Entrevista: Aline Sleutjes, 1ª mulher a presidir a Comissão de Agricultura da Câmara

Deputada Aline Sleutjes quer alavancar o setor de leite – Foto: Divulgação

Da redação//AGROemDIA

Em seu mandato de estreia como deputada federal, a paranaense Aline Sleutjes (PSL/PR) já deixa seu nome na história da Câmara: é a primeira mulher a presidir a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.

Eleita para o comando do colegiado no último dia 10, em meio às comemorações do Dia da Mulher (8 de março), Aline diz que trabalhará para fortalecer a participação feminina no agronegócio. Paralelamente, dará prioridade ao setor de leite, à agricultura familiar, ao licenciamento ambiental e à regularização fundiária, entre outros temas.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista da deputada Aline:

 AGROemDIA: A senhora chega à presidência de uma das comissões permanentes mais importantes da Câmara já no seu primeiro mandato. Como avalia a sua eleição?

Aline Sleutjes: Assumir a presidência da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural é a coroação de dois anos de muito trabalho, esforço e dedicação. O agro é uma das minhas principais bandeiras de atuação em Brasília. Na presidência da comissão, trabalharei em parceria com a FPA [Frente Parlamentar da Agropecuária], OCB [Organização das Cooperativas Brasileiras], CNA [Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil], IPA [Instituto Pensar Agro], governo e demais instituições representativas. Incentivaremos o cooperativismo, as boas práticas, o desenvolvimento tecnológico e a valorização do homem e da mulher do campo para que possamos aumentar a renda da população brasileira, com mais empregos e qualidade de vida, além de evitar o êxodo rural. Temos que apoiar a garantia da segurança alimentar para o país e o mundo, com geração de superávit comercial e estabilidade econômica internamente.

AGROemDIA: A senhora é a primeira mulher a presidir a Comissão de Agricultura. O que isso representa na luta das mulheres por maior protagonismo na sociedade?

Aline Sleutjes: A minha eleição para a comissão ocorreu em meio às comemorações do Dia da Mulher. Antes disso, passei por três eleições internas do partido [PSL] para estar apta como candidata, até chegar à votação na Comissão de Agricultura, quando fui aclamada presidente por todos os seus membros. Também tivemos outras mulheres eleitas: Bia Kicis na Comissão de Constituição e Justiça; Carla Zambelli na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; Professora Dorinha na Comissão de Educação; Elcione na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher; Alice Portugal na Comissão de Cultura; e Rejane Dias na Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência. Somos 78 deputadas na Câmara e temos o compromisso de lutar para que outras também cheguem e possam ajudar na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Isso é necessário para que elas tenham referências de mulheres que conquistaram postos altos como fruto do seu trabalho e dedicação.

 Temos o compromisso de lutar para que outras também possam ajudar na construção de uma sociedade mais justa e igualitária”

AGROemDIA: As pautas das mulheres agricultoras ganharão mais espaço na Comissão de Agricultura?

Aline Sleutjes: Os debates na comissão serão relacionados ao agro, e todas as pessoas que fazem parte do setor estarão bem representados. A mulher no agro é símbolo de resiliência, conquista, força de vontade e perseverança. Atualmente, as mulheres que atuam no agronegócio são responsáveis pela gestão de, no mínimo, 30% do segmento — muito acima do registrado na indústria (22%) e na área de tecnologia (20%). Traduzindo em valores, as mulheres desse setor movimentam cerca de US$ 165 bilhões, ou seja, 8% do Produto Interno Bruto [PIB] nacional, uma vez que o agronegócio representa cerca de 25% do PIB total. Minha responsabilidade é fazer com que a participação feminina continue crescendo, a fim de que as mulheres possam ocupar seus espaços e ter voz como produtoras rurais, pesquisadoras, agrônomas, veterinárias e zootecnistas, entre outras atividades. No entanto, não podemos esquecer que o agro é feito por homens, mulheres, brancos, negros, índios e pequenos, médios e grandes agricultores. Enfim, todos serão bem-vindos para avançarmos nesse setor tão importante da economia do nosso país.

AGROemDIA: Quais serão as prioridades de sua gestão à frente da comissão neste ano em que o Brasil e o mundo ainda vivem sobre o impacto da pandemia de covid-19?

Aline Sleutjes: Entre as prioridades da Comissão de Agricultura, temos a cadeia leiteira, que pretendo apoiar para que os produtores consigam superar obstáculos como a falta de previsibilidade da precificação do produto. Também pretendo dar atenção ao Plano de Incentivo à Cadeia Leiteira, que elaboramos após o Fórum Nacional realizado em 2020. Outra matéria que quero dar celeridade na aprovação é o licenciamento ambiental, para a adequação das atividades produtivas, buscando o uso sustentável dos recursos naturais e a manutenção da qualidade do meio ambiente. A regulamentação dos pesticidas igualmente é uma prioridade, pois precisamos aumentar a competitividade agrícola do Brasil no exterior, valorizando a ciência, a tecnologia e a inovação. Só assim, iremos reduzir os danos causados pelas pragas, como plantas daninhas, insetos e fungos causadores de doenças nas plantas. Destaco ainda a regularização fundiária, que vai trazer controle e combate ao desmatamento ilegal na Amazônia. Os desmatamentos ilegais ocorrem em áreas não destinadas, florestas públicas e terras devolutas. A sociedade precisa entender que, com a regularização fundiária, o valor da terra não deixará de ser cobrado. O que se está dispensando são apenas os custos cartorários, como um incentivo à própria regularização, sem impactos aos cofres públicos.

Pretendo apoiar a cadeia leiteira para que os produtores consigam superar obstáculos como a falta de previsibilidade da precificação do produto”

AGROemDIA: A atenção especial ao setor de leite é uma das principais frentes de sua atuação no Legislativo?

Aline Sleutjes: Sou do município de Castro, que se destaca na produção e qualidade de leite, com mais de 416 milhões de litros ano e produtividade média anual de 9 mil litros por vaca, segundo o relatório de 2020 da Cooperativa Castrolanda. No ano passado, presidi o Fórum Nacional de Incentivo à Cadeia Leiteira [na FPA] e, durante seis audiências, ouvi pequenos, médios e grandes produtores, membros de cooperativas e da indústria leiteira, técnicos do setor e, por fim, realizamos uma audiência com a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Isso possibilitou a construção de um plano de apoio ao setor leiteiro. Depois, mantive um grupo de WhatsApp com vários produtores e com a ministra Tereza Cristina, no qual discutimos e alinhamos várias solicitações e encaminhamentos. Na comissão, reinstalarei a subcomissão do leite e reitero o meu compromisso de que a atividade leiteira se desenvolva com independência, atendendo as normas de controle sanitário, investindo em tecnologia, melhoramento genético dos rebanhos e na profissionalização das propriedades, gerando emprego e renda com sustentabilidade. Temos vários projetos apresentados na comissão que serão encaminhados para relatorias e realizarei audiências, mesa-redonda e seminários para alavancarmos o setor, incentivando a produção e a abertura do mercado externo.

AGROemDIA: A senhora vê perspectiva para o setor de leite ter efetivamente uma participação mais destacada nas exportações do agronegócio brasileiro?

Aline Sleutjes: Temos feito parcerias com a Apex-Brasil, que visitou recentemente a Cooperativa Castrolanda e está prospectando oportunidades de exportações para nossos produtores. Pretendo ter um técnico do setor [de leite] na comissão para alinharmos as pautas voltadas ao mercado externo, juntamente com os ministérios da Agricultura, das Relações Exteriores e da Economia, para que possamos criar oportunidades para todos os produtores, do pequeno ao grande, e retirar os entraves que dificultam o aumento dos índices de exportação [de lácteos].

AGROemDIA: A agricultura familiar não foi incluída no auxílio emergencial concedido por causa da pandemia. A senhora pretende buscar alguma forma de assegurar apoio específico aos agricultores familiares?

Aline Sleutjes: Trabalhei com a equipe de técnicos dos ministérios da Economia e da Cidadania para que o PL 735/2020, de autoria do deputado Zé Silva, fosse aprovado. Em linhas gerais, a proposição visava garantir o auxílio emergencial em cinco parcelas de R$ 600, totalizando R$ 3.000, cabendo duas cotas para a mulher agricultora; criar um fomento emergencial destinado a apoiar projetos de serviços de assistência técnica; conceder o benefício Garantia-Safra; e ter linhas de crédito especiais e medidas de prorrogação e repactuação de dívidas. Além disso, previa o Programa de Atendimento Emergencial à Agricultura Familiar (PAE-AF). Entretanto, o texto foi vetado, mas ainda estamos dialogando com o governo federal e o Congresso Nacional para viabilizar uma possível derrubada do veto e atenuar os efeitos socioeconômicos negativos que a covid-19 causou aos agricultores familiares, que tiveram o escoamento da produção e o consumo prejudicados por conta da suspensão das aulas escolares, de feiras populares e de outras restrições [no comércio]. Como presidente da Comissão de Agricultura, priorizarei projetos voltados à agricultura familiar, que necessita de reconhecimento, suporte, criação de políticas públicas e créditos específicos para que suas atividades sejam alavancadas.

Somos o celeiro do mundo e modelo de sustentabilidade. Precisamos ser respeitados por isso”

AGROemDIA: O agro brasileiro enfrenta críticas no cenário internacional por causa da questão ambiental. Como a senhora pretende tratar desse tema na comissão?

Aline Sleutjes: Precisamos reverter a imagem de vilão que criaram do nosso produtor. Eles trabalham seguindo todas as normas e zelam por suas terras, que são o seu patrimônio e sua fonte de renda e vida. O Brasil tem um território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados com exuberância ambiental e é taxado como vilão no exterior, mas o que eles [os outros países] fizeram com suas áreas de proteção? Somos o celeiro do mundo e modelo de sustentabilidade. Precisamos ser respeitados por isso. O fato é que poucos países conseguem tirar tanto da terra e interferir tão pouco na natureza quanto o Brasil. Utilizando apenas um décimo do território, a agricultura é o maior sucesso já registrado na história do nosso país. Esta tem que ser a linha de defesa do nosso agro e isso deve ser ensinado para as nossas crianças desde cedo, para revertermos essa visão que os outros países têm da gente. Realizarei debates sobre isso, construiremos uma pauta positiva juntamente com outros segmentos da sociedade para corrigirmos essas inverdades. Faremos um trabalho de mídia coletiva e tudo o que estiver ao meu alcance será efetivado.

AGROemDIA: Como a senhora avalia o projeto de lei de venda de terras para estrangeiros?

Aline Sleutjes: O projeto aprovado no Senado, de autoria do senador Irajá, prevê a dispensa de autorização para a compra ou posse de imóveis com áreas de até 15 módulos fiscais por estrangeiros. Cidadãos ou empresas de outra nacionalidade poderão comprar essas áreas rurais até o limite de 25% do território do município. Também terá de ser observada a função social da propriedade. Meu compromisso é promover debates a respeito da matéria. Não sou favorável da forma que [o projeto] está, mas, como presidente da Comissão de Agricultura, meu trabalho é promover um debate amplo. Iremos tratar a matéria com toda cautela possível para que todos os segmentos sejam ouvidos e o Parlamento cumpra sua função de avaliar, discutir e votar.

SAIBA MAIS

Aline Sleutjes é professora e, antes de chegar à Câmara, foi vereadora no município de Castro (PR) por dois mandatos. Formada em Educação Física e com pós-graduação em Gestão Escolar, ela foi coordenadora do Departamento de Esporte e Lazer e diretora de escolas do município de Castro.

De família de produtores rurais, Aline Sleutjes atua em defesa do setor desde seu primeiro mandato como vereadora, em 2004.

Como deputada federal, foi vice-líder do PSL e do governo. Também ocupou uma secretaria na FPA e atualmente é coordenadora institucional da entidade.

 

 

 

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: