Mercado vê tendência de valorização do real em 2021

Ivanir José Bortot*

Dois preços da economia são instrumentos fundamentais para estimular ou desestimular o crescimento econômico: juros e câmbio. A teoria econômica indica que quando as autoridades do Banco Central (BC) decidem controlar os juros, o câmbio ficará livre para flutuar, uma vez que não é possível fazer controle destes dois preços ao mesmo tempo.

O sistema de câmbio atual do Brasil é flutuante. O que significa que o BC não deve interferir no mercado de moeda em dólar para definir a taxa de câmbio, mas para garantir a funcionalidade deste mercado diante de situações graves. As operações de compra venda de moeda estrangeira são realizadas entre o público, empresas e instituições financeiras autorizadas a operarem pela lei da oferta e procura. O Banco Central não é obrigado a fornecer ao mercado divisas para atender a demanda de escassez de moeda estrangeira, mas mantém cerca de US$ 350 bilhões para enfrentar algum ataque especulativo e servir de garantia aos compromissos externos do país.

Apenas para refrescar a memória, o Brasil já teve câmbio fixo, época em que ficou praticamente sem reservas externas. No plano real, em1994, o dólar funcionou como “ancora cambial” no esforço de desindexar a economia, cuja variação ocorria apenas dentro da banda cambial fixada aleatoriamente pelo Banco Central.

No atual sistema de câmbio flutuante, a desvalorização do real diante do dólar é feita basicamente pelo mercado. A oferta do dólar depende do comportamento das exportações, da remessa de lucros, dividendos de empresas estrangeiras, das despesas com frente de importações, do fluxo de entrada de capital estrangeiro e do volume das importações, entre outros fatores.

Apesar do volume significativo de reservas e da forte volatilidade do câmbio neste último ano, a autoridade monetária acabou sancionando o atual patamar de R$  5,36  por US$ 1,00.  É possível que as autoridades da área econômica tenham acreditado que com esta desvalorização do real haveria um aumento significativo das exportações e, com isso, o ingresso de dólares, proporcionando um reequilíbrio cambial. Isso não ocorreu apesar das fortes exportações do complexo de agribusiness.

Paralelamente, o efeito desta desvalorização cambial começa ser visto na formação dos preços de insumos e produtos que o país depende do exterior. Tudo que é importado ficou mais caro e seus custos são repassados aos preços internos.  Caso este impacto do câmbio faça com que a inflação fique acima da meta do Banco Central, a autoridade monetária será obrigada a elevar as taxas de juros, que está sob seu controle, para evitar uma ameaça inflacionária.

O câmbio, no entanto, não é a única ameaça de inflação.  A desorganização de vários segmentos industriais, devido aos impactos do covid-19, provoca problemas de oferta e preços. Os setores da construção civil, papel e plásticos, entre outros, tiveram seus preços reajustados muito acima de qualquer índice de inflação. O setor de transporte marítimo, em função da demanda internacional, ficou muito mais caro na importação e exportação. O efeito destes reajustes de preços, dos combustíveis e das demais commoditeis terão seus reflexos em todas as cadeias de produção e nos preços finais aos consumidores.

A esperança de muitos agentes do mercado é de que o real tenda muito mais a se valorizar daqui para frente do que se desvalorizar. Depende do fluxo de comércio do Brasil, do ingresso de investimento estrangeiro em privatizações, do ajuste fiscal aprovado no Congresso, da aprovação da autonomia do Banco Central. Alguns bancos apostam que o dólar chegue a R$ 4,50 até o final do ano. Quem sabe.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

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