“Se não houver correção na situação, a atividade leiteira pode ficar inviabilizada”

Darcy Bittencourt, presidente da Associação de Criadores de Gado Jersey – Reprodução/YouTube

Ao fazer o balanço de final de mandato na presidência da Associação de Criadores de Gado Jersey (ACGJRS) – biênio 2019-2020 –, Darcy Bittencourt diz que encerra sua gestão com “a certeza do dever cumprido”, mas faz um alerta sobre o cenário nacional de dificuldades do setor leiteiro: “Se não houver uma correção nessa situação, vai inviabilizar a atividade leiteira e muita gente pode até parar com a atividade”.

Há pelo menos seis anos, as adversidades enfrentadas pela cadeia leiteira se intensificaram. Por trás desse cenário, estão os altos custos de produção, a elevada carga tributária, as expressivas importações de produtos lácteos e a remuneração do produtor de leite. No caso do Rio Grande do Sul, somam-se a esses fatores os efeitos da estiagem de 2019 e 2020 e da pandemia da covid-19.

“A pandemia trouxe um aumento de demanda do leite no varejo e, consequentemente, no preço pago ao produtor. Mas começou a importação de laticínios e, ao mesmo tempo, houve um aumento substancial com os custos de produção”, diz Bittencourt. De acordo com ele, a fase atual, de queda do valor pago aos pecuaristas pela indústria, traz duas questões: “Para os insumos, ‘quanto custam?’; para a indústria, ‘quanto tu me paga?’”

Estiagem, planejamento e produtor desamparado

Diante de mais uma estiagem no RS, repetindo uma situação já enfrentada no verão de 2019, o que prejudica o desenvolvimento das pastagens e dos cultivos de produtos para silagem e feno, Bittencourt defende que o produtor opte pelo planejamento e não espere o fenômeno ocorrer para tomar providências, já que a má distribuição das chuvas é uma característica do estado.

“A grande dificuldade é que o produtor normalmente é reativo. Ele só reage às situações, mas deveria ser proativo e se precaver com reserva de água e uma pequena irrigação para molhar as pastagens e manter o desenvolvimento vegetativo da planta em caso de necessidade”, pontua o presidente da ACGJRS, baseado na experiência de décadas dedicadas à pecuária leiteira.

“No passado”, prossegue Bittencourt, “tivemos políticas públicas positivas, com programas de incentivo para a construção de pequenos açudes e de irrigação para pastagens de gado de leite, mas infelizmente foram deixadas de lado e o produtor se sentiu desamparado, desestimulado. Mas eu defendo que ter uma reserva de água pode minimizar dificuldades futuras. Alguns alegam falta de recursos, mas quando o prejuízo com a seca é grande, acaba tendo que gastar dobrado. Um pequeno açude faria a diferença.”

Pesquisador reconhecido na área socioeconômica do leite, Bitencourt anuncia que se dedicará exclusivamente ao trabalho na Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, a partir de janeiro de 2021. “Encerramos o nosso trabalho à frente da associação em um momento muito bom para a raça Jersey. Ela está sendo muito valorizada em função da qualidade do leite, que tem maior quantidade de sólidos, possibilita à indústria melhor conversão em produtos lácteos e, por isso, melhores resultados.”

Ele vê um cenário promissor para a raça. “Minas Gerais é o primeiro estado onde a indústria já paga por essa qualidade. Então, isso provavelmente vai incentivar os produtores também do Rio Grande do Sul a adquirirem bovinos da raça Jersey para melhorar a qualidade do seu leite. Esse momento é muito importante e mostra que a demanda pelo Jersey está bem acentuada.”

Balança da gestão

“Entrego o barco navegando em águas calmas. O próximo que assumir vai encontrar uma situação tranquila e positiva na entidade, com contas em dia e projetos em andamento”, resume o dirigente.

“2020 foi um ano atípico, com a reformulação de todas as atividades para atender às recomendações de saúde. Não fizemos Expointer e nem participamos de outros eventos agropecuários desde março, os leilões se tornaram virtuais – felizmente todos venderam muito bem – e parte dos compromissos da entidade também foi feita pela internet. Aproveitamos o período para fazer algumas reformas na sede, em Pelotas, e incentivamos os criadores com a campanha Minha Jersey Registrada.”

A campanha, que pretende ampliar o quadro de sócios e o número de animais registrados, movimentou os criadores da raça leiteira no estado e trouxe bons resultados, avalia Bittencourt. “Nós crescemos, conseguimos quebrar uma tendência, que a cada ano diminuía a quantidade de associados. Este ano, nós revertemos e o número de associados aumentou, em pelo menos 10% até agora e estamos com bastante registros”, comemora Bitencourt.

O presidente da associação observa que a campanha segue aberta. “Estamos recebendo novas consultas e pedidos. Lembro que a colaboração da mídia foi fundamental para conseguirmos mostrar o potencial do gado Jersey para o Brasil e o exterior e incentivarmos as pessoas a se associarem e registrar seus animais.”

Realizações do mandato

O 2º vice-presidente da ACGJRS, Carlos Alberto Petiz, elenca as realizações do primeiro ano de gestão. “2019 foi um ano de muito trabalho para a área técnica, na elaboração do nosso controle leiteiro. A presidente do conselho técnico, Mirela Anselmo, coordenou o projeto do nosso controle leiteiro, que adapta a associação às mudanças exigidas na Instrução Normativa 78 do Mapa”.

Petiz ressalta também a realização de uma das etapas do 4º Circuito Nacional Raça Jersey, durante a 42ª Expointer. “Foi um sucesso, a própria organização reconheceu que a feira de Esteio divulga nacional e internacionalmente os eventos que lá se realizam. E, para fechar com chave de ouro, a vaca Grande Campeã na Expointer, da Cabanha Gema, de Santa Rosa (RS), também venceu o campeonato nacional. Excelente”, completa o engenheiro agrônomo e criador de Jersey há 38 anos.

Com a experiência de ter dirigido a associação em quatro oportunidades, Petiz enfatiza o bom entrosamento e a dedicação do presidente Bitencourt. “Sabemos que em compromissos profissionais dele, em palestras e reuniões pelo interior do estado, o Darcy aproveitava as oportunidades para divulgar a raça Jersey e ajudou muito o setor.”

“Também é um homem tremendamente político, pede opiniões sobre assuntos que não domina e ouve aqueles que têm posições contrárias. Ainda fez uma baita reforma na sede e saldou todas as dívidas e vai entregar o caixa em dia, sem débitos. Foi um excelente presidente e eu desejo muitas felicidades para a próxima direção”, pontua Petiz.

A eleição da nova diretoria da ACGJRS ocorre no dia 19 de dezembro, durante assembleia-geral, que será de forma híbrida, com parte presencial e outra virtual. A votação deverá ser por aclamação, visto que há somente uma chapa inscrita. A posse dos eleitos será no dia 1º de janeiro de 2021.

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