Qual o real tamanho da participação do agro no PIB do Brasil? 

Gil Reis, consultor em agronegócios – Foto: Arquivo pessoal

*Gil Reis

Este artigo pretende lançar mais uma tese que, em princípio, deverá despertar incredulidade. Tal fato não é de causar qualquer admiração, já estou acostumado. As ideias novas geralmente encontram grande dificuldade de serem absorvidas, embora venham a ser aceitas com o passar do tempo.

Citarei apenas um exemplo de como as ideias novas podem causar resistência às teses contrárias e já incorporadas na cultura humana. Há 420 anos, em 17 de fevereiro de 1600, uma quinta-feira ensolarada, Roma presenciou um espetáculo dantesco. Centenas de pessoas lotaram o Campo dei Fiori (Campo das Flores), uma praça no centro da cidade, para assistir à morte na fogueira de Giordano Bruno, por ordem da Santa Inquisição. Ele havia exposto a tese de que o universo era infinito, sem centro, e repleto de mundos habitados, como o nosso. Tese seguida mais tarde por Galileu Galilei, que escapou “fedendo”, como se diz aqui no Pará, da fogueira da famigerada Santa Inquisição. Pasmem os senhores, somente 350 anos depois, a Igreja Católica reconheceu formalmente, através do Papa João Paulo II, a legitimidade das teorias de Galilei.

Assim vamos desenvolver raciocínio sobre a inserção dos produtos do agro no nosso cotidiano. Comecemos por um breve exercício de imaginação. Imaginemos um grande espelho e procuremos examinar o nosso reflexo. O que vemos? Um ser humano vestido dos pés à cabeça. Comecemos com os pés, sapatos de couro e meias de algodão. A seguir, examinemos todo o nosso vestuário interno ou externo, masculino ou feminino, de vários tecidos oriundos do agro. Os cabelos bem arrumados e lavados com shampoos ou sabonetes com grande parte de seus componentes igualmente procedentes do agro.

Saímos das nossas residências recheadas de móveis e acabamentos com produtos oriundos do agro. Os veículos que nos transportam são movidos a combustíveis fósseis misturados com biocombustíveis. Além disso, o acabamento interno da grande maioria dos veículos é feito com produtos do agro. Ah, e os pneus são fabricados com a borracha extraída das seringueiras. Chegamos ao escritório e iniciamos a faina diária, como bons brasileiros, e vamos a um cafezinho, com a mesma disposição que o Marcos Matos, do Cecafé, com a sua bela xícara transparente contendo uma boa dose de café nas reuniões virtuais que participamos. Sei que a maioria não conhece o Marcos, o que lamento, pois trata-se de exemplo de ser humano que vale a pena conhecer, com o seu bom humor permanente e intervenções precisas.

Mas, voltemos ao enredo original. No escritório, recebemos ou elaboramos algum relatório que, em alguns casos, rascunhamos a lápis nas bordas algumas correções. Vejam bem todos que no desempenho de todas as atividades os produtos vindos do agro estão presentes. Enquanto isso, as nossas parceiras vão ao supermercado comprar alimentos e outros itens, os nossos filhos estão na escola transportando seus livros, cadernos e lápis pretos ou de cores em mochilas de tecidos. Sei que alguns não tem filhos, no meu caso já tenho netas e a qualquer momento bisnetos, o futuro ainda continua futuro.

Chega finalmente a hora do almoço e vamos nos alimentar. Aqueles de nós que ainda trazem os hábitos de infância adquiridos no convívio da família fazemos o que se costuma chamar de refeição normal, naturalmente. Já os veganos e vegetarianos fazem uma refeição especial baseada em vegetais. Até aí nenhuma crítica, trata-se do exercício do “livre arbítrio”, o que cansa é o proselitismo de uma minoria tentando nos convencer a seguir os seus caminhos, um ataque frontal ao nosso “livre arbítrio”.

Chega a happy hour onde os colegas confraternizam em torno de algumas bebidas alcoólicas, todas com origem no agro, para relaxar antes de retornar as suas casas. Durante a noite, um lanche ou um jantar em família, conversas sobre o dia de cada um e finalmente a hora do descanso dos guerreiros. Hora de dormir numa cama com lençóis e travesseiros feitos com produtos do agro. Para reforçar a presença do agro na nossa vida, lembremos que alguns puxam o sono contando carneirinhos.

Creio que depois dessa extensa narrativa todos possam começar a entender qual é a tese proposta. Afinal, há indicações de que a participação do PIB do agro no PIB nacional é ainda maior do que o percentual de 26,6% apurado pelo Cepea ao calcular o PIB do setor em 2020. É incompreensível que, com toda a participação que o agro tem na vida de cada um de nós, o percentual da contribuição do agro para o PIB situa-se neste patamar. Aliás, o Cepea projeta que o PIB do agro terá participação de 30% no PIB do Brasil em 2021. Ainda assim, fico em dúvida sobre o tamanho da participação do PIB do agro no PIB nacional, tendo em vista a presença do agronegócio no dia a dia da nossa população.

*Consultor em Agronegócios

  ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

 

 

 

 

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: