Programa Net Zero 40 da JBS no contexto das pressões internacionais

Najar Tubino*

A JBS é a maior produtora de proteína animal do mundo, atua em 15 países e têm 250 mil funcionários. No Brasil, são 37 unidades com capacidade de abate de 33 mil cabeças dia. Além disso, a JBS atua na área de frango com a MOY PARK – fornece produtos avícolas aos principais varejistas e empresas de food service no Reino Unido e Irlanda e Europa e é líder na produção de frangos orgânicos, criados sem gaiola e com maior bem-estar. Em junho deste ano, comprou a empresa holandesa VIVERA por 341 milhões de euros – vende produtos a base de plantas – e ainda adquiriu os negócios da KERRY CONSUMER FOODS no Reino Unido e Irlanda por 680 milhões de libras – a empresa é líder na produção de alimentos preparados à base de carne e de refeições prontas congeladas e resfriadas na região.

Enfim, é a multinacional brasileira da proteína animal e, por consequência, está sujeita a pressões e exigências legais dos países onde atua. Recentemente, lançou o Programa NET zero 40 com ampla campanha publicitária no Brasil. O objetivo principal é reduzir as emissões de gases estufa até a data limite. E também deixar de comprar gado de fazendas que praticam desmatamento ilegal na Amazônia até 2025 e em todos os demais biomas brasileiros até 2030.

“Em respeito ao futuro das próximas gerações, a JBS anuncia o compromisso de se tornar NET Zero até 2040. A empresa vai zerar o balanço de suas emissões de gases de causadores do efeito estufa, ou seja, reduzir a intensidade de suas emissões diretas e indiretas e compensar toda a emissão residual.”

A JBS dividiu em setores – escopos 1, 2 3 – o programa. No primeiro caso, é relativo às emissões de direta responsabilidade da JBS. No segundo caso, são as indiretas provenientes da geração de eletricidade para a companhia. E, em terceiro lugar, as não pertencentes e não controladas pela organização: emissões indiretas provenientes da cadeia de valor dos nossos parceiros agrícolas, fornecedores, que vão desde a produção da matéria-prima ao descarte das embalagens dos produtos.

“Sabemos que será um caminho repleto de desafios e estamos nos preparando para enfrentá-los. Confiamos na ciência e investiremos em pesquisa e tecnologia para desenvolver respostas aos desafios para os quais ainda não há solução definida”, diz o comunicado da JBS.

O Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo, com 215 milhões de cabeças, entre 160 e 180 mil hectares de pastagens e um abate por volta de 43 milhões de cabeça por ano, sendo 24% da carne exportada. A pecuária representa 8% do PIB do país, em termos financeiros R$ 618 bilhões. Entretanto, o maior crescimento do rebanho bovino e dos abates ocorre em função da expansão da pecuária para a região amazônica. Em 1988, eram 23 milhões de cabeças, em 2018 saltou para 86 milhões de cabeças. A porcentagem em relação ao rebanho nacional passou de 17% para 40%. E o fato é que, historicamente, a pecuária bovina na Amazônia tem sido o principal fator do desmatamento na região.

A Amazônia faz parte do sistema climático mundial, a floresta tem uma capacidade de evapotranspiração de sete trilhões de toneladas de água por ano. Uma árvore com uma copa de 10 metros por evaporar para a atmosfera 300 litros de água, se tiver 20 metros de copa, a capacidade passa dos mil litros – por dia. O índice de desmatamento na Amazônia, a partir de 2019, aumentou sucessivamente. Em julho, foram divulgados os números do primeiro semestre com aumento de 53% em relação ao ano passado e o maior dos últimos 11 anos.

Em julho do ano passado, a Anistia Internacional divulgou um dossiê internacional chamado “Da floresta à fazenda”, depois de visitas locais em duas reservas extrativistas em Rondônia – do Rio Jacy Paraná e do Rio Ouro Preto – e da terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau. A Anistia entrou com um pedido de informações, baseado na Lei de Acesso à Informação, e conseguiu os registros das guias de trânsito animal, da Agência de Defesa Agrosilvopastoril de Rondônia – ela tem os registros detalhados das fazendas e do trânsito de animais entre outras fazendas e também quando vão para abate. A Anistia Internacional divulgou a compra de gado de fazendas que praticam desmatamento ilegal na cadeia de fornecimento da JBS. Ou seja, o criador dessas áreas repassava os bezerros, ou novilhos para serem recriados em outras áreas legalizadas e depois eram abatidos em frigoríficos da JBS.

A Anistia, em julho do ano passado, cobrou da empresa o compromisso de monitorar todos os fornecedores – diretos e indiretos – até o final de dezembro de 2020. Também cobrou do BNDES, que é um banco público, e o segundo maior acionista da JBS, o compromisso de executar uma normativa de 2016 que obriga as empresas do setor a rastrearem todo o gado abatido, desde o início do ciclo de produção.

Em 2009, a JBS fez um Termo de Ajuste de Conduta com o Ministério Público Federal e, em 2011, assumiu o “Compromisso Público Da Pecuária”, juntamente com duas outras empresas – MARFRIG e MINERVA – de não comprar gado de área de desmatamento ilegal de reserva extrativista ou terra indígena e o GREENPEACE. Seis anos depois, a organização social abandonou o acordo. Até maio de 2020, 179 frigoríficos tinha assinado o TAC do MPF. Porém, 43 ainda não assinaram, e eles representam 30% da capacidade do abate.

O fato é que a Amazônia está no centro do debate mundial sobre mudanças climáticas. E a situação deve piorar, em relação às pressões internacionais sobre o Brasil, a partir de agora. Ainda em julho, a União Europeia encurtou o prazo para a redução de gases de efeito estufa para 2030 – corte de 55%. Na segunda quinzena de julho, as chuvas de verão provocaram enchentes e destruição, principalmente, no oeste da Alemanha, além da Bélgica, Holanda e França. Angela Merkel, chanceler do país, definiu a situação como uma grande “catástrofe”, quando já eram registradas 190 mortes.

No final de 2020, a Global Witness, organização britânica que atua na área ambiental e suas repercussões nos povos da floresta e indígenas – existe há 18 anos – divulgou um documento intitulado “Carne bovina, bancos e Amazônia Brasileira – como empresas brasileiras de carne bovina e seus financiadores internacionais dão um Greenwash – verniz ecológico – em sua ligação com o desmatamento da Amazônia”.

A Global afirmou que a JBS não estava cumprindo com seus compromissos, que além disso, havia uma avaliação equivocada dos auditores internacionais – DNV-GL (norueguesa) e a Grant Thornton (americana), sobre os resultados das auditorias, alegavam conformidades com os processos da empresa. A Global trabalhou em parceria com o IMAZON, um instituto respeitado na Amazônia. E também teve acesso as guias de trânsito animal. E divulgou dados relativos a 379 fazendas com desmatamento ilegal que venderam gado aos frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva – 327, 89 e 16 fazendas respectivamente.

Ainda no contexto das pressões internacionais sobre a JBS, o jornal inglês The Guardian, a ong Repórter Brasil, o Disclose e o The Bureau of Investigative Journalism publicaram matérias distribuídas pelas principais agências de notícias do mundo, baseadas em um vídeo postado no Facebook com um comboio de caminhões transportando gado de uma fazenda – a Estrela do Aripuanã para Estrela do Sangue, a 300 km de distância. A primeira está interditada por desmatar 1.500 hectares de floresta e a segunda sem multas ambientais.

O Programa Net Zero 40 da JBS é um avanço em termos brasileiros e a empresa tem divulgado ações que visam a proteção ambiental. Certamente o prazo de 3,5 anos – até 2025 – para não comprar mais gado de fornecedores que praticam desmatamento ilegal na Amazônia é muito longo no contexto atual das mudanças climáticas. Para citar mais um caso: logo após a Cúpula do Clima nos Estados Unidos, convocada pelo presidente Joe Biden, a Anistia Internacional divulgou um abaixo-assinado com 57 mil assinaturas de pessoas de 84 países com o seguinte título: “Diga à JBS para não comprar gado ilegal da Amazônia”.

*Jornalista

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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