

 

Dotô!

Dotô, o que é qui eu tô ouvindo

Vós mecê leu essa carta ou não leu

Tá me iludindo?

Maria tava inocente?

Em seu dotô, me responde

Matei Maria inocente?

Pru quê, seu dotô, pru quê

 

Matei Maria somente

Pru que num aprendi a lê

Infeliz de quem não leu

Uma carta do ABC

Imagina agora o dotô

 

Como é grande o meu sofrê

Sô duas veiz criminoso

Que castigo, seu dotô

Que miséria, que horrô

Que crime num sabê lê

 

AGROemDIA

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