Agricultura familiar no DF e Entorno se reinventa na pandemia, diz Embrapa

Foto: Tony Winston/Agência Brasília/Divulgação

A agricultura familiar do Distrito Federal e Entorno é um exemplo de como o campo conseguiu se reinventar durante a pandemia de covid-19 para continuar levando alimentos à população e, ao mesmo tempo, garantir a sobrevivência dos pequenos produtores. É o que mostra o resultado de entrevistas com presidentes e gestores de 17 associações e cooperativas agrícolas do Distrito Federal e da Região do Entorno, realizadas entre março e setembro de 2020 pela Embrapa.

“A crise social causada pelo coronavírus resultou em mudanças abruptas e imprevisíveis também para agricultura familiar no Distrito Federal, mas as associações e cooperativas que representam os pequenos agricultores descrevem um setor que se reorganizou rapidamente para reduzir as perdas e desenvolver alternativas de comercialização”, destacam, em artigo, as pesquisadoras Virgínia Gomes de Caldas Nogueira e Maria Quitéria dos Santos Marcelino, da Embrapa.

No artigo, elas pontuam: “Apesar de algum prejuízo, associações e cooperativas desenvolveram estratégias de comercialização e intensificaram canais de distribuição de alimentos. As associações e cooperativas de agricultura familiar trabalham com diversas formas de comercialização, como a venda da produção em feiras de bairros, supermercados, bares e restaurantes, a venda de cestas de produtos organizados por meio de redes sociais como Instagram, Facebook e WhatsApp, além da comercialização de produtos por meio dos programas de governo.”

As duas pesquisadoras ressaltam que programas como o PPA (Programa de Aquisição de Alimentos) e Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar) foram fundamentais para manter a produção, evitar perdas e garantir rendas aos agricultores familiares.

A resposta rápida de instituições como o Sistema CNA/Senar, Conab, Emater, Contag, Contar, universidades federais e Embrapa igualmente se mostrou eficaz para auxiliar no enfrentamento das contingências emergenciais, acrescentam as pesquisadoras.

De acordo elas, as entrevistas indicam ainda que algumas estratégias de comercialização adotadas neste período se tornarão permanentes. Entre elas, o uso de redes sociais e grupos de mensagens para divulgar e comercializar produtos para entrega em domicílio.

Leia, abaixo, o artigo das pesquisadoras Virgínia Gomes de Caldas Nogueira e Maria Quitéria dos Santos Marcelino, da Embrapa

A agricultura familiar ocupa lugar de destaque quando se trata da alimentação das famílias brasileiras. A terra é a principal fonte de renda da família, sendo também local de trabalho e moradia. Essa atividade, assim caracterizada, é responsável pela grande diversidade de alimentos e especiarias produzidas e disponibilizadas ao consumidor final de alimentos.

Dados do último censo agropecuário, de 2017, mostram que 77% dos estabelecimentos rurais são classificados como pertencentes a agricultores familiares, ou seja, quase 4 milhões de estabelecimentos rurais. Trabalham na agricultura familiar 67% da mão de obra dos estabelecimentos rurais agropecuários, o que significa pouco mais de 10 milhões de pessoas. Vale destacar que a agricultura familiar é o principal pilar econômico de 90% dos municípios brasileiros que possuem até 20 mil habitantes.

A pandemia do coronavirus trouxe uma crise sem precedentes com capacidade de mudar fortemente cenários e alterar de maneira significativa as formas de produção, comercialização e de distribuição de produtos daqui para a frente. Estudos realizados com o objetivo de mensurar e projetar os impactos já causados e futuros da pandemia nos mostram que a agricultura familiar foi impactada em múltiplas dimensões. Por outro lado, alguns produtores perderam parte de sua produção, agricultores encontraram alternativas para superar a crise e os estudos também demonstram que as políticas públicas federais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) foram imprescindíveis nesse processo e garantiram a manutenção da produção e da renda.

A agricultura familiar no Distrito Federal e Entorno foi atingida inicialmente pelas restrições impostas pela pandemia de forma muito particular, visto que grande parte da renda dos pequenos produtores tem origem nas feiras livres e restaurantes que foram fechados para conter a disseminação da pandemia.

A crise social causada pelo coronavírus resultou em mudanças abruptas e imprevisíveis também para agricultura familiar no Distrito Federal, mas as associações e cooperativas que representam os pequenos agricultores descrevem um setor que se reorganizou rapidamente para reduzir as perdas e desenvolver alternativas de comercialização. É o resultado que fica claro a partir de entrevistas com presidentes e gestores de 17 associações e cooperativas agrícolas da região do Distrito Federal e Entorno realizadas entre março e setembro de 2020.

Apesar de algum prejuízo, associações e cooperativas desenvolveram estratégias de comercialização e intensificaram canais de distribuição de alimentos. As associações e cooperativas de agricultura familiar trabalham com diversas formas de comercialização, como a venda da produção em feiras de bairros, supermercados, bares e restaurantes, a venda de cestas de produtos organizados por meio de redes sociais como Instagram, Facebook e WhatsApp, além da comercialização de produtos por meio dos programas de governo já mencionados.

Políticas públicas específicas e programas como o PAA e o PNAE foram essenciais para manter a produção e a renda do agricultor familiar e garantir a oferta de alimentos à população”

Segundo informações fornecidas pelos presidentes das associações e cooperativas do Distrito Federal entrevistadas, houve prejuízos significativos na maioria delas (75%). Os impactos causados geraram prejuízos financeiros e houve perda de alimentos e produção. Por outro lado, apenas 25% dessas associações e cooperativas aguardaram os editais emergenciais para voltar a participar do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). As demais associações e cooperativas procuraram, como estratégias de comercialização, diversificar ou intensificar canais de distribuição de alimentos, como aumentar o escoamento da produção para pequenos mercados e supermercados locais, ou aumentar a oferta para clientes finais.

Os resultados da pesquisa apontam que os produtores que já tinham uma rede de comercialização, como pequenos supermercados e clientes diretos escoaram sua produção de maneira mais eficaz e de modo a não permitir maiores prejuízos. Outro aspecto relevante a se considerar é que as associações e cooperativas foram fundamentais no momento de crise para agregar os agricultores em busca de uma solução coletiva.

A resposta rápida de entidades como o Sistema CNA (CNA/Senar), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (Contar), Universidades Federais e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também se mostrou eficaz para auxiliar no enfrentamento das contingências emergenciais enfrentadas.

É possível afirmar, pelas entrevistas realizadas, que algumas das estratégias de comercialização adotadas neste período se tornarão permanentes. A exposição em redes sociais para divulgação dos produtos, impulsionar a comercialização por meio de pedidos realizados por listas de distribuição de WhatsApp ou Direct do Instagram para entrega em domicílio é uma das estratégias adotadas durante a pandemia que permanecerão na pós-pandemia.

A partir de relatos dos presidentes das associações e cooperativas podemos elencar possíveis ações futuras no sentido de ampliar a capacidade produtiva da agricultura familiar, não apenas em momentos emergenciais: i. realizar investimentos para melhorar a infraestrutura rural (estradas, energia elétrica e acesso à internet); ii. realizar editais específicos e direcionados para produção orgânica; iii. melhorar a orientação técnica e financeira ao produtor para facilitar o acesso ao crédito; e iv. desenvolver ações e programas que favoreçam a inclusão digital do agricultor familiar.

Ficou evidente, ainda, que políticas públicas específicas e programas como o PAA e o PNAE foram essenciais, tanto para manter a produção, evitar perdas e manter a renda do agricultor familiar, como também para garantir a oferta de alimentos à população dependente desses programas, como os alunos assistidos pela rede escolar e suas famílias, que fazem parte de uma população que apresenta forte fragilidade socioeconômica. Apesar disso, editais específicos para agricultura orgânica ou agroecológica poderiam ter beneficiado mais agricultores. É um momento de se buscar o aprimoramento de programas dessa natureza como forma de garantir a segurança alimentar da população brasileira, e, quem sabe, ampliando os programas de apoio ao desenvolvimento da agricultura familiar e, por outro lado, buscando sua extensão definitiva à população em estado de pobreza.”

 

 

 

 

 

 

AGROemDIA

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