Sempre aos Domingos: Maçu, amorosa traiçoeira  

Zé Tito*

Deixem que eu lhes conte um caso de amor ocorrido na cidade de Itajuí, nos rincões da Bahia. A moça tinha feições indígenas, o cabelo liso e preto, rosto arredondado, lábios carnudos, sorriso aberto que mostrava os dentes brancos e perfeitos. O nome dela: Maçu, 16 anos. O rapaz bem troncudo, olhos escuros, cabeleira cheia, comunicativo, falava pelos cotovelos. Seu nome: Venturino, 19 anos. Desde os 13 anos, ele entregava leite na cidade, daí ter conquistado a simpatia e a amizade de muita gente.

Quando viu Maçu pela primeira vez na loja de seu Eliezer Santiago, Venturino ficou todo assanhado, seu coração acelerou. O amor bateu no peito do rapaz e a porta do seu coração se abriu. Foi amor à primeira vista. Namoraram, noivaram, logo se casaram.

No dia do enlace, a Igreja do Coração de Jesus estava lotada. A nata da sociedade itajuiense compareceu em peso, numa demonstração da popularidade de Venturino e de Maçu. Até o Major Leô, seu Martiniano, seu Catolé e Jorge Correia lá estavam; dona Zélia Araújo também. O padre Pedro consagrou aquela união. O fuguetório enfumaçou a praça da matriz. Muitos convidados foram comemorar em Ipameri, onde Venturino nasceu e cresceu, eis que filho do vaqueiro do seu Anisio Araújo, dono da fazenda. Foi neste lugar que o casal apaixonado passou a viver.

Diziam as más línguas, invejosas, que Venturino era adulador de Humberto e de Hugo, filhos de seu Anisio e de dona Nair. Flamenguista roxo, ele ouvia os jogos do seu time pelo rádio de pilha que Zezi Paes Landim lhe presenteou no dia do casamento. Tudo ia às mil maravilhas, até que um dia Maçu anoiteceu, mas não amanheceu ao lado do marido. Venturino endoideceu a procurar por todos os cantos a adorada esposa; em vão.

Quatro dias depois, um vaqueiro da região espalhou que viu Maçu na garupa de um boiadeiro rumo ao Goiás. Foram 10 anos de uma união harmoniosa, de muito amor. Com a fuga da mulher, o homem passou a sofrer, sofrer com o coração vazio e a alma cheia de solidão.

Fã incondicional de Waldick Soriano, Venturino afogava suas mágoas ouvindo seu ídolo. Sua canção predileta era Paixão de um Homem.

Para ele, mulher só Maçu, o amor da sua vida, aquela que lhe fazia feliz. Ficou desgostoso, borocoxô. Pobre Venturino. Não merecia essa traição. Quando a tristeza profunda batia em seu peito, ele procurava seu confidente de confiança. E, nas sessões de “terapia”, o amigo Dante França lhe consolava: “A mulher é como rosa; formosa, mas tem espinhos”.

Um certo dia, depressivo, pensando até em suicídio, Venturino visita mais uma vez o seu amigo “psicólogo”, querendo um remédio para curar a sua dor, a dor da paixão. Foi aí que Dante bate a mão no ombro do seu “paciente” e diz: Venturino, põe uma coisa na sua cabeça, nenhum remédio cura a dor do abandono. Outra coisa: antes só que mal acompanhado. Esqueça Maçu, rapaz! Saiba que amor é fumaça, sufoca e passa.” E para encerrar aquela “sessão terapêutica”, o seu “analista” encerrou com esta citação filosófica: “A vida passa e cada passo nessa vida faz a gente viver como se fosse começar”.

Depois dessa “consulta”, Venturino voltou para sua desolada casa mais aliviado, bem mais conformado. Os pensamentos ruins saíram da sua mente. Nove anos após o sumiço da querida esposa, lá estava Venturino, no quintal, uma amolada peixeira de catorze polegadas na mão a descascar e a chupar laranja no calor da tarde.

Eis que, de repente, ele ouve um choro desesperador porta adentro. Imaginem quem era. Era Maçu em carne e osso, num berreiro sem fim, a procurar Venturino pelos cômodos do vazio e tristonho lar. Quando ela o avistou sentado num tronco de canjerana, embaixo de uma frondosa mangueira, correu para cima dele aos prantos: “Venturino, voltei para ser sua eternamente, me perdoe, pelo amor de Deus não me mate, eu ainda te amo.”

Com a peixeira na mão, assustado, ele olha nos olhos de Maçu e lhe dirige estas palavras: “Deixa de choro besta, mulher, senta aqui, vamos chupar laranja”.

*Jornalista e contador de causos

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